Aprendi que retalhos n�o eram lixo e nosso trabalho podia ser neg�cio, diz costureira do CE

Aprendi que retalhos n�o eram lixo e nosso trabalho podia ser neg�cio, diz costureira do CE

Os sacos de retalhos descartados pelas costureiras do bairro incomodavam Anagélia Ferreira Pereira. No Mondubim, na região sul da Grande Fortaleza, onde a indústria de confecção tem presença histórica, ela via o material colocado nas calçadas para ser levado ao aterro pelo caminhão de lixo. Inconformada com o desperdício, ela começou a recolher os tecidos e a transformá-los em bolsas, bijuterias, roupas e acessórios. A atividade artesanal se tornou negócio coletivo que reúne mulheres da periferia da capital cearense. Tudo começou em 2016, quando Anagélia deixou um emprego com carteira assinada após ser diagnosticada com estafa. Com uma máquina antiga da família, passou a criar peças com retalhos e a reunir vizinhas em sua casa para compartilhar técnicas e aprendizados. Aos poucos, chegaram mulheres que dominavam o crochê ou o fuxico, e o grupo passou a dividir encomendas. O passo seguinte era transformar a iniciativa orgânica em um negócio. Foi nesse momento que apareceu a Social Brasilis, plataforma de fomento criada pela educadora sertaneja Emanuelly de Oliveira Longo, a Manú. A iniciativa é finalista do Prêmio Empreendedor Social 2026 na categoria Soluções que Inspiram. A Social Brasilis aproxima ferramentas de gestão e oportunidades de mercado de pessoas que costumam ficar à margem da economia formal. Por meio do Social Lab, a incubadora de negócios de impacto socioambiental, Anagélia aprendeu a definir o público do ateliê, rever seu modelo de negócio, organizar as finanças e apresentar seus produtos a potenciais clientes. "A Social Brasilis foi uma ponte para mim. E eu fui uma ponte para muitas outras mulheres", resume Anagélia. "Eu cresci ouvindo o barulho da máquina de costura. Primeiro com minha avó, depois com minha mãe. Sou do tempo em que a gente consertava as coisas para vestir, em que tudo se aproveitava. Essa ideia de transformar uma coisa em outra ficou comigo. Em 2016, saí do regime de carteira assinada porque estava doente. Na época, o diagnóstico era estafa, um cansaço mental. Deixei o emprego, e a arte falou mais alto. Comecei a procurar os retalhos e materiais que tinha guardado, peguei a máquina antiga da minha mãe e voltei a costurar. Fiz uma primeira peça e mostrei ao meu marido. Ele perguntou se aquilo vendia. Eu não sabia, mas achava que as minhas peças seriam diferentes. Comecei a criar roupas, acessórios e bijuterias com retalhos de jeans. Usava o que produzia, saía com os brincos e colares, e as pessoas perguntavam: Isso aqui é jeans?. Eu dizia que era retalho. Ao mesmo tempo, havia uma coisa que me incomodava muito no bairro. Eu via as costureiras colocando sacos enormes de retalhos na calçada para o caminhão de lixo levar. Comecei a recolher o material e a pensar no que poderia fazer com ele. Mas precisei desconstruir uma ideia: as pessoas achavam que eu estava produzindo do lixo. Eu estava fazendo uma intervenção para que aquele material não virasse lixo. Estava evitando o descarte. Comecei a chamar mulheres para conversar e trabalhar na área da minha casa. Algumas sabiam crochê, outras faziam fuxico, e cada uma trazia um conhecimento. A gente foi misturando técnicas e descobrindo novas possibilidades. Surgiu o coletivo, e entendi que queria compartilhar o que estava aprendendo. Professora cria edutech para levar indústria 4.0 ao sertão e à periferia Entre 2017 e 2018, conseguimos uma encomenda importante: nécessaires para brindes corporativos. Fiz uma peça-piloto, o cliente aprovou e dividimos a produção. Foi uma alegria porque todas tinham participado do processo e todas ganharam. Ali começamos a perceber que havia mercado para aquilo que fazíamos. Mas eu ainda não sabia gerir um negócio. Produzia, conseguia encomendas, reunia mulheres, mas não tinha organização financeira nem clareza sobre nosso modelo de trabalho. Foi quando conheci a Social Brasilis e participei do Social Lab. Aprendi a olhar para o meu propósito, minha missão, meus valores, meu público e o modelo de negócio. Passei a entender que não éramos apenas um grupo de mulheres fazendo artesanato. Éramos um ateliê colaborativo, um negócio de impacto socioambiental. A gente fortalece mulheres, gera renda e evita que resíduos têxteis sejam descartados. Uma coisa que fez diferença foi a linguagem. A Social Brasilis não chegou com um vocabulário técnico que a gente não entendia. Traduziu conceitos de gestão para a nossa realidade. Também colocou a gente na rua, fazendo entrevistas, apresentando os produtos e aprendendo a identificar o público certo. Eu sempre gostei muito de falar, mas achava que isso era um defeito. No Social Lab, entendi que era uma qualidade que precisava ser aprimorada. Falar para as pessoas certas e nos momentos certos para apresentar meu trabalho. A formação também mudou nossa relação com o dinheiro. Antes, quando entrava uma encomenda, a gente pensava nas contas de casa, na água, na luz, na comida. Não separava o dinheiro do negócio do dinheiro das necessidades básicas. Aprendemos sobre capital de giro, compra de matéria-prima, economia, investimento e reserva de emergência. Quando a Social Brasilis me aproximou de uma empresa, pude contar nossa história, apresentar o trabalho e negociar uma encomenda. A organização foi uma ponte. Depois, eu precisei fechar o negócio. Quando cheguei ao coletivo e disse que consegui um pedido de mil e tantas peças, que a produção seria dividida entre as mulheres, todo mundo comemorou. Também comecei a buscar acesso a crédito para outras mulheres da comunidade. Descobri uma linha do governo do Ceará voltada ao empreendedorismo feminino e fui atrás de quem pudesse apresentar essa possibilidade no nosso território. Reunimos 30 mulheres, que se organizaram em grupos. Desde 2018, formamos oito grupos de crédito. Tenho muito orgulho de dizer que todos pagaram as parcelas em dia. As mulheres que chegam ao coletivo trazem suas histórias e dificuldades. A maioria já sofreu violência doméstica. A gente acolhe primeiro, porque também conhece muitas dessas dores, e depois procura descobrir o que cada uma sabe fazer. A Social Brasilis foi uma ponte para mim. E eu me tornei uma ponte para outras mulheres. Tento trazer para elas tudo o que aprendo nas formações. O que mudou foi também a maneira como a gente se enxerga: hoje sabemos que nosso trabalho tem valor, que podemos organizar um negócio e que aquilo que antes era tratado como descarte pode se transformar em renda e oportunidade.

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