Benito di Paula repensou o samba com piano e romantismo popular

Benito di Paula repensou o samba com piano e romantismo popular

Uma história famosa sobre Benito di Paula tem a ver com Ella Fitzgerald. A cantora americana de jazz decidiu gravar "Madalena", composição de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, depois de ouvir o cantor fluminense, morto no domingo (18), aos 84 anos, tocá-la em uma boate com seu piano suingado. Mas, enquanto o brasileiro influenciou uma lenda do jazz americano, o contrário não é bem verdade. Embora alguns enxerguem uma veia jazzística na obra de Benito di Paula, o próprio cantor dizia que não gostava do gênero e não citava nenhum artista do estilo entre as suas inspirações. Essa percepção tem a ver com a centralidade do piano na sua música, que reimaginou o samba batucando nas teclas, injetando nele o romantismo da música brega, um retrato apaixonado do Brasil nas letras e uma latinidade de raiz africana. Sucesso ao nível de Roberto Carlos nos anos 1970, sua produção minguou nas décadas seguintes, mas sua visão original do samba resistiu ao tempo. Fluminense de Nova Friburgo, Di Paula forjou sua musicalidade se apresentando em boates e bordéis. Aprendeu a tocar violão com o pai e desenvolveu sua linguagem nas teclas por conta própria, transpondo os acordes de um instrumento ao outro. Quando o pianista da banda de baile de uma casa noturna que tocava faltou a um show, ele assumiu o posto. Seu jeito expansivo de tocar chamou a atenção, e o cantor nunca mais largou as teclas. Quando Benito di Paula começou sua carreira, na década de 1960, já havia gente no Brasil transpondo a linguagem percussiva do samba para o piano. Johnny Alf se valia da síncope do estilo brasileiro e João Donato batucava as teclas, criando desenhos rítmicos mais ligados ao toque do tamborim. Ambos estavam embrenhados nas influências de jazz e nas harmonias intrincadas da bossa nova. Di Paula vinha de outra linhagem. Fã do sambista Ataulfo Alves, ele dizia que adorava bossa nova, mas achava o gênero muito difícil de tocar. Se o estilo de João Gilberto e Tom Jobim prezava pela complexidade harmônica, a economia do canto sussurrado e uma melancolia contida, Di Paula preferia acordes mais simples, cantava como um crooner romântico e nunca rejeitou o drama. Trabalhando no circuito de boates e cabarés, ele recebeu uma proposta para ganhar em Santos, no litoral paulista, o dobro do que recebia no Rio de Janeiro. Foi em São Paulo que ele assumiu o piano e desenvolveu seu balanço com as teclas. Partia do samba, mas tinha forte inspiração em ritmos afro-cubanos, como o mambo. "Eu ouvia muito, e adorava, Perez Prado e Tito Puente. Aquilo ficou. Quando montei um trio para tocar num hotel, [a bateria] já não fazia mais [ele faz o ritmo do samba com a voz]. Era sempre direto no chimbal, com o bumbo fazendo os dois [toques] do samba e a outra mão fazendo o que fizesse. Aí, bicho, virou um ‘chá chá chá’, uma coisa que todo mundo adorava", ele disse a Charles Gavin no programa O Som do Vinil, do Canal Brasil. Foi também em São Paulo que conheceu os donos da gravadora Copacabana, responsável por publicar a maior —e mais importante— parte de sua discografia. O cantor lançou compactos na segunda metade da década de 1960, mas estreou em disco em 1971. O álbum de estreia era um retrato mais retraído do Di Paula despojado que despontaria nos anos seguintes. Era também uma obra mais de intérprete do que de compositor, que não durou nas lojas porque continha uma versão de "Apesar de Você", de Chico Buarque, censurada pela ditadura militar. O segundo disco, no ano seguinte, tinha outra cara. "Violão Não se Empresta a Ninguém", a faixa de abertura, abria com um cavaquinho e não deixava dúvidas de sua natureza sambística. Composição de Benito, "Ela", que deu título ao álbum, fez sucesso na voz de Jair Rodrigues e deu a senha para que a Copacabana apostasse na caneta —e não só na voz— de seu artista. "Um Novo Samba" é o trabalho que o estabeleceu no imaginário da música brasileira. Com 11 faixas, todas escritas por ele, sintetizou a imagem clássica do cantor —com smoking, joias, um bigode ostensivo e uma cabeleira ainda mais vasta. Mais que isso, consolidou sua musicalidade entre o samba e a música romântica popular. É desse disco a canção "Retalhos de Cetim", hoje um clássico das rodas de samba país afora, que traz Benito entre a percussividade da escola de samba e o canto sofrido de um bolero triste. Na letra, ele procura a melancolia no meio do Carnaval, com um personagem que chora em plena avenida com o coração partido. Dali em diante, Di Paula emplacou sucesso atrás de sucesso e virou figura constante na