Enquanto muita gente enxerga nas muletas um sinal de fraqueza e limitação, a bailarina Fernanda Maciel vê nelas um símbolo de beleza e potência. Foi pensando nisso que ela decidiu posicionar esses objetos no centro do palco durante a peça "Entre Ellas", produção da companhia de dança Kinesis e um dos destaques do Festival Acessa BH –projeto que joga luz sobre trabalhos de artistas com deficiência. Aos 20 anos, Maciel sofreu uma lesão na medula que fez necessário o uso de muletas para se deslocar. Por meio da gestualidade, o espetáculo narra justamente o processo de se tornar uma pessoa com deficiência. Maciel começa a performance se contorcendo sobre o chão em movimentos lentos, como se tentasse expurgar uma dor lancinante. A cena parece uma metáfora para o instante em que a artista se percebeu uma pessoa com deficiência. "É um processo doloroso, em que há luto, mas também existe luta. O luto acontece porque é uma coisa que não tem como voltar. Não é algo que se resgata", afirma Maciel. "Já a luta existe para nos reconhecermos do modo como somos e lutarmos para que as pessoas nos aceitem dessa forma." O segundo momento da performance parece evidenciar a transformação da dor em resistência. Nessa hora, Maciel e sua colega de cena, a também bailarina Grazielle Mendes, se entrelaçam a muletas como se os objetos fossem uma extensão delas mesmas. "Eu fiz das muletas algo para além de uma tecnologia de apoio para andar. É um elemento que vai se incorporando ao meu próprio corpo e que faz parte da criação da dança." A ideia é um desdobramento do conceito de "Mulet(an)dança" que ela desenvolve no doutorado em educação na Universidade Federal de Minas Gerais. "É a ideia de que a intimidade com a muleta nos transforma em um corpo só", diz Maciel, artista que almeja atribuir beleza a um objeto ainda visto de forma negativa. "Assim como a muleta pode ser vista como algo criativo, cênico e artístico, o corpo de uma pessoa com deficiência também o pode. Ele consegue ser belo e ter uma outra estética para ser incorporado à arte." Apesar de esforços como esse, a inserção de artistas com deficiência no mercado encontra percalços. De acordo com Maciel, a invisibilização desses profissionais em espetáculos ainda é grande. "A cena artística da dança é corponormativa. Você raramente vê ator com uma deficiência presente numa peça de teatro", diz ela, para quem existe um pensamento limitado sobre o trabalho desses profissionais. "Uma dança comigo não vai ter salto e pirueta, mas isso não faz dela uma dança menor, com uma estética que não pode ser fluida e considerada bela." Ela acrescenta que outro problema é o chamado "cripface", ou seja, a prática de escalar artistas sem deficiência para papéis em que essa é uma das características do personagem. "Eu realmente não vejo sentido nisso, porque estão tirando oportunidades dos artistas com deficiência." Para dar visibilidade ao trabalho desses profissionais, os irmãos Daniel e Lais Vitral idealizaram o festival Acessa BH, há dez anos. A mostra acontece em Belo Horizonte até o dia 27 de setembro, reunindo espetáculos, performances, sessões de cinema e lançamentos de livros. "A gente teve a ideia de pensar um projeto que fosse não só acessível para o público, mas que trouxesse esse profissional para uma posição de destaque que a gente não está acostumado a ver", diz Lais, que assina a curadoria do Acessa ao lado do irmão. "A gente vive num mundo extremamente preconceituoso, onde há esse capacitismo de achar que pessoas com deficiência não são capazes e profissionais." Diante desse problema, a produtora cultural considera a arte um instrumento importante de conscientização, com o poder de influenciar as pessoas e trazer temas urgentes para o debate. É isso o que faz Benedita Casé na peça "Surda", uma das produções presentes no festival. Sobre o palco, a atriz encena a vida de Júlia Spadaccini, escritora e roteirista que criou o texto do espetáculo usando como base a própria vida. Aos 19 anos, ela recebeu o diagnóstico de perda auditiva, episódio que é o fio condutor da peça. Essa história se entrelaça à vivência de Casé, artista que teve perda na audição quando era bebê. "O que me tocou muito no texto foi a forma com que a Júlia escreveu. A peça é uma aula sem parecer uma aula. Ela provoca muito, faz o público pensar e refletir", afirma Casé, para quem produções como essa ajudam a desmistificar preconceitos. "A arte serve para isso e é uma das coisas mais bonitas do teatro. É fazer com que as pessoas saiam completamente diferentes, pensando na nossa relação com o outro e em como a gente vive."
Artistas com defici�ncia assumem protagonismo em cena no festival Acessa BH
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