Aos 92, funcion�rio mais velho da Presid�ncia passou por reforma de Collor, carreira militar e de atleta

Aos 92, funcion�rio mais velho da Presid�ncia passou por reforma de Collor, carreira militar e de atleta

Aos 92 anos, o coronel reformado José Wilson Pereira é o funcionário mais velho da Presidência da República. Militar e atleta olímpico, Wilson atravessou nove mandatos presidenciais sem ocupar cargo político e é um dos pouquíssimos nonagenários no serviço público federal hoje. Testemunha dos principais momentos históricos da política do país mesmo antes da redemocratização, Wilson dá expediente na SRI (Secretaria de Relações Institucionais), órgão responsável pela articulação política do governo, como assessor especial da Secretaria de Assuntos Federativos. No Palácio do Planalto, é um entre os dois únicos servidores com mais de 90 anos. Embora esteja imerso no topo do Executivo federal há mais de 40 anos, o coronel diz que nunca teve interesse em se envolver com a política, e defende o papel do servidor de carreira na manutenção da democracia. "Eu não tenho DNA para a política", diz à Folha o cearense de 1,65 m, de olhos escuros e cabeça calva, com o crachá da Presidência ao redor do pescoço. "Se o técnico cumprir o seu dever, ele está contribuindo para a democracia". Militar de carreira, Wilson trocou a farda pelo paletó e gravata em 1984. Foi para a reserva com a patente de coronel e ingressou como funcionário civil na Presidência da República, onde já exercia cargo há cerca de dois anos como militar. Acabou demitido durante a ampla reforma administrativa promovida pelo governo Fernando Collor de Mello, que dispensou cerca de 108 mil servidores, segundo cálculos do governo federal nos anos 1990. No governo seguinte, de Itamar Franco, o coronel foi contemplado pela anistia de 42 mil servidores, mas não conseguiu voltar ao serviço público imediatamente. Reportagem da Folha publicada em abril de 1994 mostra que o então ministro da Fazenda do governo Itamar, Fernando Henrique Cardoso, ameaçou entregar o cargo caso o presidente sancionasse a anistia aos servidores exonerados por Collor. "O Fernando Henrique segurou [a reintegração], foi exigindo as coisas, sempre pedindo documentos, e a gente se arrastando até que conseguimos ser reintegrados ao serviço público", diz. "No meu crachá tinha 'anistiado'. Aí eu dizia: 'Não sou anistiado político não, sou anistiado do Collor'." No serviço público, a aposentadoria compulsória é obrigatória aos 75 anos, mas José Wilson não tem planos de parar. Ele pôde continuar em atividade após ter sido reintegrado em 2009, no governo Lula 2, no modelo de contratação CLT, e não mais pelo vínculo com o Estado, pelo qual já está oficialmente aposentado. Quando Wilson deixar o Palácio, a vaga será extinta. Tecnicamente, José Wilson é um "empregado público", não um servidor público. Como ele, há sete pessoas na faixa etária dos 90 anos em todo o serviço público federal, todos anistiados do Plano Collor, segundo o MGI (Ministério da Gestão e Inovação). Como são empregados da administração direta e não servidores, não têm a obrigação de se aposentarem aos 75 anos, conforme prevê a lei. Como parte de sua função atual na SRI, todos os dias o ex-atleta passa o olho o Diário Oficial da União procurando assuntos de interesse dos municípios –um decreto de estado de emergência em virtude de uma enchente, por exemplo–, e liga para os prefeitos das cidades afetadas para explicar as ferramentas que o mandatário local tem à disposição, como pedir kits de saúde ou antecipações do FGTS. "Os meus colegas de turma, meus amigos [dizem]: ‘Pô, você vai ficar trabalhando a vida inteira?’, narra. "Isso aqui pra mim não é trabalho, me dá prazer. Faço, modéstia à parte, direito, sou prestigiado pelos meus colegas e pelos meus chefes e ainda ganho [salário]. O que eu quero mais na vida? Vou ficar em casa fazendo o quê?". O coronel reformado contou à reportagem ter ficado triste ao ver o Palácio do Planalto depredado pelos ataques golpistas do 8 de Janeiro, e disse que é impossível não ficar tocado pelo episódio. Ele diz não querer falar sobre política e enfatizou que é um técnico. Diz que chegou a receber e negar um convite para se filiar ao então PMDB quando era secretário nacional de Defesa Civil, em 2003. Atleta militar, José Wilson representou o Brasil no pentatlo moderno –modalidade olímpica que combina esgrima, equitação, tiro, natação e corrida– nos Jogos de 1960, em Roma, e de 1964, em Tóquio. Foi recordista mundial da prova de 300 metros de nado do pentatlo nos Jogos Pan-Americanos de 1963, em São Paulo, com a marca de 3 minutos e 54 segundos. Em 2016, foi responsável pelo tour da tocha das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Quando entrou no Exército, em 1952, Getúlio Vargas ainda era presidente do país. Em 1957, foi Juscelino Kubitschek (1902-1976) quem assinou a carta-patente do militar atestando a formatura na Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro. Em seu livro de memórias, "Retalhos de Lembranças do Menino do Choró", José Wilson se refere ao Golpe de 1964, que inaugurou a Ditadura Militar (1964-1985), como "Movimento Militar de 1964", eufemismo geralmente usado na caserna. Ele conta que estava treinando para as Olimpíadas de Tóquio quando estourou o golpe contra o presidente João Goulart, no dia 31 de março de 1964. "Nós fomos chamados para o quartel, fomos lá de prontidão, ficamos uma semana", conta. "[Depois falaram] 'não, continua o treinamento que nós temos que mostrar que a situação tá normal'". O coronel reformado diz que nunca se envolveu na repressão à dissidência do regime militar e repete que ao longo desse período sempre esteve envolvido com o esporte –primeiro como atleta olímpico, depois como instrutor físico e membro da Comissão Desportiva Militar, órgão que elabora o planejamento estratégico do esporte militar. José Wilson é casado há 68 anos com a esposa Selva Pereira, com quem tem três filhos, quatro netas e três bisnetos. Hoje, reconhece que sacrificou boa parte da convivência familiar em nome da carreira de militar e atleta. "Eu dou a mão à palmatória, porque dei mais importância à profissão do que à família. E por sorte eu tinha uma mulher que segurou a barra da família, que tomava conta de tudo, cuidou da minha vida, dos filhos", diz. "Hoje eu procuro me redimir".

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