vida pública do país. Estava na TV, no rádio e nos toca-discos. Compôs "Amanheceu", de 1975, especialmente para Roberto Carlos, com quem chegou a rivalizar nas vendas de discos, aos milhões. Muito antes da onda atual de megashows, tocava em estádios de futebol pelo país. É longa a lista de sambas românticos do cantor. A sequência de "Modificação" e "Vai Ficar na Saudade", ambas do disco autointitulado de 1975, soa quase como bregas do Pará. "Não Precisa me Perdoar" e "Como Dizia o Mestre", do mesmo álbum, retratam homens em profundo sofrimento após um desentendimento amoroso. Suas músicas, no entanto, não se resumiam às letras românticas, e faziam retratos da cultura, da sociedade e da paisagem brasileira. "Sandália de Couro", introduzida por uma cuíca, une as duas coisas —um apaixonado se lembra da amada enquanto passeia pela cidade de Salvador. A Bahia era musa recorrente de Benito, como em "Bahia", de 1977, e "Maria Baiana Maria", faixa de abertura de seu clássico disco de 1976. São desse mesmo álbum, um de seus vários chamados apenas de "Benito di Paula", músicas como "Meu Brasil Meu Doce Amado" e "Tudo Está no Seu Lugar". Essa vertente de composições de exaltação do país, somada à afirmação do título dessa segunda faixa, motivou uma série de críticas de que o cantor estaria fazendo músicas para o regime militar. Em entrevista ao Conversa com Bial, da TV Globo, ele definiu a situação como "um momento de muita covardia de muita gente". "Quando saí de casa, de Friburgo, minha casa estava caindo. Mamãe com 13 irmãos. Eu tinha que trabalhar, não dava para estudar. Então, fui trabalhar. Não sei como vim parar em São Paulo, como encontrei Ella Fitzgerald, Stevie Wonder, Ravi Shankar, todo mundo me dando apoio. Enfrentei duas ditaduras horríveis —a do Getúlio e essa outra estúpida aí. Faço a música porque dei duas casas para minha mãe, com o suor do meu trabalho honesto e a ajuda de Deus. Aí vêm uns babacas, sem o menor pudor, dizer que fiz música para a ditadura. A ‘dita’ deles é que não está dura —nunca estiveram." Di Paula já contou que morou em favelas, como o Morro da Formiga, na Tijuca. Quando melhorou um pouco de vida, já em Santos, mudou-se para uma pensão de italianos, que recebiam os quadrinhos do Charlie Brown. A música do cantor que leva esse nome, veio da ideia que ele teve de apresentar ao personagem as coisas do Brasil —da torcida do Flamengo a Luiz Gonzaga. O rei do baião, aliás, foi homenageado por Benito em "Sanfona Branca", de 1975, época em que o pernambucano estava em baixa —e o fluminense em alta. Ele ficou tão agradecido que lançou "Chapéu de Couro e Gratidão", citando o fã na letra. "Como é bonito, Benito", repete a letra de Aguinaldo Batista. Ao longo da década de 1980, Di Paula foi perdendo espaço na indústria fonográfica e na música. Sua produção minguou nas décadas seguintes. Ele ficou marcado como um cantor de "samba-joia", rótulo criado nos anos 1970 para designar um tipo de samba muito popular, que incluía também artistas como Agepê e Luiz Ayrão. Recaía sobre o artista também a pecha de brega, por causa do teor romântico de parte de sua obra. Numa entrevista de 1997 à Folha, afastado dos holofotes, o cantor respondeu à acusação de ser "comercial". "Ah, mas quem não é? Eu queria ser os Beatles. Quer mais comercial que eles? Isso é que é ser comercial. Nós somos simplesmente comerciais. Só. Se você faz um disco, o que você espera? Que ele faça sucesso. Lotar o Maracanã, como fez o Frank Sinatra, é ser comercial? Fazer duetos com o Tom Jobim e com todo mundo é para vender ou para ficar na prateleira? É para vender. Mas sei que a minha música é a mais simples de todas." "Simples em que sentido?", seguiu o repórter. "Minha música é popular. Gosto do popular, do povão mesmo. Inclusive eu digo que não sou sambista, sou ‘sambeiro’. Não sou pianista, sou ‘pianeiro’", disse o cantor, que ainda se lembra de ter sido chamado de "samba-brega" e "de cafona, de cafona". Quarenta anos depois do auge de seu sucesso, e cerca de 20 depois desta entrevista, resta a certeza de que a música de Benito di Paula resistiu a modismos e ao teste do tempo. Em muitos casos, fez o caminho de volta. Se o cantor levou o samba ao piano, à noite e aos estádios, Xande de Pilares, desde a época do Revelação, trouxe Di Paula de volta ao samba mais puro, regravando com sucesso a música "Do Jeito Que a Vida Quer". Como "Retalhos de Cetim", é presença obrigatória em nove de dez rodas de samba pelo Brasil afora, fazendo justiça ao legado de Benito —o "pianeiro" que recebeu do samba sua estrutura artística, mas devolveu a ele um cancioneiro à sua altura.

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