Aumento de capital do Bradesco divide analistas entre oportunidade e prote��o

Aumento de capital do Bradesco divide analistas entre oportunidade e prote��o

O aumento de capital do Bradesco, anunciado nesta quarta-feira (29), gera questionamentos no mercado. Enquanto a oferta pode ser oportunidade, como diz o banco, ela pode estar motivada por uma necessidade de fortalecer o caixa diante de um ciclo de inadimplência e juros em alta. Após o fechamento da Bolsa, o Bradesco anunciou que seu conselho de administração aprovou um aumento de capital de até R$ 10 bilhões. O banco afirmou que houve aplicação de desconto de 6% para "incentivar os acionistas a participarem do aumento de capital". Os acionistas poderão exercer direitos de participar do aumento de capital entre 6 de agosto e 4 de setembro. A oportunidade estaria no preço relativamente descontado do banco no mercado, em relação ao histórico de capitalização. Assim, os acionistas controladores aproveitariam a ação descontada para aumentar seu investimento visando um maior retorno potencial. A medida, adotada a pedido das acionistas, possibilitará a sustentação de investimentos em tecnologia, eficiência comercial e expansão dos negócios, afirmou o banco. Outro ponto positivo destacado por analistas é que um caixa mais robusto dá fôlego para o banco acelerar o processo de transformação sob a gestão Marcelo Noronha. Com mais dinheiro, é possível investir mais em tecnologia e em redução de agências, de modo a priorizar o atendimento digital, reduzindo o custo da operação. Além disso, com um patrimônio maior, aumenta o desconto potencial no pagamento de impostos, vindos do Ativo Fiscal Diferido (conhecido pela sigla em inglês DTA, ou Deferred Tax Asset). Ele é utilizado de forma proporcional ao capital, assim, quanto maior o patrimônio, maior o desconto fiscal.Outra operação foi feita com o mesmo objetivo recentemente. O lançamento da BradSaúde na Bolsa substituindo a listagem de Odontoprev (que pertence ao banco) tem como pano de fundo um futuro follow-on que aumentaria o capital do braço de saúde da instituição. Segundo o JP Morgan, o Bradesco tem cerca de R$ 120 bilhões em DTA para ser utilizado. O banco vê a diz não crer que a operação venha de uma necessidade de aumentar o capital regulatório devido á deterioração da qualidade de crédito. "O conselho de administração e a diretoria do Bradesco estão tomando a decisão correta para o longo prazo", dizem os analistas do JP Morgan. Por outro lado, especialistas ponderam que a operação pode vir de uma necessidade, enquanto a janela para emissões de ações permanece aberta, antes das eleições e antes de índices maiores de inadimplência. "À medida que o ciclo de crédito continua se deteriorando e a incerteza em torno da qualidade dos ativos e da necessidade de provisões permanece elevada, o Bradesco pode estar aproveitando condições favoráveis de mercado para reforçar seu capital antes que surja um ambiente potencialmente mais desafiador", dizem analistas do Citi. Já o BTG Pactual classificou o anúncio como "surpreendente" e uma "medida inesperada", mas positiva. "Embora reconheçamos que a reação inicial do mercado possa ser mista, avaliamos o anúncio de forma construtiva, uma vez que a melhoria na geração de capital tangível é um pré-requisito fundamental para adotarmos uma visão mais positiva sobre a tese de investimento no Bradesco ao longo do tempo", diz o relatório do banco de investimentos. Para o BTG, o cenário não deve ser o mesmo do que em 2015, quando o Bradesco anunciou um aumento de capital que foi posteriormente cancelado em 2016 em meio à volatilidade do mercado e à pressão sobre o preço das ações da instituição financeira. O movimento deve seguir seu curso, segundo eles, devido à estrutura maior por trás, já que os acionistas controladores assumiram um compromisso firme de subscrever até R$ 8 bilhões do total, montante mínimo necessário para a homologação parcial do aumento de capital. O BTG também espera que iniciativas adicionais sejam anunciadas pelo Bradesco, já que não existe uma "solução mágica" para melhorar o consumo de DTA —ativos fiscais diferidos, ou seja, o acúmulo de créditos tributários que os bancos têm. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Um ponto que coloca o peso da discussão para o lado de a operação ser oportunidade é a participação de acionistas controladores, que podem colocar até R$ 8 bilhões dos R$ 10 bilhões potenciais. Apesar de investidores não terem uma conclusão clara, os papéis do Bradesco operam em queda. Às 12h20 recuavam 1,25%, a R$ 18,12. Como a oferta de ações irá diluir o valor da empresa por papel e terá um desconto de 6%, a desvalorização é esperada, dizem especialistas. "No entanto, esse movimento de curto prazo não significa, necessariamente, uma piora dos fundamentos do banco", diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Segundo ele, o momento de anúncio ocorre em um contexto em que se elevou a percepção de que os juros ficarão elevados por mais tempo, o que tende a aumentar o custo de captação via dívida, tornando uma emissão de ações uma alternativa eficiente para reforçar o patrimônio sem ampliar o risco financeiro. "Na minha percepção, a mensagem que o Bradesco está tentando passar é de antecipação, e não de necessidade. O banco parece estar reforçando seu balanço para preservar flexibilidade financeira e sustentar investimentos e crescimento nos próximos anos", afirma Lima. Para André Matos, CEO da MA7 Capital, a estratégia de antecipar JCP (juros sobre capital próprio) para que eles sejam utilizados na compra das novas ações visa a remuneração em capital permanente, sem quebrar o histórico de proventos, e com o benefício fiscal da medida (que não gera custos triutários para o banco) ao passo que reembolsa parte do valor distribuído. Assim, remunera o acionista sem perder caixa. Porém, para o especialista, apenas o balanço do banco que será apresentado na próxima semana poderá sinalizar se a operação é oportunidade ou necessidade. "É ali que se vê se esse reforço de capital é combustível para crescer em tecnologia e crédito, como diz o banco, ou proteção para um ciclo de inadimplência mais pesado do que se imaginava", diz Matos. RAIO-X | BRADESCO Fundação: 1943, em Marília (SP) Lucro líquido no 1º trimestre de 2026: R$ 6,8 bilhões Agências bancárias: 1.938 Funcionários: 80,3 mil Clientes: 74,3 milhões Principais concorrentes: Banco do Brasil, Itaú, Santander e Nubank

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