Há 49 anos, Antônio Etemar Pinheiro de Souza, mais conhecido como Ceará, está à frente do Sena Bar, patrimônio etílico-cultural da Vila Buarque, mais conhecido como Bar do Ceará. Ele nasceu em Iguatu, Ceará. Aos 13 anos, perdeu a mãe, e seu pai o colocou num ônibus para São Paulo, onde veio encontrar os irmãos. "Jovem, né? Pra viajar sozinho", comento. "Fazer o quê?", responde, sorrindo. Os irmãos vieram aos poucos, um atrás do outro, todos atrás de oportunidades. Seu primeiro emprego foi entregando revista para o Grupo Bloch e a Editora Abril. "Revista Ele e Ela, lembra?" Com 20 anos, seus irmãos conseguiram comprar o ponto na Major Sertório, em frente à praça Rotary, onde até hoje serve uma das cervejas mais geladas de São Paulo. Enquanto o entrevisto, numa tarde de sábado, muita gente passa por lá. Ele sabe nome, profissão, estado civil e endereço de 99% delas. E agora sabe tudo de mim também, já que Ceará se interessa genuinamente por quem senta à sua frente. À minha esquerda, um médico recém-saído do plantão, a quem ele chama de doutor. À minha direita, um homem grande com um livro na mão. É Maximiliano, arquiteto aposentado, que me revela que Ceará cursou um ano de direito. Aos 27, fez cursinho no Anglo da rua Sergipe e entrou na PUC. Mas teve dificuldade de conciliar o bar com os estudos. Foi Sarney quem "tirou a lei do MEC que deixava trancar a faculdade por mais de dois anos". Por isso, não conseguiu voltar. "Meu sonho era me formar", diz, sentando na cadeira de plástico abaixo do balcão. Eu intuo que seja para sair do campo de visão dos clientes. Com os olhos molhados, conta que, apesar de não ter conseguido realizar seu sonho, seu filho David conseguiu, se formou em publicidade e trabalha na área. "O que eu não pude fazer, dei pro meu moleque fazer." Ceará é casado com Alba há 40 anos e é ela quem faz o caldo de mocotó do bar. Ele, católico, vai à missa; ela, evangélica, ao culto. Há quatro décadas se ajudam e se respeitam. Ele trabalha de domingo a domingo e só folga quando é aniversário de alguém importante ou vai viajar. "Trabalhar nunca matou ninguém", diz. Estar em paz é estar em dia com os fornecedores, principalmente os grandes, como Ambev e Philip Morris, e com o aluguel pago. O segredo é comprar bem, me confidencia, enquanto trocamos dicas dos melhores atacadões da região. Ceará é testemunha viva da história de São Paulo, desde os tempos em que não havia grades na praça e a lendária boate de dona Laura, a La Licorne, funcionava a poucos metros dali. Era, na verdade, um bordel de luxo frequentado por políticos, jogadores de futebol e celebridades internacionais. Ele conta que as dançarinas de lá, às vezes, paravam no seu bar para uma cerveja. Na "boca do luxo", como ficou conhecida essa parte da cidade na época, o bar do Ceará ficava entre a La Licorne e as boates da Bento e Rego Freitas. Por isso, havia uma altíssima rotatividade de gente passando por ali e de muitos gringos que acabavam no seu balcão. Quanta gente, aliás, já não chorou as mágoas nesse balcão, inclusive famosos! Mas Ceará, discreto, pede para não colocar no texto. Agora, que ele sente saudades desse fervo, isso sente. Nesse momento da entrevista, entra no bar um cliente chamado Pedro, que ele apresenta dizendo ser filho de um homem muito importante, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha. E é exatamente disso que ele gosta na região, das pessoas. Estudantes, professores, artistas saídos do Sesc Consolação, arquitetos, políticos, intelectuais, policiais, manicures, cabeleireiros, todo tipo de gente. Anselmo Duarte, sempre de branco, volta e meia passava por lá. Ceará já recebeu Sócrates, Vanusa, Antônio Fagundes, Zé Celso, João Suplicy e até Maradona, ainda jovem. Na época em que o comitê de Fernando Henrique funcionava lá perto, muitos políticos, como Covas e Quércia, andaram por lá. Nas últimas décadas, a história aconteceu dentro e fora de seu bar. Jânio Quadros, que costumava visitar um amigo no prédio, um dia se irritou com os carros em fila dupla, pegou um bloco de papel e multou todos eles na frente de Ceará. A atriz Lu Caruso conta que foi Ceará quem foi buscá-la, e seu carro, numa blitz, anos atrás, numa madrugada. Ceará tem disso: recebe encomendas de vizinhos, chama Uber para quem bebeu demais, vez ou outra faz vista grossa para quem está devendo e não pode pagar. Existe ali um senso de comunidade, a gente chega e sente-se em casa. Fernando, empresário e cliente assíduo, diz que o que mais ama ali é o atendimento de Ceará e seu sobrinho, a cerveja gelada e o banheiro mais limpo da cidade. Apesar de não deixar de sorrir, Ceará carrega algumas tristezas. Entre elas, a morte dos irmãos e o dia em que descobriu que tinha a doença de Chagas. Pergunto o que de mais extraordinário aconteceu em seu estabelecimento e ele diz que extraordinário é acordar com saúde e poder trabalhar.
Bar do Cear� preserva reduto cl�ssico da boemia paulistana
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