Ao final do conto "A Vaca", do russo Andrei Platônov, o menino Vássia Rubtsov precisa escrever uma redação cujo tema é: "Como viverei e trabalharei para me tornar útil à nossa pátria?". Já logo no início de "Moscou Feliz", romance inacabado do mesmo autor, a protagonista come com seus colegas de escola, todos pela primeira vez, almôndegas. A refeição traz um aprendizado —o bolinho é feito de carne de vaca— e gera uma tarefa para o dia seguinte: preparar uma redação sobre o animal e sobre a própria vida no futuro. A menina brilhante e sofrida do romance ganhara em um orfanato o mesmo nome da cidade em que nascera, depois de ser encontrada vagando pelas ruas de Moscou em meio aos conflitos dos anos seguintes à Revolução de 1917, enquanto Vássia é filho de um guarda ferroviário e mora em um local isolado no campo com o pai, a mãe, uma vaca e um bezerro, bichos que terão destinos infelizes. Também muito inteligente, provoca admiração em um maquinista a quem ajuda: "É um homem completo desde a infância, e ainda tem tudo pela frente". Quando nos deparamos com a reprodução da redação do menino em "A Vaca", estamos nas últimas linhas do conto traduzido por Maria Vragova. De Vássia, personagem a quem o narrador acompanha mais de perto na trama, não saberemos mais nada. Mas as poucas páginas do texto são mais do que suficientes para mostrar como ele aprendera de forma dura e definitiva que a lógica dos homens e do Estado, em contraposição à dos animais, pode não fazer sentido algum. Ao leitor, resta compartilhar essa percepção e, como o boi que vê os homens no poema de Drummond, constatar que "difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade". Já de Moscou Ivánovna Tchestnova, a menina, acompanharemos a passagem dos anos e saberemos muitas coisas, inclusive que o desejo que ela expressa na conclusão de sua redação não irá se concretizar: "Tenho vontade de viver normalmente e com felicidade. Não tenho mais nada a dizer". De fato, acontece tudo ao contrário, e ela terá muito a dizer. É triste, contudo, que esse muito esteja em um manuscrito incompleto e não editado dos anos 1930, publicado pela primeira vez apenas em 1991, postumamente, como quase toda a obra do autor. Ainda que Platônov acreditasse em uma literatura soviética e no projeto do novo país, os seus textos, como lembra a tradutora Letícia Mei no posfácio do volume, escancaravam "o abismo entre a expectativa e a realidade pós-revolução". Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias E isso, para o comandante Stálin, foi inaceitável. Perseguido e impedido de publicar, o escritor viu o filho de 15 anos, acusado de terrorismo, ser enviado em 1938 para um campo de trabalho forçado, de onde retornou com tuberculose. A doença matou o rapaz em 1943, e ao pai, que cuidara dele nos seus meses finais e a contraíra, em 1951. A vida bloqueada e interrompida não impediu que a obra do autor viesse a ser redescoberta e amplamente reconhecida e divulgada. "Moscou Feliz", que, como "A Vaca", chega agora ao Brasil, tem passagens extraordinárias, e alguns de seus personagens, principalmente a protagonista, são memoráveis. A um dos muitos pretendentes que encontra, por exemplo, a mulher diz: "Se se apaixonou, então se desapaixone…". Ao ouvir como resposta que eles, os homens, nascem e morrem no seio de uma mulher, que "assim se estabelece o enredo de nosso destino, em todo o círculo da felicidade", ela aconselha, sem hesitação: "Então viva em linha reta, sem enredo nem círculo". Para terminar, uma nota sobre os dois volumes. Tanto o conto quanto o romance são livros muito caprichados, com papel especial e projeto gráfico incomum. "A Vaca" traz ilustrações de Aleksandr Petrov, que dirigiu um premiado curta-metragem de animação baseado no texto em 1989, e "Moscou Feliz" faz nas suas páginas montagens com reproduções de uma sofisticada revista fotográfica soviética de propaganda do regime que circulou em diversas línguas, a URSS em Construção. Mas é preciso dizer que, para este crítico envelhecido ou antiquado, a despeito da beleza, a letra azul do texto e a diagramação variada no fundo colorido dificultaram a leitura.
Autor russo perseguido por St�lin retrata frustra��o com realidade p�s-revolu��o
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