Atriz brasileira protagoniza 'Prima Facie' na It�lia com cenografia girat�ria e radical

Atriz brasileira protagoniza 'Prima Facie' na It�lia com cenografia girat�ria e radical

Quando a atriz brasileira Melissa Vettore começa a descrever, em italiano, os argumentos usados por uma advogada para desmontar vítimas de estupro em tribunal, a escrivaninha onde ela está sentada começa a girar no palco. Primeiro devagar. Depois mais rápido. Ao fim da cena, ela desce da cadeira tonta, como se tivesse acabado de sair de um táxi em movimento. Em outro momento de "Prima Facie", monólogo escrito pela australiana Suzie Miller em 2022 e transformado num fenômeno internacional do teatro, Melissa se senta num objeto criado pela companhia do diretor suíço Daniele Finzi Pasca que parece uma mistura de gangorra e centrífuga. Enquanto a personagem narra uma noite romântica com um colega de trabalho, o mecanismo começa lentamente a se mover. Conforme a situação vai ficando desconfortável e a relação sexual se transforma numa violência, o aparelho acelera até deixá-la praticamente girando no ar. "A gente entrou na sala de ensaio e eu achava que o trabalho já estava feito, que eu tinha decorado aquele texto imenso e ia fazer como todas as outras atrizes faziam, parada, um primeiro ato e um segundo ato. Mas o Daniele ficou muito tranquilo porque ele sabia que não ia ser nada daquilo. A hora que a cenografia chegou, eu vi que ia falar aquilo rodando, girando, subindo. Foi desesperador. Quase acabou o casamento." A brasileira de 54 anos protagoniza atualmente a versão italiana de "Prima Facie", peça já montada em dezenas de países e que ganhou fama mundial primeiro com a atriz inglesa Jodie Comer, do filme "O Último Duelo" e da série "Killing Eve". No Brasil, a peça estrelada por Débora Falabella teve cerca de 150 mil espectadores desde a estreia, em 2024. Ex-advogada criminalista na Austrália, Suzie Miller escreveu "Prima Facie" a partir da observação de casos de violência sexual no sistema judicial. A história acompanha Tessa, uma advogada criminalista especializada em defender acusados de violência sexual. Vinda de uma família humilde, ela construiu a carreira aprendendo a desmontar depoimentos de mulheres em tribunal usando argumentos técnicos e lacunas da lei. Até sofrer uma violência semelhante cometida por um colega. Melissa vive desde 2018 na região italiana da Suíça, onde integra a companhia de Finzi Pasca, diretor conhecido por espetáculos ligados ao teatro físico, à dança e a elementos circenses. Ela está sediada em Lugano. A decisão de entrar na companhia significou abandonar uma trajetória consolidada no teatro brasileiro. Na época, Melissa fazia duas peças em cartaz em São Paulo e participava da série "Os Dias Eram Assim", da Globo. "Eu fui bem impulsiva, deixando uma carreira mais de protagonismo por uma coisa de companhia, de grupo. Eu vinha de um teatro de prosa. Sempre trabalhei muito com corpo, mas eu sou da palavra. E aí fiquei um pouco tentando me achar nesse lugar de um teatro mais físico." Foi procurando um novo texto que ela ouviu falar de "Prima Facie" por um amigo em Londres. Descobriu então que dezenas de atrizes pelo mundo já estavam montando a peça. "É um negócio impressionante. Tem montagem na Sérvia, Turquia, Islândia, China, México, Portugal. Hoje são quase 50 atrizes fazendo o mesmo papel. Eu não conheço nenhuma peça de prosa contemporânea que tenha viajado tanto." A atriz diz que esse alcance foi um dos motivos que a atraíram para o projeto. "Às vezes as pessoas acham que é uma produção que viaja pelo mundo. Não é. Neste caso, o que viajou foi o texto. Cada país cria sua própria versão. Onde ela chega, acontece alguma coisa. O texto é realmente fenomenal." Melissa assistiu às versões de Jodie Comer e de Débora Falabella antes da estreia italiana. Diz que as montagens tomam caminhos muito diferentes. "Foi