Quando você pensa em bruxa, a primeira imagem que vem à cabeça é a daquela mulher com um chapéu pontudo, sentada em sua vassoura voadora, dando uma risada maligna e lançando feitiços com sua varinha. Mas você sabia que as bruxas que conhecemos dos contos de fadas são bem diferentes das mulheres que, no passado, receberam esse título? Antigamente, mulheres comuns como camponesas, viúvas, parteiras ou curandeiras foram acusadas de feitiçaria. Algumas despertavam a desconfiança dos vizinhos simplesmente por viverem sozinhas ou terem costumes diferentes. "Às vezes, bastava muito pouco. Uma criança adoecia, uma vaca deixava de dar leite, uma colheita se perdia ou um homem abandonava a esposa. Era preciso encontrar um culpado", diz a historiadora Mary Del Priore. "Muitas foram perseguidas não pelo que faziam, mas pelo que os outros imaginavam que fossem capazes de fazer." Entre os séculos 15 e 18, a Europa passou por um período que ficou conhecido como caça às bruxas. Cerca de 40 mil a 60 mil pessoas teriam sido executadas por acusações de bruxaria. A maioria das vítimas era formada por mulheres. Naquela época, parte da sociedade acreditava que elas eram mais facilmente enganadas pelo demônio do que os homens. Essa ideia era reforçada por algumas interpretações religiosas. Em 1486, um livro chamado "Malleus Maleficarum", ou "Martelo das Bruxas", ajudou a espalhar a crença de que elas seriam especialmente propensas à feitiçaria. Ainda assim, nem todas as acusadas eram mulheres que desafiavam as regras. Muitas eram vulneráveis e só acabavam tendo o azar de estar no lugar errado e na hora errada. "A perseguição revela, sobretudo, uma sociedade que desconfiava das mulheres e procurava disciplinar seus corpos, suas palavras e seus comportamentos", diz Del Priore. O medo também alimentava as acusações. Quando doenças e fenômenos naturais eram difíceis de explicar, culpar a bruxaria era mais fácil. E o Brasil, teve bruxas? Por aqui, não houve uma caça às bruxas tão ampla, mas isso não significa que as acusações de feitiçaria não tenham chegado ao Brasil. Quando os portugueses desembarcaram nestas terras, encontraram povos indígenas com suas próprias crenças e tradições. Os pajés, por exemplo, conheciam plantas medicinais e participavam de rituais espirituais de cura. Mais tarde, africanos escravizados também trouxeram conhecimentos e práticas religiosas que, por não serem compreendidos pelos colonizadores, eram reprimidos. "Os europeus chegaram trazendo não apenas armas, cruzes e mercadorias, mas seus medos. Entre eles, o medo do demônio", afirma Del Priore, que destaca a história de Luzia Pinta, mulher africana que havia conquistado a liberdade e vivia em Sabará, Minas Gerais, no século 18. Luzia realizava cerimônias chamadas calundus, que misturavam práticas de cura e comunicação com forças espirituais. Muitas pessoas a procuravam em busca de ajuda, mas suas atividades despertaram a atenção da Inquisição, um tribunal religioso que investigava comportamentos considerados contrários à fé católica. Ela foi denunciada, presa, enviada a Portugal e condenada a punições que incluíam o degredo, uma espécie de exílio forçado. Mas de onde vieram a vassoura e o chapéu pontudo? Se as mulheres acusadas de feitiçaria muitas vezes eram pessoas comuns, como surgiu aquela bruxa de nariz comprido e gargalhada assustadora? Segundo Del Priore, a figura que conhecemos hoje foi construída aos poucos, misturando crenças populares, desenhos antigos, histórias infantis e filmes. A vassoura, por exemplo, ganhou força nas histórias sobre bruxas que voavam durante a noite para participar de encontros secretos. Já a aparência de uma pessoa velha e assustadora estava ligada ao preconceito contra mulheres idosas, que teriam perdido a beleza. "A velha que vivia isolada, conhecia ervas, preparava poções ou parecia ter poderes misteriosos tornou-se uma figura perfeita para representar o perigo", conta. Com o tempo, livros e ilustrações ajudaram a espalhar essas características. Nos contos de fadas, as bruxas quase sempre apareciam como vilãs. Em "João e Maria", por exemplo, uma bruxa atrai duas crianças para sua casa feita de doces e planeja cozinhá-las em um caldeirão. E em "Wicked", história que ficou conhecida pelo musical da Broadway e pelas adaptações para o cinema, o público conhece um outro lado da Bruxa Má do Oeste, de "O Mágico de Oz". Ali, Elphaba, uma jovem de pele verde que mais tarde ganha a fama de malvada, é apresentada como alguém que sofre preconceito por ser diferente. Essa mudança na maneira de contar histórias sobre bruxas também acompanha transformações da sociedade. "A partir do século 20, especialmente com o fortalecimento dos movimentos feministas, a bruxa começou a ser reinterpretada. De criatura maligna, passou também a representar independência", diz Del Priore. A historiadora destaca, porém, que as bruxas poderosas da ficção não devem ser confundidas com todas as mulheres perseguidas no passado. "Talvez essa seja a maior ironia da história das bruxas. Durante séculos, elas foram temidas porque se acreditava que tinham poderes extraordinários. Hoje, são admiradas justamente por simbolizarem poderes que, durante muito tempo, não eram bem vistos pela sociedade."
Antes de virar s�mbolo do Halloween, ser bruxa era uma acusa��o que podia levar � morte
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