Aos 103 anos, defensora dos direitos humanos vai votar e v� risco de retrocesso democr�tico

Aos 103 anos, defensora dos direitos humanos vai votar e v� risco de retrocesso democr�tico

Aos 103 anos, Margarida Genevois vai votar neste domingo (25). A socióloga, que dedicou parte da vida a proteger perseguidos políticos durante a ditadura militar, chega a mais uma disputa eleitoral preocupada com o futuro da democracia e com o que considera uma dificuldade do país de levar a sério as ameaças. "Qualquer eleição é uma esperança de mudança para melhor. A gente sempre está dizendo: ‘Ah, agora vai ser melhor’. O que, infelizmente, não é verdade", afirmou, em entrevista à Folha em seu apartamento, na região central de São Paulo. A expectativa frustrada de transformação não a leva, porém, a abandonar a participação política. Ao contrário: para Genevois, a mudança depende do envolvimento de cada cidadão, e não apenas da escolha de representantes nas urnas. "Todo mundo critica, acha ruim, mas, na verdade, não se esforça para mudar", disse. "As pessoas têm que participar." Nascida no Rio de Janeiro, em 10 de março de 1923 em uma família da elite carioca, Genevois atravessou um século de transformações políticas no Brasil. Morou na zona rural de Campinas (SP), onde se deparou com a miséria dos trabalhadores rurais. Lá, promoveu ações de combate à desnutrição infantil e orientou mulheres sobre cuidados maternos. Articulou a criação de creches, de um posto de puericultura e de um clube de mães voltados às famílias de trabalhadoras. Mudou-se para São Paulo em 1967, formou-se em ciências sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Tornou-se referência na defesa dos direitos humanos no país ao integrar, por 25 anos, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, criada por iniciativa do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, da qual hoje é presidente de honra. A partir dos anos 1970, em plena ditadura militar, denunciou a tortura e os desaparecimentos e procurou advogados dispostos a defender perseguidos pelo regime. Também ajudou a acolher refugiados de países latinoamericanos submetidos a seus próprios governos autoritários e alertou para violações no exterior. Sua atuação não terminou com a redemocratização. Genevois participou de iniciativas de educação em direitos humanos, combateu a violência institucional e esteve entre as pessoas que ajudaram a fundar a Comissão Arns, dedicada à defesa da democracia e dos direitos humanos num Brasil que ainda coleciona violações que aumentam e diminuem ao sabor dos diferentes governos. É com essa trajetória que ela acompanha a candidatura à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado e outros crimes contra a democracia. "O Brasil às vezes parece brincadeira. As coisas não são levadas a sério", disse. "A pessoa faz uma frase bonita e isso já vale para muita gente. E fica por isso mesmo", criticou. Genevois já havia classificado o episódio da tentativa de golpe em janeiro de 2023 como "um dos grandes retrocessos da nossa história recente", e avalia que as consequências daquelas ações ainda reverberam. "Não chegamos a um status normal e positivo. Há muita coisa a ser mudada ainda. E as pessoas não percebem que depende muito de cada um." Para a centenária, o resultado da eleição pode ter consequências que vão além da alternância de poder. Ela manifesta dúvidas sobre a preservação da liberdade de pensamento em um eventual governo do atual senador. "A liberdade de cada um ter a sua opinião é importantíssima. Tenho minhas dúvidas se, com Bolsonaro, a gente vai ter liberdade de pensamento e de expressão", questionou. A preocupação com os direitos das mulheres também aparece em sua avaliação da disputa. Para ela, o tema ainda é tratado como secundário na política. "A gente sabe que ele não liga muito para mulher, só quando traz vantagem para ele", afirma, referindo-se a Flávio Bolsonaro. A socióloga diz considerar necessário manter a sociedade em alerta diante de uma eventual vitória de Flávio. Na avaliação dela, o risco está também nas mudanças concretas que um governo pode promover, para além dos discursos de campanha. "Evidentemente, se ele [Flávio Bolsonaro] ganhar, as coisas vão mudar na prática. Esse é o grande perigo", disse antes de uma intervenção da filha, Maria Luiza Genevois, que foi detida pela ditadura militar por seu envolvimento no movimento estudantil e sua contestação ao regime. "Ele não vai ganhar, não, mãe. É o Lula que vai ganhar, amor. O Lula! Você não viu o Janones falando?" Aos 103 anos, Genevois não apresenta a eleição como garantia de mudança. Seu voto, porém, carrega a experiência de quem viu a democracia ser interrompida, acompanhou a luta para recuperá-la e continua a considerar a participação pública indispensável para defendê-la.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.