Aperto monet�rio em pauta nos EUA

Aperto monet�rio em pauta nos EUA

Depois de alimentar suspeitas de maior tolerância com a inflação, o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, corrigiu a mensagem em seu discurso inaugural no simpósio anual de Jackson Hole. Em manifestações anteriores, o indicado de Donald Trump para o banco central dos EUA deixara espaço para interpretações de que poderia flexibilizar o critério de estabilidade de preços. Desta vez, Warsh disse que a meta de 2% anuais é "firme e fixa" e que haverá trabalho a fazer —leia-se alta dos juros— caso não haja convergência rápida da inflação corrente, ainda acima de 3%. O tom mais duro, em que descreveu a economia como resiliente e apontou o risco inflacionário como foco, foi recebido com certo alívio. A instituição não parece disposta a experimentar atalhos que possam corroer ainda mais o poder de compra da moeda que é reserva mundial. A probabilidade estimada de um aumento de juros em setembro subiu de 35% para 50% após as palavras de Warsh. Ainda não está claro se será necessário um aperto da política monetária, mas tampouco há conforto diante do quadro de atividade firme e inflação ainda acima da meta. Investimentos crescem no ritmo mais forte desde 2021, em boa medida puxados pela infraestrutura de inteligência artificial, e o crédito flui com folga. O mercado de trabalho, com desocupação em 4,1%, é compatível com pleno emprego. A inflação, porém, permanece elevada, em 3,7% nos últimos 12 meses. Mais da metade dos componentes do índice ao consumidor ainda sobe acima de 3% ao ano. A nova liderança do Fed também promete mudanças institucionais, com a maior revisão em décadas de fontes de dados, metodologias e comunicação. O tema da comunicação é o mais destacado por Warsh. A prática do órgão de indicar seus próximos passos, útil na crise de 2008, teria "ultrapassado o prazo de validade" em tempos normais. A tese é que, quando o Fed antecipa demais o próprio caminho e o mercado passa a operar com base nessa antecipação, forma-se uma espécie de jogo de espelhos entre os dois lados, com riscos maiores de erros na condução da política monetária. O compromisso com a estabilidade de preços é ainda mais crítico atualmente, diante da trajetória da dívida americana, que já ultrapassou US$ 40 trilhões e inquieta credores. A busca por proteção do poder de compra —visível na valorização recente do ouro— é um sinal da desconfiança. Nesse contexto, é bem-vinda a mostra de rigor de Warsh. editoriais@grupofolha.com.br

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