Arranha-c�us se multiplicam em Miami e transformam paisagem da cidade

Arranha-c�us se multiplicam em Miami e transformam paisagem da cidade

Em julho, o Cipriani Residences, no bairro de Brickell, tornou-se o edifício mais alto de Miami e o prédio residencial mais alto ao sul da cidade de Nova York. Com cerca de 289 metros, superou em 25 metros o detentor anterior do título, o Panorama Tower, construído há 9 anos. O Cipriani, por sua vez, será superado pelo Waldorf Astoria Residences em 2028. Depois, até 2030, o Waldorf será igualado pelo Miami Riverbridge, pelo Dolce & Gabbana e pelo One Bayfront, todos com previsão de atingir cerca de 319 metros, o limite de altura estabelecido pela FAA (Administração Federal de Aviação dos EUA) para permitir rotas seguras de entrada e saída do Aeroporto Internacional de Miami. Os edifícios superaltos (acima de 299 metros) e os mega-altos (acima de 599 metros) ainda são anomalias de engenharia relativamente raras. Atualmente, prédios mega-altos existem apenas na Ásia e no Oriente Médio.A entrada de Miami nesse grupo de elite sinaliza uma nova era para a cidade. "Eu costumava dizer que Miami estava vivendo um grande momento, mas não sei se dá para ter um ‘momento’ durante cinco anos", disse Ryan Shear, sócio-administrador da incorporadora PMG, responsável pela construção do Waldorf Astoria Residences, o primeiro edifício superalto da cidade. "Acho que Miami está vivendo uma revolução." Outros arranha-céus em desenvolvimento incluem o Delano Residences (300 metros), a nova sede da gestora de fundos de hedge Citadel (291 metros), a Okan Tower (274 metros), o Residences at 1428 Brickell (262 metros), o 619 Brickell (270 metros), o Baccarat Residences (258 metros) e o Mercedes-Benz Residences (235 metros). Também há o Aston Martin Residences, em Brickell, que foi concluído em 2024 e tem 250 metros de altura. Uma simulação em vídeo da biblioteca presidencial proposta por Donald Trump no centro de Miami mostra um edifício elevando-se acima do horizonte da cidade, mas a altura exata não foi revelada. O desenvolvimento de Miami às vezes parece estar em desacordo com as realidades geográficas e geológicas da região. A Flórida é, em sua maioria, uma massa de terra subtropical plana e de baixa altitude, ameaçada pela elevação do nível do mar, pelo aquecimento das águas e por furacões cada vez mais fortes.Mas, à medida que a demanda por imóveis em Miami disparou, ficou mais difícil encontrar terrenos livres. Luis Ramirez, engenheiro estrutural e diretor-geral da DeSimone Consulting Engineering, empresa de engenharia estrutural responsável pelo Aston Martin Residences, explicou que, há 20 anos, as incorporadoras encontravam facilmente quarteirões inteiros para construir, mas que hoje "os terrenos dos projetos ficaram muito menores". Para lucrar e aproveitar ao máximo o espaço, acrescentou, as incorporadoras não têm outra opção a não ser construir verticalmente. Ramirez também observou que o sul da Flórida era "favorável às incorporadoras" e que as licenças podiam levar meses para sair, em vez dos anos que talvez levassem em lugares como a Califórnia. Gil Dezer, presidente da Dezer Development e sócio do futuro Baccarat Residences, disse que construir prédios mais altos permite à empresa "extrair a última parcela de utilidade" de um terreno e criar unidades de alto padrão com vista desobstruída para o oceano, acima dos edifícios vizinhos. Há também um apelo estético e movido pelo ego em remodelar a cidade. "Adoro assistir a programas de TV que mostram Miami e meus prédios aparecem rapidamente", disse Dezer, que também desenvolveu edifícios na vizinha Sunny Isles Beach. Da mesma forma, o incorporador Camilo Miguel, da Mast Capital, vê seu edifício Cipriani como uma oportunidade de "deixar uma marca no horizonte de Miami".A corrida imobiliária, no entanto, preocupa alguns especialistas. O sul da Flórida, assim como grande parte do estado, está assentado sobre uma camada de calcário poroso e areia que exige um trabalho considerável de engenharia para ser estabilizada. As fundações dos arranha-céus, principalmente dos muito altos, precisam ser muito mais profundas e largas do que o habitual. "A construção dessas fundações exige equipamentos potentes e especializados e é muito cara", disse Jean-Pierre Bardet, ex-reitor da Faculdade de Engenharia da Universidade de Miami. Bardet acrescentou: "A tecnologia e a capacidade de engenharia existem, mas as premissas do projeto precisam ser verificadas e a qualidade da construção deve ser cuidadosamente controlada." Em 2024, a Universidade de Miami publicou um estudo sobre como torres residenciais nas ilhas-barreira de Miami, especificamente em Sunny Isles Beach, estavam sofrendo recalque, ou afundando, mais do que o esperado, anos após a conclusão das obras. O estudo levantou a hipótese de que uma das principais razões para esse recalque excessivo era que as vibrações de obras próximas, combinadas com a geologia peculiar da Flórida, composta de calcário e areia, poderiam fazer com que a areia se rearranjasse e ficasse mais compacta. Falk Amelung, professor de geofísica da Universidade de Miami e um dos principais autores do estudo, observou que, na Europa, é comum o monitoramento rotineiro por satélite do recalque dos edifícios, mas que isso não ocorre nos Estados Unidos, onde "é difícil conseguir financiamento". "Os engenheiros monitoram o solo até certo ponto durante a construção, mas não tanto nos anos seguintes —justamente quando constatamos que esse recalque continua ocorrendo", afirmou. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Os ventos de furacões também são uma variável ainda não testada para a nova geração de arranha-céus de Miami. Embora esses edifícios sejam projetados segundo códigos de construção, análises estruturais avançadas e testes em túneis de vento, muitos deles nunca sofreram o impacto direto de um furacão em condições reais. "Os ventos máximos sustentados de um grande furacão que atingisse o sul da Flórida poderiam superar 280 quilômetros por hora", disse Bardet. "Os efeitos do vento são cada vez mais significativos à medida que os edifícios ficam mais altos." Miami não é atingida diretamente por um grande furacão desde o furacão Andrew, em 1992. Mesmo assim, a construção de arranha-céus em Miami não dá sinais de desaceleração, e as incorporadoras continuam avançando. "Se você ficar em uma esquina de Nova York e fechar os olhos, daqui a cinco anos a sensação e a aparência serão muito parecidas", disse Erik Rutter, um dos fundadores da incorporadora Oak Row Equities, que detém os direitos para construir vários edifícios superaltos em Brickell. "Em Miami, não é assim. A cidade será radicalmente diferente." E o horizonte da cidade talvez ainda esteja longe de atingir seu limite. Ramirez, o engenheiro estrutural, observou que, quando começou a carreira, o limite de altura dos arranha-céus era de 198 metros. "Com o passar do tempo, as incorporadoras quiseram construir cada vez mais alto e pressionaram para encontrar áreas da cidade onde isso fosse permitido. Tenho certeza de que também tentarão elevar esse limite."

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