Os recifes de coral ao redor do mundo, que enfrentam dificuldades à medida que as mudanças climáticas provocam ondas de calor marinhas mais frequentes e intensas, estão ficando sem tempo para se recuperar. A conclusão consta de um relatório publicado nesta segunda-feira (31). A avaliação global se baseia em décadas de pesquisas e monitoramento dos corais e destaca os efeitos devastadores do aquecimento sobre um dos ecossistemas mais delicados e diversos da Terra. O relatório indica que os recifes de coral do mundo sofreram uma redução de 9,5% entre 2020 e 2024, em comparação com o período de 1980 a 2009. O maior declínio de corais já registrado em um único ano, que afetou 87% dos recifes em todo o mundo, ocorreu em 2024. Mas talvez a constatação mais alarmante seja de que os recifes —que protegem o litoral contra tempestades e sustentam pelo menos um quarto da vida marinha em algum momento de seus ciclos de vida— agora dispõem de um intervalo muito menor para se recuperar. Historicamente, os eventos globais de branqueamento de corais ocorriam aproximadamente uma vez por década. Porém, desde 2010, têm acontecido a cada 4 a 6 anos, segundo o relatório. O branqueamento ocorre quando os corais ficam tão estressados que perdem as algas simbióticas de que precisam para sobreviver. Corais branqueados podem se recuperar, contudo, precisam de tempo para isso. Se a água ao redor deles permanecer quente demais por tempo demais, eles morrem. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas As conclusões são "alarmantes e graves", afirmou Manuel Gonzalez-Rivero, pesquisador do Instituto Australiano de Ciências Marinhas e principal autor do relatório. Segundo ele, os corais já não passam pelo ciclo natural de estresse e recuperação. "Os recifes de coral levam bastante tempo para se recuperar. Estamos falando de décadas para que de fato recuperem o que perderam." O relatório, divulgado pela Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral, organização mundial formada por cientistas e conservacionistas, vem a público no momento em que os oceanos do planeta atingem níveis recordes de aquecimento, absorvendo o calor retido na atmosfera pelos gases de efeito estufa. Na semana passada, a temperatura média global da superfície do mar chegou ao recorde de 21,1 graus Celsius, superando a marca estabelecida em 2024, segundo o Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas, órgão de monitoramento climático da União Europeia. Alguns cientistas afirmam que a situação dos recifes de coral em todo o mundo pode, na verdade, ser pior do que o relatório sugere. O impacto total do mais recente e mais intenso evento global de branqueamento, que começou em 2023 e terminou em 2025, não foi contemplado nas conclusões, baseadas em dados coletados até 2024, afirmou Carlos Duarte, cientista marinho que dirige a Coral Research and Development Accelerator Platform, uma iniciativa global voltada à preservação dos recifes. Duarte citou os recifes do oeste da Austrália que sofreram branqueamento pela primeira vez no ano passado, a recente "mortalidade em larga escala" entre os corais do Mar Vermelho, com poucos indícios de recuperação, e os recifes do Caribe, que perderam cerca de 90% de sua diversidade genética. O El Niño que está se formando neste ano muito provavelmente causará mais um evento global de branqueamento de corais no ano que vem, segundo Duarte. No longo prazo, diz ele, em consonância com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o planeta perderá de 70% a 90% de sua cobertura de corais se o aquecimento global de longo prazo chegar a 1,5 grau Celsius, e até 99% se as temperaturas médias globais subirem 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. "A situação é muito mais preocupante do que o relatório retrata", disse Duarte, que não participou da avaliação. Terry Hughes, ex-diretor de estudos sobre recifes de corais da Universidade James Cook, na Austrália, e que também não participou do relatório divulgado nesta segunda-feira, afirmou que as medições da cobertura de corais não levavam em consideração a biodiversidade subjacente dos recifes. "A cobertura de corais pode permanecer a mesma ou até aumentar enquanto a biodiversidade despenca", disse ele. "Portanto, a mensagem mais complexa é que a composição das espécies de coral está mudando em todo o mundo, e as mais vulneráveis vêm sendo eliminadas há várias décadas." Alguns corais, por exemplo, recuperam-se rapidamente, mas são mais sensíveis ao calor. "É como substituir uma floresta por um campo", comparou Hughes. "Ele volta com força rapidamente, mas é inflamável" e mais suscetível à próxima onda de calor. Soluções locais, como reduzir a poluição da água e proteger os ecossistemas costeiros, podem ajudar os recifes de coral. Porém, reduzir as emissões que aquecem o planeta é crucial, segundo Hughes. "Tudo depende, de fato, de quanto mais gases de efeito estufa serão lançados na atmosfera e do nível de aquecimento que isso provocará."
Aquecimento de oceanos encurta tempo de recupera��o dos recifes de coral
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