Ap�s ebuli��o na �sia, gera��o Z lidera onda de protestos na Europa

Ap�s ebuli��o na �sia, gera��o Z lidera onda de protestos na Europa

"Eu deveria estar preocupado com o exame de matemática, não com o meu futuro", bradavam estudantes franceses em protestos nesta semana, que culminaram em um dos dias mais caóticos e violentos de manifestações recentes na França, neste sábado (17). Em meio a confrontos com a polícia, outra palavra de ordem: "Queremos mais verbas para os estudos, não para a repressão". Após a onda de protestos da geração Z na Ásia, grandes manifestações e acampamentos liderados por jovens têm se espalhado pela Europa, conectando-se com demandas mais amplas e agregando outros setores da sociedade civil. Na Espanha, entre terça-feira (13) e quarta-feira (14), estudantes, professores e funcionários da Universidade Complutense de Madri se reuniram em frente a uma das escolas do campus, pedindo mais verbas e convocando uma greve do setor de educação. Eram os mesmos jovens que, dias antes, haviam iniciado um acampamento na praça Puerta del Sol, contra o aumento dos aluguéis. "Vocês podem especular com relógios, jóias, criptomoedas e Ferraris, mas não com as nossas casas", dizia um cartaz. O acampamento segue ativo neste domingo (18). Os protestos em Paris e em Madri inspiraram mobilizações em vários pontos da Europa. No Porto, no norte de Portugal, estudantes ergueram barracas na praça D. João 1º, no sábado dia 10. Neste domingo, tendas começaram a ser levantadas no largo do Rossio, em Lisboa. As ações remetem ao protesto na Puerta del Sol. Uma tentativa de reerguer as barracas após ordem de retirada acabou em confronto com policiais que deixou 37 feridos, de acordo com os líderes da Acampada do Porto pela Habitação. "Isto não é campismo, é um protesto, uma reivindicação política porque querem tornar o Porto um parque de atrações para turistas e as pessoas querem viver aqui", disse ao jornal O Público a ativista Sónia Quinche, uma das porta-vozes do movimento. As mesmas causas —mais verbas para o ensino e melhores condições de moradia— motivaram os jovens que ao longo da semana tomaram de assalto a praça Syntagma, em Atenas, em frente ao Parlamento grego. Os manifestantes diziam inspirar-se nas mobilizações em Paris. A disposição dos jovens em Atenas, assim como em várias cidades francesas, espanholas e portuguesas, era seguir com as mobilizações ao longo de toda a semana. Em Madri, um dos dois epicentros dos protestos ao lado de Paris, ocorreu uma identificação entre gerações. Jovens que saem cada vez mais tarde das casas de seus pais, sem condições de bancar aluguéis cada vez mais caros em cidades como Madri ou Barcelona, se solidarizaram com o drama de Maricarmen Abascal. A secretária aposentada de 87 anos foi despejada de seu apartamento no último dia 23 de setembro por não conseguir pagar o aluguel. Os protestos na Puerta del Sol levaram os proprietários do imóvel a baixar o valor. Tarde demais: a idosa morreu no dia 7 de outubro, sem realizar o sonho de voltar para casa. Os protestos em Paris remetem a uma questão ainda mais ampla. Os jovens se queixam dos cortes no quadro de professores e envelhecimento dos métodos de ensino, o que gera uma incerteza quanto ao futuro profissional. "As angústias normais que atravessam a adolescência ganham outra dimensão quando você vê que, ainda por cima, o ensino que recebe não dá condições para enfrentar o mercado de trabalho", diz o cientista político brasileiro Thomás Zicman de Barros, pesquisador-associado do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). Zicman de Barros chama a atenção também para a repressão violenta às manifestações francesas, que resultaram em mais de 6.000 detidos no país inteiro somente antes dos grandes atos do fim de semana, mais de 80% deles menores de idade. "A prisão de adolescentes gerou uma onda de solidariedade em relação ao movimento, que o levou a conquistar adesões importantes", diz. Entre as adesões está a dos Coletes Amarelos, o movimento surgido em 2018 contra o aumento do preço dos combustíveis que se tornou, com o tempo, um protesto amplo contra a elevação do custo de vida. Os Coletes Amarelos participaram da grande manifestação de sábado. A CGT, maior central sindical francesa, declarou apoio ao movimento dos estudantes, o que abriu a perspectiva de uma greve geral em novembro. Para o espanhol Roger Soler-i-Marti, sociólogo e professor da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, os protestos dos jovens da geração Z integram vida cotidiana e atividade política. "O novo ativismo jovem é motivado mais por uma jornada pessoal que pela aderência a uma organização, ideologia ou mesmo uma causa específica", escreveu Soler-i-Marti num artigo recém-publicado numa revista da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Para seu artigo, publicado antes das manifestações, Soler-i-Marti entrevistou dezenas de jovens espanhóis, captando o espírito que mais tarde desembocaria nos protestos. Nas conclusões, escreveu: "Se o envolvimento político é cada vez mais ligado ao dia-a-dia e a experiências pessoais, é compreensível que novas gerações sintam dificuldade para se engajar com instituições que não refletem suas preocupações ou que mantêm estruturas distantes de suas realidades". Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Até que ponto os movimentos desses jovens, que se organizam longe das instituições, afetarão a política tradicional? Espanha e França, países irradiadores dos protestos, estão em plena campanha eleitoral. Na Espanha, o primeiro-ministro socialista, Pedro Sánchez, dissolveu o Parlamento depois que o Legislativo rejeitou dois decretos que mudavam as regras de locação de imóveis —que ficaram conhecidos como "decretos Maricarmen". Ele tenta capitalizar a indignação para se reeleger, mas a maior parte das pesquisas aponta o opositor Partido Popular à frente. Na França, os dois turnos do pleito presidencial serão entre abril e maio do ano que vem, e os partidos estão a todo vapor nas convenções que definem as candidaturas. Para Zicman de Barros, os protestos podem favorecer a sigla França Insubmissa (LFI), do deputado Jean-Luc Mélenchon, que cultiva bases entre os estudantes. "Menores de idade não votam, mas se o movimento crescer e envolver trabalhadores e sindicatos, como vem ocorrendo, a esquerda pode se beneficiar", diz o pesquisador. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

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