As eleições estão para a comunicação como a Fórmula 1 está para a indústria automobilística. Nas duas, tecnologias e estratégias são testadas no limite, sob pressão e com resultados públicos. Telemetria, câmbio acionado no volante e recuperação de energia passaram pelas pistas antes de chegar às ruas. Na comunicação, o percurso é parecido: o que funciona numa campanha eleitoral reaparece nas empresas. Em 2008, Barack Obama mostrou a força das redes sociais. Em 2016, Donald Trump e Cambridge Analytica levaram a segmentação por dados ao centro do debate. Em 2018, Jair Bolsonaro evidenciou a potência do WhatsApp. A eleição de domingo (25), que reelegeu Lula (PT) com 51,79% dos votos válidos, após terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), acrescenta três camadas a essa história.A primeira é o medo de perder. Flávio construiu sua candidatura sobre o desejo de mudança; Lula concentrou sua mensagem nos riscos da alternativa. Uma leitura possível é que o segundo turno deslocou a discussão da insatisfação com o governo para o receio do que viria depois. Kahneman e Tversky mostraram que perdas podem pesar cerca de duas vezes mais que ganhos equivalentes. Empresas enfrentam essa assimetria em reestruturações, fusões e trocas de comando. Enquanto anunciam sinergia e eficiência, funcionários calculam perdas de estabilidade, status e autonomia. A resistência costuma ser interpretada como falta de engajamento, quando pode expressar um cálculo racional. Mapear perdas percebidas deveria receber tanta atenção quanto projetar ganhos. A segunda camada é a velocidade de construção de audiência. O canal de WhatsApp do deputado André Janones tinha cerca de 60 mil seguidores ao fim do primeiro turno. Três semanas depois, beirava 11 milhões. Criados em 2023, os canais estrearam numa eleição presidencial em 2026. O uso gamificado da ferramenta revelou a capacidade de mobilizar uma audiência inexistente semanas antes. A vantagem mudou de lado. Em 2018, as redes descentralizadas foram associadas à direita. Em 2026, o campo adversário reproduziu essa capacidade em escala. Vantagens tecnológicas têm prazo curto. O que permanece é a capacidade de organizar pessoas em torno de uma razão para agir. Para as empresas, há um alerta: consumidores insatisfeitos podem reunir centenas de milhares em dias, fora dos canais monitorados pela marca. Menções e curtidas medem alcance, não necessariamente risco. O indicador decisivo é a conversão de atenção em comportamento coordenado: boicotes, reclamações em massa, pressão regulatória ou manifestações. Isso raramente aparece nos relatórios tradicionais. A terceira camada é institucional. Como os canais estreavam numa eleição presidencial, coube à Justiça Eleitoral definir suas regras durante a disputa. Em 11 de outubro, uma liminar do TSE suspendeu o canal. Quatro dias depois, a corte aprovou uma resolução sobre canais oficiais registrados entre os turnos. A regulação tornou-se parte do jogo. Na Fórmula 1, inovações passam pelo crivo da federação, que interpreta regras diante de novas soluções. Equipes vencedoras incorporam essa relação à engenharia. Na comunicação é preciso levar em consideração a atuação desses agentes. Os canais que conectam empresas a seus públicos pertencem, em geral, a plataformas privadas, sujeitas a mudanças de políticas, algoritmos e interpretações regulatórias. Silvio Meira e Rosário Pompéia, em "A Próxima Democracia", descrevem um ambiente que precisa se adaptar aos novos tempos, no qual físico, digital e social se entrelaçam. Quem compreende apenas o cidadão/consumidor enxerga metade do tabuleiro; o restante é institucional: reguladores, tribunais e plataformas definem as condições do jogo. Mas há um limite para a metáfora. Campanhas são sprints, com data para terminar e resultado conhecido em horas. Empresas disputam uma temporada sem fim. Na eleição, o protesto tem hora e urna. No mercado, muitos insatisfeitos vão embora, e a empresa só percebe quando a perda vira número. As campanhas aperfeiçoaram técnicas para medir e mobilizar a voz. A reputação corporativa exige compreender também a saída silenciosa. A transferência de tecnologia das pistas para as ruas sempre exigiu adaptação. Na comunicação, ela começa por reconhecer que, para uma empresa, a apuração nunca termina. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
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