Existem muitas formas de resistir à opressão. Há quem pegue em fuzis para se juntar à luta armada. Há quem prefira pichar muros e gritar palavras de ordem. Existem aqueles que decidem empunhar cartazes e bandeiras, mas também existe quem escolhe o silêncio para escapar da violência. As dez mulheres que integram a peça "As Troianas" escolheram cantar para resistir à barbárie. Com direção de Zé Henrique de Paula, o musical tem como inspiração as histórias da Torre das Donzelas. É assim que era conhecida a ala feminina no presídio Tiradentes, em São Paulo. Durante a ditadura militar, essa penitenciária recebeu mulheres acusadas de crimes políticos, dentre elas a ex-presidente Dilma Rousseff. Em meio à brutalidade da prisão, elas formaram laços de solidariedade para sobreviver ao cárcere. Não à toa, o musical tem como fio condutor a união entre as personagens. Isso se faz sentir por meio de números musicais que têm o coro como protagonista. "Para elas, era importante reforçar o coletivo", diz Fernanda Maia, que assina a direção musical do espetáculo. "Valorizar o todo era algo presente nas inquietações e nos desejos delas." Por isso, após receberem a liberdade, as prisioneiras deixavam peças de roupas para que as outras pudessem usar. Além da solidariedade, a arte tinha um papel importante para elas. Prova disso é que cantavam frequentemente dentro da prisão, como se a música fosse uma forma de sublimar o sofrimento. "Elas faziam isso para se manter vivas na opressão e no cárcere. Cantavam para lembrar de que estavam lutando por aquilo que achavam correto, justo e digno", afirma Maia, que concebeu o repertório do espetáculo tendo como referência as canções de protesto dos anos 1960 e 1970. Algumas das músicas carregam a verve libertária de "Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores", de Geraldo Vandré. Outras evocam o lirismo melancólico de "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc. As personagens, contudo, não cantam apenas canções de protesto. Quando uma delas é solta, as colegas entoam "Suíte do Pescador", de Dorival Caymmi. "Minha jangada vai sair pro mar / Vou trabalhar, meu bem querer", dizem elas. Essa cena foi inspirada em uma prática que acontecia na Torre das Donzelas quando uma das presas políticas recebia a liberdade ou era transferida de unidade. As músicas desempenham papel fundamental na produção, mas os diálogos também ajudam a construir a narrativa. Essa é uma das mudanças em relação à primeira montagem de "As Troianas", realizada pelo Núcleo Experimental há 17 anos. À época, eles retrataram mulheres em um campo de concentração nazista no fim da Segunda Guerra Mundial. As personagens se expressavam apenas por meio do canto, numa metáfora para a impossibilidade de se comunicar livremente. Na nova montagem, a companhia não apenas mudou o tempo histórico, mas também incorporou diálogos ao texto. "As mulheres têm mais agência e, portanto, mais voz", afirma Maia. Nos momentos de maior voltagem dramática, elas usam essa voz para se opor aos desmandos da ditadura. Isso acontece quando Hécuba, personagem de Nábia Villela, tenta impedir a transferência da filha Cassandra para outro presídio. Vivida por Patrícia Gifford, a personagem acaba separada da mãe, apesar dos protestos das detentas. "A Hécuba foi inspirada nas mulheres que foram perdendo a família inteira durante a ditadura", diz Zé Henrique de Paula, o diretor do espetáculo. A desestruturação familiar ecoa também a história que Eurípedes narrou em "As Troianas", livro escrito em 415 a.C no qual a peça se baseia. Na obra, o dramaturgo grego mostra como as mulheres de Tróia foram escravizadas e violentadas após a derrota para a Grécia. Para especialistas, a trama é um manifesto antibelicista. "Mas a gente não pode esquecer que três das quatro personagens femininas principais da peça são mãe, filha e nora", diz Zé Henrique. "É uma história que tem uma estrutura muito familiar." O diretor acrescenta que as personagens de Eurípedes guardam paralelos com as presas políticas da ditadura. "A violência contra o corpo da mulher, o silenciamento e a formação de uma comunidade para resistir são pontos inegáveis dessa analogia", diz ele, para quem o musical é uma forma de encarar memórias incômodas. "É lidar com esse passado que não é distante e que assombra a gente como um fantasma de tempos em tempos."
'As Troianas' vira met�fora nos palcos para dor das mulheres na ditadura
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.