Milão e Paris A Armani está prestes a iniciar negociações formais com os três potenciais investidores indicados no testamento de Giorgio Armani, enquanto define uma nova estratégia sem o estilista que manteve controle rígido sobre a empresa durante 50 anos. Nas próximas semanas, a Armani deverá realizar reuniões com a LVMH, a gigante de cosméticos L’Oréal e o grupo de óculos EssilorLuxottica para discutir a possível venda de uma participação minoritária, segundo pessoas a par do assunto. Depois de proteger ferozmente a independência do grupo italiano durante décadas, Armani surpreendeu o setor de luxo há um ano ao instruir seus herdeiros a vender uma participação inicial de 15% no prazo de 18 meses após sua morte. Modelos apresentam criações da coleção feminina primavera/verão 2027 de Giorgio Armani durante a Semana de Moda de Milão, na Itália - Alessandro Garofalo - 27.set.2026/Reuters No entanto, pessoas próximas aos três pretendentes preferenciais minimizaram as chances de que façam, no curto prazo, um investimento substancial em um grupo com negócios que abrangem moda, alta-costura, hotéis, restaurantes e artigos de decoração. Uma das opções discutidas informalmente com a Armani prevê que uma participação de 15% seja dividida entre LVMH, L’Oréal e EssilorLuxottica, de acordo com quatro pessoas a par do assunto. "Ninguém quer se lançar de imediato, mas ninguém quer deixar a oportunidade passar. Assim, todos conseguem um lugar à mesa", disse uma pessoa próxima à situação. Armani manteve controle estrito sobre as áreas criativa e comercial da operação até pouco antes de sua morte, em setembro do ano passado. Seu falecimento, aos 91 anos, mergulhou a empresa em um desafio conhecido de muitas companhias italianas comandadas por seus fundadores: transformar uma empresa moldada à imagem de uma única pessoa em uma instituição capaz de prosperar sem ela. Giuseppe Marsocci, veterano da empresa, foi promovido a diretor-presidente um mês após a morte de Armani. Desde então, vem elaborando uma nova estratégia com o auxílio do Boston Consulting Group. Segundo pessoas a par do projeto, o objetivo é aprimorar o posicionamento das marcas do grupo e desenvolver formas de expansão em categorias de margens mais altas, como acessórios. O conselho de administração do grupo, até então presidido por Armani e composto em grande parte por familiares, foi reformulado com a nomeação de profissionais externos, entre eles o ex-chefe da Gucci Marco Bizzarri e o fundador da Yoox Federico Marchetti. Leo Dell’Orco, executivo de longa data da empresa, foi alçado à presidência do conselho. Pessoas próximas aos executivos da Armani disseram que eles também planejam simplificar a estrutura do grupo, proprietário das marcas Giorgio Armani e Emporio Armani, da linha de alta-costura Armani Privé, além de hotéis, restaurantes e artigos de decoração. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesNa frente criativa, o grupo nomeou neste mês Dario Vitale, um dos estilistas mais aclamados da Itália, para revitalizar a marca Emporio Armani, responsável por quase um terço da receita anual de € 2,2 bilhões do grupo. Sua missão é renovar a Emporio —concebida como a linha mais jovem e experimental de Armani— e dar a ela uma identidade mais clara. "A Emporio é onde se pode ver com maior clareza o que eles estão tentando fazer com a empresa", disse uma pessoa que já trabalhou com o grupo. "Eles precisam torná-la mais jovem, mais clara e mais relevante, mas sem perder aquilo que faz dela Armani." Vitale, contratado após seu sucesso em atrair consumidores de luxo mais jovens para a Miu Miu, marca pertencente à Prada, também supervisionará a expansão da Giorgio Armani no segmento de acessórios, área que Marsocci descreveu como "uma grande oportunidade". A reestruturação interna adiou as negociações formais sobre a venda da participação, inicialmente previstas para junho, mas que agora ocorrerão no fim de setembro ou no início de outubro, segundo pessoas a par do assunto. As conversas acontecerão em meio a uma prolongada retração dos gastos com produtos de luxo. A receita da Armani caiu pelo segundo ano consecutivo em 2025, recuando 2,8%, para € 2,19 bilhões, após uma queda de 5% em 2024. No entanto, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização subiu 3,2%, para € 153 milhões, favorecido por cortes de custos e pelo desempenho mais forte da Armani Privé. Dois dos investidores preferenciais da Armani —EssilorLuxottica e L’Oréal— mantêm relações comerciais de longa data com o grupo. A EssilorLuxottica, proprietária da Ray-Ban e detentora de um contrato de licenciamento com a Armani até 2038, dificilmente comprará uma participação significativa, segundo pessoas próximas à situação. Essas pessoas disseram que o grupo de óculos está concentrado em sua expansão no setor de tecnologia médica e nos Estados Unidos, com pouco interesse em controlar uma casa de moda de luxo. Qualquer investimento seria motivado pela disposição do diretor-presidente Francesco Milleri de apoiar a família Armani, acrescentaram. Embora a L’Oréal tenha investido em empresas de moda, como a marca francesa Jacquemus, ela não administra esses negócios, e sua prioridade é proteger o lucrativo acordo de licenciamento com a Armani, válido até 2050, segundo pessoas familiarizadas com as considerações do grupo. A LVMH manifestou interesse em participar do processo de venda da participação minoritária da Armani, de acordo com pessoas que conhecem sua posição. Essas pessoas alertaram, porém, que a Armani não se encaixa de forma óbvia no portfólio da LVMH, uma vez que o grupo gera uma parcela significativa de suas vendas em faixas de preço inferiores às das principais marcas da LVMH e possui um portfólio mais voltado à moda do que a acessórios de margens elevadas. Ainda assim, os antigos laços pessoais entre integrantes da família Arnault, que controla a LVMH, e o falecido estilista continuam sendo um fator importante, acrescentaram. Chegar a um acordo sobre a avaliação da empresa também pode ser um obstáculo. Pessoas próximas ao grupo mencionaram um valor de cerca de € 10 bilhões (R$ 59,2 bilhões), enquanto potenciais investidores estimam seu valor entre € 3 bilhões (R$ 17,7 bilhões) e € 7 bilhões (R$ 41,51). Caso não apareça nenhum dos pretendentes preferenciais da Armani nem qualquer outro comprador aceitável, uma abertura de capital na bolsa será a alternativa. Uma pessoa que trabalhou para o grupo afirmou que, para além dos números, a maior sombra pairando sobre as negociações seria a do próprio estilista falecido. "O desafio não é vender a Armani", disse a pessoa. "É mostrar que a Armani pode crescer sem Giorgio Armani."
Armani iniciar� negocia��es para venda de participa��o com LVMH e L'Or�al
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