ótimo ver as duas porque você percebe como o texto aguenta leituras completamente distintas. A da Débora é muito forte e parte de escolhas muito diferentes das nossas. A italiana acabou indo para um caminho mais físico, porque é a linguagem da companhia do Daniele." Na montagem italiana, papéis caem do teto durante o espetáculo, objetos aparecem nas mãos da atriz como truques de ilusionismo, sapatos ficam suspensos sobre o palco por ímãs e uma escrivaninha motorizada atravessa a cena comandada por controle remoto. Um técnico escondido funciona quase como um bonequeiro invisível. "Eles criam essas parafernálias cênicas e depois você precisa aprender a atuar dentro delas. Tem uma cena em que eu estou dizendo o texto enquanto a mesa gira em velocidade alta. Em outra, eu fico praticamente centrifugada. Então o desafio não era só decorar. Era conseguir continuar pensando como personagem enquanto o corpo estava completamente desequilibrado." A atriz levou seis meses apenas decorando o monólogo em italiano, sua quinta língua de atuação. "Primeiro eu estudei exaustivamente as versões em inglês e português, principalmente nas partes mais difíceis. Depois fui estudar os termos jurídicos. O italiano não abrevia nada, é uma língua muito oratória, então as frases ficam enormes. A Suzie Miller escreve quase como um rap, cortando as frases no meio para dar velocidade. Aí eu dividia em blocos, repetia palavra por palavra, gravava, voltava, corrigia sotaque." Ela afirma que o processo foi tão intenso que acabou funcionando como uma espécie de isolamento. "Tinha um momento em que eu já não conseguia pensar em mais nada. Minha mãe [Márcia Dias, referência na defesa dos direitos de crianças e adolescentes, morreu em maio deste ano] estava doente no Brasil, eu viajava muito nesse período, então virou uma obsessão mesmo." A estreia em Lugano, cidade suíça onde a companhia está sediada, terminou com mais de oito minutos de aplausos em pé. "Eu tinha certeza de que ia acabar com a carreira do meu marido. Pensava: ‘Finalmente ele resolveu fazer teatro de prosa e vai ser um desastre’. Mas ao longo da peça fui percebendo o público cada vez mais silencioso, num silêncio muito atento. Quando acabou, eles começaram a aplaudir antes mesmo de eu sair de cena." Depois da sessão, formou-se uma fila de espectadores querendo conversar com a atriz. "Veio advogado dizendo que nunca mais queria defender certos casos. Vieram homens dizendo: ‘Minha vida vai mudar depois disso’. E também muitas mulheres contando situações pessoais. A peça vai formando uma rede." Em Milão, a produção passou a ser ligada a campanhas por educação afetiva nas escolas. Em Pádua, sessões foram organizadas junto à ordem local dos advogados. Em Lugano, policiais, psicólogos, enfermeiras e associações femininas passaram a frequentar debates depois das apresentações. Segundo Melissa, a reação italiana ao tema costuma ser mais explosiva do que a brasileira. "No Brasil a gente tomou tanta pancada vendo injustiça que talvez esteja um pouco anestesiado. Na Itália eu sinto mais indignação imediata. O público reage muito." Na adaptação italiana, a personagem ganhou origem latino-americana para justificar o sotaque da atriz. Em algumas cenas, Melissa fala português no palco ao conversar com a mãe da personagem. "Isso me ajudou muito. Porque ela vem de um lugar humilde, de uma família meio caótica, e falar português nesses momentos traz uma fragilidade diferente para ela." A atriz diz que o espetáculo acabou mudando também sua posição profissional na Europa. "Entrar em outro mercado já é difícil. Sendo estrangeira, mais ainda. Eu sabia que precisava provar que podia ocupar aquele lugar. E essa peça acabou me dando um respeito muito grande pelo trabalho. Acho que foi isso o que mais mudou." LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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