Aos 86, o escritor franc�s R�gis Debray lan�a livros com ares de canto do cisne

Aos 86, o escritor franc�s R�gis Debray lan�a livros com ares de canto do cisne

O escritor francês Régis Debray fará 86 anos no mês que vem. "O eflúvio da manhã, quem o pede ao crepúsculo da tarde?", pergunta Carlos Drummond num poema em homenagem a Machado de Assis. No que diz respeito ao afã de publicar, Debray daria resposta positiva à pergunta. Lançou mais de 70 livros desde "Revolução na Revolução", de 1967, o único a provocar estrondo –por defender a guerrilha como tática de tomada do poder. É uma média de dez por década. Haja fôlego para tal ímpeto matutino e juvenil. Louve-se sua persistência. Quanto à substância do que escreve, ela é crepuscular. Octogenário que passou por um AVC, seus dois últimos livros têm o timbre do canto do cisne. Ou antes, da "Canção do Outono", de Baudelaire: "Logo afundaremos na treva fria;/ Adeus, vivo brilho de nossos verões tão curtos". Seus verões breves e faiscantes foram os dos anos 1960. Aluno aplicado de filosofia, trocou a Paris morosa do início da década pela trepidante Havana revolucionária; as aulas de Louis Althusser e Jacques Derrida pela amizade com Che Guevara e Fidel Castro. Tinha 21 anos. À diferença dos "compagnons de route", companheiros de viagem, intelectuais simpáticos à esquerda nos cafés de Saint-Germain-des-Prés, engajou-se na guerrilha. Fez uma viagem precursora à Bolívia para escolher a região onde ela deveria começar. Che não aceitou sua sugestão. Optou por uma zona inóspita porque queria estar perto da Argentina, o próximo foco da luta armada. "Ele pensava mais na história do que na geografia", diz Debray. Por isso pediu, quando de uma viagem a Paris, que trouxesse "Declínio e Queda do Império Romano", o clássico de Gibbon. O exército boliviano e a CIA derrotaram a guerrilha, isolada e sem apoio. Debray foi dos primeiros a ser detido. Capturaram Guevara em seguida e o executaram a sangue frio. O francês pegou uma pena de 30 anos. Seu avô o riscou do testamento. De Gaulle escreveu ao presidente boliviano, René Barrientos, defendendo-o. Sartre e André Malraux encabeçaram a campanha pela sua libertação. Soltaram-no quase quatro anos depois. Voltou a Paris e morou com o casal Yves Montand e Simone Signoret, que considera sua "segunda mãe". Debray lançou no ano passado "Riens", nadas; neste, "Tout", tudo. Diz no primeiro: "Muito decepcionante, uma vida. Descobrimos o que fazer com ela quando termina". No outro: "Sem querer abusar dos privilégios da idade, um velho babaca nascido em 1940 tem uma vantagem sobre os jovens: ter vivido duas vidas pelo preço de uma". Faz esboços de Che, que no acampamento da guerrilha "meditava com um livro na mão, sentado num tronco". De Castro, "meticuloso e obcecado por detalhes como uma criança, interessado em tudo e nada". De Jorge Semprún, o escritor espanhol que nas suas memórias o encharcou com o fel do desprezo, acusando-o por ter se desencontrado da história e de si mesmo. Debray, que "o tinha por um próximo", descobre que "ele me odiava visceralmente". Indaga: "Será que tem razão?". Os perfis de mulheres são afetuosos. Monika Ertl, alemã filha de um nazista, "aristocrática, esportiva, bela, discreta e decidida", matou o coronel Quintanilla, que decepou as mãos de Guevara morto. Joan Baez, de quem foi amante, era "reservada e risonha, ora travessa, ora melancólica, como se uma injúria na infância lhe voltasse de repente". Acha que, do século 20 ao 21, "os machos perderam as chaves da condição humana". Simone de Beauvoir tomou o lugar de Sartre; as telas pequeninas de Frida Kahlo encobriram os vastos murais de Diego Rivera. Debray prefere vinhetas e aforismos a relatos detalhados e sínteses majestosas. Seus raciocínios políticos são pedestres. Diz que "uma guerrilha nunca ganhou a guerra. Fidel ganhou a sua foi porque pareceu um simpático e folclórico Robin Hood que os Estados Unidos não levavam a sério". Reconhece que "a classe operária não irá mais ao Paraíso", mas recomenda "não percamos a esperança", já que "a mais louca das ilusões é esperar o dia em que o homem não terá ilusões", e conclui o raciocínio dizendo "coitados dos que dizem que perderam todas as ilusões". Seu tempo passou e a morte se aproxima, e a França gera "600 mil cadáveres por ano, e tem apenas dois mil leitos de cuidados paliativos". Talvez por isso cite o desfecho das "Memórias de Além-Túmulo", de Chateaubriand: "Os cenários de amanhã não me dizem respeito, pedem outros pintores: é com vocês, senhores". Esse "senhores" diz respeito a você. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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