Artista mostra vida e morte das �rvores de S�o Paulo

Artista mostra vida e morte das �rvores de S�o Paulo

O que não faltam são árvores cortadas em São Paulo. Virou um drama urbano. Na semana passada, por exemplo, várias delas foram abaixo no largo Padre Péricles, no bairro Perdizes, porque suas raízes estavam afetando as calçadas ao redor. Elas são eliminadas também por podas mal feitas, para proteger a rede elétrica, para dar lugar a projetos imobiliários ou de forma arbitrária. Percebendo essa matança desenfreada, o artista plástico André Maciel, 40, encontrou uma forma de preservar a memória das plantas e, ao mesmo tempo, protestar contra a destruição do patrimônio vegetal da cidade. Criou o projeto Aqui Existiu uma Árvore e passou a fazer gravuras de tocos usando uma técnica de impressão chamada monotipia, que usa imagens do mundo real e produz uma obra única com resultados espontâneos. Outros artistas já usaram a técnica, como a brasileira Carmela Gross e o polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg. Carmela gravava texturas de pedras e Krajcberg, de ossos e árvores. O método também foi muito adotado em trabalhos científicos. "Eu venho da xilogravura e há dois ou três anos comecei a observar muitas árvores cortadas em Pinheiros, onde moro hoje", diz Maciel. "Vi que o toco restante da planta é uma espécie de matriz de impressão." Segundo o artista, quando se observa o que sobra do tronco, ele mostra os anéis de vida, um registro da idade da árvore. Por outro lado, quando ela é cortada ficam as marcas da dentição da motosserra. A impressão revela uma linha do tempo, com os desenhos da vida e da morte. Maciel busca especialmente espécies nativas do Brasil e da América do Sul, como a tipuana e a sibipiruna. O que ele faz é passar uma tinta preta à base de água no resto do tronco e colocar uma folha de papel com 70 cm por 1 m por cima para carimbar o desenho com um rolinho de borracha. Depois disso vem a parte de identificação e localização geográfica da árvore. Pelo Google Maps, ele consegue a latitude e a longitude em que a planta se encontra e recupera a imagem de quando ela estava viva. Também observa as espécies que estão nas proximidades. O nome e a localização são incluídos na gravura por meio de um prelo, máquina de prensa usada na tipografia. "O que faço é uma forma sutil de protesto", afirma o artista. "As árvores têm a função de diminuir a temperatura ambiente, conduzir água para o solo e atrair passarinhos. Muitas delas estão sendo cortadas mesmo estando saudáveis." As impressões de Maciel não têm um destino comercial imediato: por enquanto ficam armazenadas no seu arquivo pessoal. Em São Paulo, ele já fez cerca de 30, não só em Pinheiros, mas em outros bairros, como Jaguaré e Lapa. O processo de realização das gravuras é exibido em vídeos nas mídias sociais. Esse conteúdo viralizou e agora a ideia do artista é repetir o mesmo que faz em São Paulo em outras partes do Brasil. Entre seus planos está ir para o Paraná registrar o corte de araucárias. Na semana passada, inclusive, ele estava no Rio de Janeiro para produzir dez gravuras que serão apresentadas na Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro). Trata-se de uma exposição que reúne obras de vários artistas que têm as mudanças climáticas como tema. Antes de fazer a monotipia dos tocos das árvores, Maciel desenvolveu até 2018 um outro projeto chamado Lixiviação, palavra associada ao processo de degradação do solo. O trabalho consistia em fazer aquarelas baseadas em fotografias de carros de ferros-velhos instalados em regiões distantes da cidade, como Parelheiros e Carapicuíba. A opção pela aquarela se deu por se tratar de uma tinta solúvel em água, uma solução ecológica. Os desenhos foram expostos na França, Coreia do Sul e na feira SP-Arte, na capital paulista. "O trabalho nos ferros-velhos me ajudou com o das árvores, principalmente na questão do mapeamento e da localização", conta. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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