Bilion�rios por conta pr�pria ganham espa�o e desafiam discurso sobre taxa��o

Bilion�rios por conta pr�pria ganham espa�o e desafiam discurso sobre taxa��o

Bilionários nunca foram exatamente populares, mas hoje são detestados. Políticos no Congresso americano falam sobre eles mais do que nunca, geralmente para denunciar seus ganhos ilícitos ou sua influência maligna na política, ou para insistir que sua riqueza precisa ser tributada. Emails de arrecadação de fundos dos democratas têm três vezes mais chances de mencionar bilionários —e quase sempre de forma negativa— do que tinham em 2024, segundo Andrew Hall, da Universidade Stanford. O grito comum da esquerda diz que "todo bilionário é uma falha de política pública", associando membros do clube dos dez dígitos a uma economia manipulada e à decadência social. No entanto, justamente quando os políticos pensam ter encontrado uma mensagem vencedora, algo inesperado está acontecendo. Cada vez mais bilionários derivam sua riqueza não do berço ou de manipulação do sistema, mas de fornecer bens e serviços úteis e de empregar milhares de pessoas. Talvez os bilionários ainda sejam falhas de política pública —mas em menor grau do que antes. Muitos bilionários são inquestionavelmente duvidosos. John D. Rockefeller, provavelmente a primeira pessoa na história cujo patrimônio líquido ultrapassou US$ 1 bilhão (e nos preços do início do século 20), era um gênio. Mas sua empresa, a Standard Oil, também se aproveitou de leis de concorrência fracas e provavelmente distribuiu subornos para inclinar o jogo a seu favor. Os oligarcas que emergiram na Rússia nos anos 1990 se apoderaram de ativos estatais durante um período de caos violento. E riqueza duvidosa é o sonho de qualquer satirista: C. Montgomery Burns, em "Os Simpsons", economiza em segurança em sua usina nuclear para cortar custos. A onda de sentimento antibilionário reflete várias forças. Após alguns anos de inflação alta afetando o padrão de vida, as pessoas querem alguém para culpar. Bilionários, nesse raciocínio, usam seu poder de mercado e compram influência política para cobrar preços excessivos por tudo, de moradia a mantimentos, e depois pagam impostos baixos sobre os lucros. A "crise de acessibilidade" e o bilionário poderoso são, portanto, dois lados da mesma moeda. E estrategistas políticos, principalmente, mas não exclusivamente, da esquerda, perceberam que bilionários são o inimigo perfeito. Um imposto sobre sua riqueza não afetaria quase ninguém que um eleitor já tenha conhecido. No entanto, muitos bilionários ganham seu dinheiro sem qualquer indício de que desfrutam de monopólios questionáveis ou favores políticos. Oprah Winfrey, com patrimônio de US$ 3,4 bilhões (R$ 17,3 bi) hoje, ficou rica porque milhões querem assistir e ouvi-la. A fortuna de Cristiano Ronaldo se baseia em marcar gols incríveis. Outros são menos conhecidos, mas igualmente impressionantes. Peggy Cherng, cofundadora do Panda Express, vale talvez US$ 6,5 bilhões (R$ 33 bi), tendo construído uma rede de restaurantes que serve refeições baratas a milhões. Yanai Tadashi, que vale dezenas de bilhões, construiu a Fast Retailing, empresa controladora da Uniqlo. Dá para realmente ter inveja de alguém que faz camisetas tão boas? A The Economist quantificou os tipos melhores (como Winfrey e Yanai) e piores (como Burns) de bilionários. Com base em dados da revista Forbes, da empresa de pesquisa Hurun e da fundação sueca Gapminder, montamos uma lista de cerca de 7.000 bilionários dos últimos 25 anos. Chamamos a riqueza de um bilionário de "não competitiva" quando ela vem principalmente de indústrias como jogos de azar, construção, defesa e matérias-primas. Esses setores frequentemente dependem de acesso político. É difícil abrir uma mina ou um cassino, por exemplo, sem amigos no governo. Contamos herdeiros na categoria "não competitiva". Herdeiros geralmente não são oligarcas. Tampouco distorceram ou violaram nenhuma lei, nem prejudicaram clientes; simplesmente nasceram na família certa ou se casaram bem. No entanto, eles plausivelmente representam falhas de política pública também, com base no argumento de que suas imensas riquezas são imerecidas. De 2001, quando nossos dados começam, até 2014, a parcela não competitiva da riqueza bilionária aumentou ligeiramente. No entanto, na última década, a parcela de empreendedores que construíram suas próprias fortunas em setores competitivos disparou para uma máxima histórica. Pela primeira vez, metade da riqueza dos bilionários do mundo é razoavelmente bem merecida. E desde 2021, a riqueza total derivada de setores não competitivos diminuiu. Oligarcas declarados tiveram alguns anos ruins. A riqueza total dos bilionários pós-soviéticos atingiu o pico em 2008, em cerca de US$ 500 bilhões (R$ 2,5 tri), uma "falha de política pública" de proporções colossais. Hoje eles valem cerca de US$ 400 bilhões (R$ 2 tri) —ainda muito, mas bem menos. A guerra devastou a base industrial que deu a Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia, sua riqueza. Roman Abramovich, o russo ex-proprietário do Chelsea Football Club, está talvez US$ 5 bilhões (R$ 25,4 bi) mais pobre do que estava em 2021, já que as sanções ocidentais contra aqueles percebidos como próximos a Vladimir Putin cobraram seu preço. