As vacinas e a estupidez humana

As vacinas e a estupidez humana

Ignorância é uma coisa, estupidez é outra. Todos nós somos ignorantes em várias áreas. Não entendo nada de astronomia e não falo mandarim, mas, se decidir estudar ou se alguém me der aulas, pelo menos um pouco vou aprender. Para a ignorância existe antídoto: o aprendizado. Para a estupidez não há remédio, porque ao estúpido falta autocrítica, é um ignorante que se julga autoridade no assunto. Do alto de sua empáfia, é capaz de falar os maiores absurdos com ares de doutor honoris causa. Impossível convencê-lo com argumentos lógicos, ele é imune à racionalidade. Se a realidade o contradiz, ele faz malabarismos para distorcê-la; as palavras e as ideias alheias não o interessam, a dúvida não faz parte do seu repertório, o estúpido é um poço de certezas absolutas. O que às vezes nos desconcerta é que a estupidez pode acometer determinadas áreas da cognição, enquanto preserva outras. Um dos homens mais cultos que conheci, professor respeitado no ambiente acadêmico, foi internado em coma hiperglicêmico porque se negava a tomar medicamentos alopáticos para o diabetes. Não havia quem o convencesse de que chás de ervas e outros tratamentos "naturalistas" eram inúteis.Nasci no Brás, na zona leste de São Paulo. Não vacinavam as crianças naquele tempo. Tive sarampo, coqueluche, difteria, varicela, cachumba, escarlatina e perdi a conta de quantas viroses respiratórias. Quando peguei rubéola, as vizinhas trouxeram as filhas para brincar lá em casa, para que adoecessem e adquirissem a imunidade que as protegeria das malformações fetais quando fossem adultas. Eram as "doenças da infância", espécie de tributo a pagar para atingir a adolescência. Os que ficavam pelo caminho engrossavam as taxas de mortalidade infantil. Qualquer doença febril que deixasse a criança derrubada enlouquecia mães, pais e avós, tomados pelo pavor da poliomielite. Nunca estudei numa classe sem uma menina ou menino com aquelas próteses metálicas, rústicas, que batiam contra o assoalho. Mais tarde, na faculdade, visitávamos o setor do "pulmão de aço", equipamento que recebia as crianças em que o vírus paralisara os músculos respiratórios. Era um tubo metálico com um colchão na parte inferior, no qual a criança permanecia deitada, só com a cabeça do lado de fora. Em movimentos rítmicos, a máquina retirava e repunha o ar no interior do tubo, para expandir a caixa torácica e encher os pulmões de ar e depois comprimi-la para obter o efeito contrário. A criança ficava sem se mover até a musculatura se recuperar ou até que a morte a libertasse. Quando faltava luz, o hospital inteiro corria para manter as máquinas funcionando mecanicamente.No Hospital Emilio Ribas, tínhamos aula na enfermaria de varíola, onde os pacientes passavam os dias no leito, proibidos de chegar até o corredor para não transmitir o vírus. Traziam no rosto as marcas das vesículas, que deixavam cicatrizes definitivas. Muitos acabavam cegos. Nas formas mais graves, a mortalidade chegava a 50%. Em 1980, a OMS declarou que a vacinação eliminara a varíola do mundo. Em março de 1989, ocorreu o último caso de poliomielite no Brasil. Em 2016, a OMS nos outorgou o certificado de país livre do sarampo. Infelizmente, a queda dos índices vacinais permitiu a reintrodução do vírus em 2019. Neste ano já ocorreram 23 casos novos no estado de São Paulo.Cá entre nós, caríssima leitora e prezadíssimo leitor, uma pessoa com pleno acesso a informações como estas e que se orgulha de ser contrária à vacinação em nome de teorias estapafúrdias ou, pior, por posições políticas é ou não é estúpida? Só a estupidez pode explicar tamanha imbecilidade. Agora, aqueles que se empenham em disseminar boatos, para minar a confiança em vacinas que passaram por todos os estudos exigidos pela Anvisa, merecem punição exemplar. Devem ser processados e julgados por cometer um crime contra a saúde pública. Não é crime induzir crianças, adolescentes e adultos incautos a correr risco de morte por acreditarem nas mentiras que contam? Nos casos dos médicos que o fazem —infelizmente existem alguns—, o crime é mais grave. Qual a justificativa para um profissional que estudou seis anos para entender o funcionamento do organismo humano defender ideias e teorias sem sentido, que prejudicarão a sociedade inteira? Os conselhos médicos deveriam impedi-los de exercer a profissão. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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