Quando uma atriz se propõe a interpretar alguém que existiu de verdade, é fácil cair na armadilha de copiar trejeitos, cacoetes e o modo de falar da figura retratada. Como se bastasse reproduzir a superfície para trazê-la de volta à vida. Laila Garin, no entanto, recusa esse atalho. Ao dar corpo a Édith Piaf (1915-1963), ela não se limita a reencenar a imagem que o público já conhece há tempos. Sobe ao palco, isso sim, para investigar com o próprio corpo a violência de uma existência atravessada por fraturas —e o modo como essas fraturas, inevitavelmente, acabam convertidas em arte. A montagem de "Piaf – Eu Não Me Arrependo", dirigida por Sergio Módena, com texto de Newton Moreno e Alessandro Toller, entende bem onde está o coração do espetáculo. Em cartaz a partir de 10 de outubro no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, tudo na cena —da cenografia firme de André Cortez à música conduzida por Cláudia Elizeu— existe para sustentar e dar espaço à jornada que Garin constrói ao longo de duas horas e meia de entrega total. E essa jornada aparece no corpo da atriz, no modo como o tempo e o cansaço vão se instalando nele. No começo, Garin surge cheia de juventude, elétrica e luminosa como a menina de quinze anos que descobre na rua sua primeira voz. Conforme a história avança, essa energia vibrante vai, aos poucos e quase sem que a gente perceba, dando lugar ao desgaste causado pelas drogas, pelos acidentes e pela artrite que não dá trégua. Laila traduz esse declínio nos pequenos gestos: os dedos que endurecem, os ombros que se contraem, o corpo que muda de eixo e parece encolher sob o peso da dor que não passa. E é justamente contra esse invólucro cada vez mais frágil que se ergue uma voz vulcânica, controlada com extrema precisão. Com um domínio natural da prosódia francesa, a dicção de Garin limpa o repertório de décadas de verniz comercial. Em "La Vie en Rose", ela extrai uma melancolia áspera onde o grande público costuma ver apenas romantismo açucarado. Em "Mon Dieu" e "Hymne à l'Amour", o canto vira reação física, quase desespero diante do luto e do abandono. No clímax com "Non, Je Ne Regrette Rien", o fôlego sustentado e a firmeza da voz transformam a recusa ao arrependimento em um verdadeiro manifesto de vida. Ao celebrar trinta anos de carreira, Laila Garin eleva o teatro musical de grande porte a um nível de densidade dramática raramente visto no circuito comercial. Sua Piaf é a prova de uma intérprete no auge de sua expressividade, que faz da voz seu instrumento mais preciso. Três perguntas para… … Laila Garin Há um momento em que a partitura corporal precisa trair a partitura vocal: como é cantar com toda a potência de Piaf mantendo o diafragma e a caixa torácica presos à postura encurvada e rígida de um corpo em colapso? Piaf sempre foi uma voz potente em um corpo de pardal. A voz é o que a mantém de pé e o que fez dela quem ela foi. Essa voz luta, quer se erguer, não se curva. A voz de Piaf continua viva entre nós até hoje. Não morreu. É a contradição da própria vida: a morte e a existência convivendo. É ela se consumindo para poder cantar —e só permanecendo viva justamente porque canta. Interpretar figuras devoradas pelo próprio mito costuma deixar resíduos no corpo de quem atua. O que você faz fisicamente após o fechar das cortinas para devolver Piaf ao camarim e resgatar a Laila? Faço fisioterapia (risos), exercícios de mobilidade torácica, desaquecimento e economia vocal [princípio de alcançar a máxima eficiência fonatória com o mínimo esforço ou trauma físico nas pregas vocais]. Ao completar trinta anos de palco de forma tão intensa, você parece tratar a voz como um documento ético. O que na sua Piaf pertence estritamente ao Brasil de hoje e nada tem a ver com a Paris do século passado? Somos brasileiros contando Piaf. Talvez a nossa Santa Teresa traga algo de "Auto da Compadecida". O texto é de dois autores brasileiros de agora, contemporâneo. Aqui, Piaf assume a própria narrativa, e isso é muito 2026. Eu sou franco-baiana. Sempre fui híbrida, mas sempre vivi no Brasil; não sei separar essas duas metades. Eu converso com ela, com o que imagino que ela seja. Manipulo seus gestos e traços, brinco com o meu imaginário e com o do público. E nós estamos fincadas no presente. No palco, estou mais do que nunca no agora: é presença absoluta. E eu, apesar de franco-brasileira, vivo a realidade daqui. Quando canto "Les Mômes de la cloche" ("As Garotas de Rua"), todas as minhas referências são do Brasil. A minha consciência de classe é brasileira, ainda que com pai francês. Sou filha de mãe parda brasileira. Minhas marcas e cicatrizes são daqui, apenas com um aroma cultural e uma genética francesa. Acho que a nossa montagem é o olhar do Brasil contando Piaf. Porque somos nós em cena, não teria como ser diferente. Está tudo misturado, mas são brasileiros narrando essa história. E, no ponto exato em que sinto minha alma encontrar a dela, já não existe nacionalidade alguma. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 38, Centro - Rio de Janeiro. Quinta e sexta, 20h. Sábado, 15h30 e 20h. Domingo, 15h. Até 1º/11. Duração: 150 minutos (15 minutos de intervalo). Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 25 (meia-entrada balcão) em www.ingresso.com LINK PRESENTE: Gostou deste texto? 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Aos 30 anos de palco, Laila Garin alcan�a auge dram�tico como �dith Piaf
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