Ap�s desvantagem no primeiro turno, Lula diminui falas sobre bets e evita falar de futebol

Ap�s desvantagem no primeiro turno, Lula diminui falas sobre bets e evita falar de futebol

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diminuiu as menções às bets no Brasil em discursos e peças publicitárias divulgadas no YouTube e evita tratar do impacto da medida nos times de futebol após o primeiro turno das eleições presidenciais terminar com uma vantagem de 2 milhões de votos para Flávio Bolsonaro (PL). O cenário foi capturado em levantamento feito pela reportagem com base nas transcrições de 46 vídeos no canal Lula do YouTube publicados até o último dia 15. A média de menções a "bets" por vídeo, principal termo usado pelo presidente para se referir à atividade, caiu de 11 durante a campanha no primeiro turno para quatro na corrida para a segunda etapa da votação. O impacto das bets na população foi um dos principais temas da campanha de Lula e recebeu menção em todos os vídeos no canal presidencial de 1º de setembro a 4 de outubro, quando foi realizada a primeira rodada de votação. Depois, Lula deixou o tema de lado em duas ocasiões no segundo turno, incluindo no debate da TV Band, transmitido na noite deste domingo (18). O pico de menções ocorreu em 1º de setembro, em discurso no qual anunciou que seu governo estudava tomar medidas contra as apostas online. No segundo dia em que mais mencionou as plataformas, 25 de setembro, o presidente assinou a medida provisória que vetou a atividade, a nove dias do 1º turno das eleições. No mês de setembro, excluindo-se vocativos como "vocês", verbos de ação como "fazer" e cacoetes, "bets" foi a oitava palavra mais dita por Lula, atrás apenas de temas históricos do PT, como saúde, moradia e o público feminino. Os sites de apostas foram mais citados do que educação, por exemplo. O discurso do presidente foi medido com ferramentas de programação. Segundo o SBT News, em vídeo visto também pela Folha, a primeira-dama Janja da Silva lamentou que o fim das bets não tenha provocado o impacto eleitoral esperado pelo governo. Ela comentou, aos prantos, que esperava uma vitória no primeiro turno por causa da iniciativa. Apesar da frustração de Janja, levantamentos encomendados pelo partido mostram que a medida foi bem recebida pela população. Segundo pesquisa da Quaest, 64% dos entrevistados sabiam do fim do mercado regulado de aposta, e só 8% desse público desaprovava a decisão do governo. O quanto desse agrado foi convertido em votos ainda não ficou claro. Segundo a cientista política Carolina de Paula, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), a campanha define quais assuntos vai abordar com base em pesquisas de opinião, testes qualitativos e escuta das redes sociais. "Essas métricas ajudam, assim como a cobertura da imprensa, que também é um parâmetro para a campanha", ela diz. O assunto sair da pauta não é um sinal de fracasso, afirma Carolina. "O tema vai perdendo forças e se esgota. As pessoas também deixam de procurar nas redes sociais." Com a digitalização das campanhas, os ciclos temáticos ficaram ainda mais rápidos, de acordo com a cientista política. No segundo turno, por exemplo, a campanha do presidente não tratou de apostas online no rádio. No 1º turno, exibiu, entre os dias 21 e 28 de setembro, uma inserção em que o presidente Lula, pessoalmente, ouvia o relato de jogadores endividados. Diferentemente do que ocorreu com a aceitação ao veto às bets, Lula recebeu críticas pelas alfinetadas desferidas nos clubes de futebol, que se articularam em uma campanha em defesa dos sites de apostas, cujo lema era "fim do futebol". Em 1º de outubro, última vez em que tratou com atenção do tema, o presidente sugeriu que os clubes aderissem ao modelo empresarial de futebol, por meio da Lei das SAFs (sociedades anônimas de futebol). A legislação sancionada pelo atual governo impõe regras de transparência para as companhias esportivas ao mesmo passo que garante mais segurança jurídica. Desde então, o tema ficou escanteado nos discursos de Lula. Na última menção aos clubes, em 8 de outubro, Lula foi lacônico. "Vocês estão lembrados que há três décadas todo mundo só falava em virar empresa. Agora pode virar empresa, por que não estão virando?", questionou Lula. No dia em que proibiu os jogos de azar na internet, o presidente relembrou que o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo antes da legalização dos cassinos virtuais no fim de 2018. "Flamengo foi campeão em 81 sem bet. São Paulo foi três vezes campeão sem bet. Grêmio foi campeão sem bet. Corinthians foi campeão sem bet. Depois das bets, quem é que ganhou?", questionou Lula. "Não falei do Palmeiras aqui porque ele não ganhou nada", acrescentou. Sobre a dependência dos clubes das receitas de casas de apostas, o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, disse que "não tinha nada a aprender com Lula", em entrevista concedida ao site Poder360 no dia 25 de setembro. Em outubro, essas críticas chegaram às bocas dos torcedores. No último dia 11, torcedores flamenguistas entoaram coro de xingamentos contra o presidente após a vitória do time por 1 a 0 no clássico contra o Fluminense. Ao deixar de abordar o tema, Lula está modulando o discurso depois de receber uma resposta do público, segundo Carolina, do IESP-UERJ. Ao mesmo tempo, o presidente aumentou as referências ao seu pacote de bondades, que inclui o fim da escala de trabalho 6 por 1 e um perdão de dívidas para microempreendedores individuais, e subiu a temperatura das críticas contra Flávio. No segundo turno, as palavras mais citadas nas inserções de rádio da campanha são mudança, escala e Flávio. Quando o governo partiu para a ofensiva, a presença de Lula nos anúncios foi substituída por um locutor anônimo. Após o candidato do PL anunciar que votaria a favor da PEC (proposta de emenda à Constituição) que reduz a carga de trabalho, a campanha petista passou a chamar Flávio de "duas caras". Procurada por email e WhatsApp às 13h de sexta-feira (16), a campanha de Flávio não respondeu. Sobre a mudança de discurso após uma visita ao pai, Jair Bolsonaro, o presidenciável do PL afirmou que seria um alinhamento ao desejo da maioria da população. A campanha de Lula tampouco respondeu aos emails enviados pela reportagem desde as 13h da sexta. As menções às bets persistem nos discursos do presidente durante atos políticos. Para um grupo de apoiadores reunidos em Natal, Lula afirmou: "Essa é a passeata daqueles que não querem mais bet roubando o povo pobre desse país." C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões A propaganda concorrente, do senador Flávio Bolsonaro (PL), disse que o governo "Lula era o pai do tigrinho", devido à inclusão dos caça-níqueis online, como o jogo do tigrinho, na regulamentação aprovada no Congresso em acordo com a Fazenda e sancionada pelo governo no fim de 2023. O acolhimento da modalidade nas regras foi uma proposta do relator do projeto de lei, o senador Angelo Coronel (Republicanos), durante a tramitação do texto, depois acatada pela pasta então comandada por Fernando Haddad (PT). Nos discursos, Lula recorda que as apostas online foram sancionadas pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) no fim de 2018, mediante a obrigação de regulamentação nos próximos quatro anos. O governo Bolsonaro, depois, se omitiu da exigência. Em fevereiro de 2023, o governo do Rio de Janeiro, então chefiado por Cláudio Castro (PL), publicou edital para licenciar bets de todo o país em uma situação concorrencial com a União. A gestão de Castro só desistiu do projeto em 2025, quando decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça, garantiu à União competência para legislar sobre o tema. A antiga regulamentação de Lula, derrubada depois pelo próprio presidente, restringia a validade das licenças estaduais ao território dos estados. Desde o último dia 25, o jogo de azar online está proibido em todo o país.

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