A sabatina do candidato à Presidência Augusto Cury (Avante), na Globo, foi péssima. Parecia evidente que o escritor e psiquiatra não tinha domínio sobre os temas que balizam debates presidenciais: segurança, educação, saúde e economia. No entanto, esse despreparo técnico parece não fazer diferença para uma parcela expressiva do eleitorado, com destaque para os evangélicos. Como explicar esse aparente paradoxo? Na abertura de sua entrevista, Cury fez menção a Jesus Cristo, a quem define como "o homem mais inteligente da história". Embora referências a Deus sejam um lugar-comum para políticos em período eleitoral, o caso de Cury revela algo qualitativamente diferente. Sua carreira como escritor e palestrante foi pavimentada sobre as duas linguagens mais influentes da contemporaneidade: a da religião e a da autoajuda, sendo esta última envolta na aura da saúde mental. É fato que Cury não possui fluência no jargão técnico da administração pública. Isto ficou demonstrado, de modo quase cômico, na sabatina no Jornal Nacional. Afinal, não será apenas a apresentadora Renata Vasconcellos que não vai esquecer o drone. No entanto, em um cenário de profundo desgaste das instituições políticas, a falta de traquejo no "politiquês" se converte em uma valiosa vantagem eleitoral. Há anos Cury se apresenta ao seu público como um "cristão sem fronteiras". Em 2014, a Sociedade Bíblica Ibero-Americana publicou uma tradução da Bíblia King James acompanhada de textos de autoria do escritor. No meio evangélico, as bíblias comentadas são uma tradição de enorme prestígio, geralmente assinadas por pastores de grande projeção. Cury estabeleceu uma ponte direta com os evangélicos ao somar, à sua Bíblia comentada, seis livros dedicados a analisar a mente de Jesus sob a ótica da psicologia e da autoajuda. Essa bagagem torna a vinculação de seu nome à Bíblia e à figura de Cristo muito mais orgânica do que a de qualquer outro candidato concorrente. O autor de best-sellers possui uma vantagem estratégica crucial: ele simplesmente dispensa o aval de "megapastores" para ser reconhecido pelos fiéis como um legítimo candidato cristão. Além disso, ao expor frequentemente em suas falas a relação de cumplicidade com a esposa e as três filhas, ele projeta o modelo ideal de família que o eleitorado conservador tanto valoriza. Mas seria essa relação orgânica com os evangélicos suficiente para mantê-lo em ritmo de crescimento a ponto de ameaçar a polarização estabelecida entre Lula e o candidato do bolsonarismo? A história sugere cautela. Se observarmos as eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização, constatamos que nenhum outsider puro jamais chegou ao Planalto. Fernando Collor (1989) e Jair Bolsonaro (2018) triunfaram vendendo-se sob a narrativa de candidatos antissistema, mas nenhum deles vinha de fora: ambos eram políticos profissionais com sucessivos mandatos nas costas. Diante de fenômenos globais como Javier Milei, na Argentina, ou Donald Trump, nos Estados Unidos, não parece impossível que o Brasil siga uma direção semelhante de messianismo antipolítico. No entanto, falta a Augusto Cury a virulência ideológica, o ressentimento e a agressividade verbal que caracterizam essa extrema direita populista internacional. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Se o Brasil de fato eleger um outsider em 2026, ele terá uma assinatura essencialmente nacional. Augusto Cury encarna o "homem cordial", descrito por Sérgio Buarque de Holanda, não no sentido ingênuo de polidez, mas daquele que age guiado estritamente pelas rédeas da emoção e do afeto, rejeitando a racionalidade da administração pública. Cury projeta um messianismo cordial que é pacificante na estética, mas potencialmente caótico na prática. Pretender governar um Estado complexo e impessoal usando apenas o afeto familiar e a motivação individual é ignorar as engrenagens da política. Na democracia real, essa recusa, ainda que cordial, da racionalidade técnica não cura a nação; apenas desorganiza o espaço público, abrindo caminho para mais um salvador da pátria, agora, o outsider terapêutico.
Augusto Cury: ser� a vez do outsider terap�utico?
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