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Várias indústrias clientelistas enfrentaram dificuldades. A riqueza dos bilionários do setor imobiliário caiu um terço desde 2018. Taxas de juros mais altas, a crise imobiliária da China e a queda na demanda por escritórios durante a pandemia de Covid-19 prejudicaram o setor. Wang Jianlin, fundador do Dalian Wanda Group, uma incorporadora chinesa, agora vale US$ 4,4 bilhões (R$ 22,3 bi), contra US$ 31 bilhões (R$ 157,6 bi) em 2017. Alguns magnatas de cassinos também perderam, em parte pela repressão aos jogos de azar. A herança continua sendo uma forma importante de as pessoas ficarem extremamente ricas. A família de Sam Walton, confundador do Walmart morto em 1992, vale talvez US$ 500 bilhões. Os descendentes de William Wallace Cargill, que em 1865 criou a empresa de alimentos que leva seu nome, ainda povoam as listas de ricos. No entanto, o dinheiro antigo está perdendo poder relativo rapidamente. No início dos anos 2000, quase metade da riqueza bilionária vinha de herança. Isso caiu desde então para cerca de um quarto. Você pode pensar que o boom da inteligência artificial explica a disparada da riqueza construída por conta própria. As fortunas de alguns fundadores, incluindo Jensen Huang, da Nvidia, de fato explodiram. Recentemente, Elon Musk brevemente se tornou o primeiro trilionário do mundo antes que uma queda no preço das ações da SpaceX o empurrasse de volta para baixo dos 13 dígitos. No entanto, mesmo excluindo tecnologia, a parcela de bilionários que construíram suas próprias fortunas está aumentando. Isso ocorre porque todo tipo de pessoa está encontrando ouro em outras indústrias, incluindo finanças, alimentos e manufatura. Na última década, a riqueza de Bernard Arnault, que transformou a LVMH em uma potência global do luxo, cresceu cerca de US$ 100 bilhões (R$ 508,4 bi). Robin Zeng, que há apenas 15 anos fundou a fabricante chinesa de baterias CATL, vale US$ 60 bilhões (R$ 305 bi). Tatyana Kim, a primeira bilionária russa que construiu sua própria fortuna, fundou a Wildberries, a maior varejista online do país, em 2004. A ascensão da riqueza construída por conta própria é resultado de três tendências. Uma é um mercado em alta que dura mais de uma década, no qual as ações globais renderam mais de 13% ao ano em média. Taxas de juros baixas primeiro empurraram os investidores para ativos de risco; o tecno-otimismo durou mesmo quando as taxas subiram. Isso fez muito pelos fundadores, cuja riqueza frequentemente está atrelada a ações, além de enriquecer alguns gestores de fundos de hedge. A segunda é o crescimento econômico chinês. À primeira vista, isso apresenta um enigma —e não apenas porque a crise imobiliária destronou alguns bilionários. Na última década, a economia da China cresceu mais lentamente do que nos anos 2000. No entanto, o número de bilionários chineses aumentou de cerca de 200 para cerca de 800. Um artigo de Coen Teulings, da Universidade de Utrecht, e Simon Toussaint, da Universidade de Leiden, pode ter a resposta. A criação de bilionários não é linear. Em níveis baixos de renda, mesmo um crescimento rápido pode deixar a maioria das fortunas longe da linha de US$ 1 bilhão (R$ 5 bi). Mas quando um país é mais rico, muito mais pessoas ficam logo abaixo dela. O crescimento posterior e mais lento da China pode, ainda assim, ter sido suficiente para empurrar muitos quase-bilionários acima da régua. O terceiro fator é a internet centrada no celular, que decolou em meados dos anos 2010 —justamente quando a parcela de fortunas construídas por conta própria começou a subir. O smartphone tornou pagamentos e mensagens onipresentes e permitiu que empresas alcançassem consumidores instantaneamente, centenas de vezes por dia. Isso permitiu que tipos inteiramente novos de empresas crescessem em velocidade extraordinária, da ByteDance ao Spotify, além de aplicativos de entrega e transporte. Nunca foi tão fácil ficar extremamente rico extremamente rápido. A ascensão do bilionário que construiu sua própria fortuna fortalece ou enfraquece os argumentos a favor da tributação de riqueza? Não faz diferença para alguns deles. A democracia não funciona bem se um grupo minúsculo de pessoas pode comprar influência —e isso é verdade independentemente de como ficaram ricos. Musk construiu sua própria fortuna, o que é ótimo, mas ele não escondeu seu desejo de influenciar eleições, tanto nos EUA quanto no exterior. A democracia poderia funcionar melhor sem tal influência. No entanto, se os bilionários têm poder político demais, a solução pode ser mudar as regras sobre doações em vez de mudar o sistema tributário. Isso porque a ascensão do bilionário que construiu sua própria fortuna enfraquece muito outros argumentos a favor da tributação de riqueza. Agora é mais difícil dizer, como muitos ativistas ainda fazem, que fortunas bilionárias "nunca foram realmente merecidas". Tributar Abramovich ao máximo pode parecer razoável —mas Lionel Messi? Como uma parcela maior dos bilionários de hoje cria empregos e gera ganhos de produtividade, isso aumenta o custo econômico de perdê-los, se decidirem se mudar ou trabalhar menos para evitar tributação. Os bilionários podem ser menos populares, mas os remédios propostos parecem mais fracos do que nunca. Texto de The Economist, traduzido por Helena Schuster, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

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