Nos últimos anos, venho acompanhando um dilema comum a muitos artistas: se colocar ou não se colocar politicamente. Não estamos falando de um cenário normal, onde uma opinião tem a leveza de um verso. Estamos falando de um país apreensivo, cindido e ainda irrigado pelo ódio e pelo ressentimento, onde um comentário atravessado pode render a perda de milhares de seguidores, como já aconteceu com diversos artistas. Não é só perder seguidores. Ainda que menos, o boicote segue existindo, às vezes de parte a parte, para azar de restaurantes, bares, lojas e, obviamente, artistas. É cruel com o comércio. É cruel com escritores, atores, músicos, artistas plásticos, cineastas; pessoas que vivem da sua produção e já sofrem para sobreviver em um país que adora consumir arte, mas detesta apoiar a arte, e que critica a Lei Rouanet sem sequer entendê-la. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Nesse cenário já tão precário, de pouca valorização da cultura, ninguém quer perder leitores, ver a plateia vazia, o show micado, o patrocínio comprometido. Ou ter a imagem prejudicada. Até porque o capital de um artista é a sua imagem, geralmente construída a duras penas. Então por que, mesmo arriscando parte de seu capital, tantos artistas seguem se colocando politicamente? Talvez porque, em uma sociedade, sejam como a biruta que se enche de vento, sensíveis para captar o que está no ar e apontar uma direção. Talvez porque exista uma ameaça à soberania. Talvez porque tenham muito mais do que followers a perder, a começar pela própria liberdade de expressão, um dos primeiros direitos ameaçados em governos que flertam com o autoritarismo. Talvez porque —adoro essa opção— se recusem a pensar só em si mesmos, ainda que isso possa soar inocente na Era do Cinismo. Talvez porque simplesmente não aguentem mais o desfile de barbáries. Talvez porque percam aqui, mas ganhem ali a simpatia de outras pessoas. Ou porque, no fundo, não tenham nada a perder se comparados aos que perderam a vida por se posicionar durante a ditadura. Agora, vamos lá: artistas têm a obrigação de se colocar politicamente? Não, artistas não têm obrigação de nada. Nadica de nada. E devemos inclusive lutar por essa não-obrigação. Mas eu, pessoalmente, admiro mais os que se posicionam. Pela sua disposição. Por falarem em bom som o que muitos não têm coragem ou condições de falar. Por darem uma banana para a Meta ou nos lembrarem que números de seguidores e de vendas não são tudo. Por terem um comportamento coerente com suas obras, em geral questionadoras e atentas ao seu tempo. Ou por nos lembrarem que não estamos sós. Os artistas isentos que me desculpem, mas sou mais Caetano, Chico, Gil e Geraldo Azevedo, que se reuniram para cantar juntos sua opinião. Sou mais Denise Fraga, Malu Mader, Raphael Montes, Zélia Duncan, Camila Pitanga, Dadá Coelho, Paulo Betti, Fábio Porchat, Drik Barbosa, Daniela Mercury e tantos outros que poderiam estar fazendo massagem, compras, reiki ou nadando em Copacabana mas estão na frente dos seus celulares quebrando a cabeça para achar o melhor jeito de falar sobre o dizível e o indizível. O que será o amanhã? Responda quem puder, porque eu não faço a menor ideia. Só sei que não estamos sozinhos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Artistas t�m que se posicionar politicamente?
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