Mariana recebeu o diagnóstico em uma tarde morna e sem poesia. Aos 22, ela ganhou um carimbo no prontuário e uma receita azul que dobrava ao meio como quem guarda um segredo. As crises de ansiedade que a derrubavam no supermercado e a acordavam de madrugada sumiram em três semanas. Sumiram os poemas também. Desapareceram os versos que ela rabiscava e as metáforas que brotavam no chuveiro. Mariana ficou funcional e bonita nas redes sociais e morta por dentro que nem paisagem de shopping center. Ela disse em uma sessão de terapia que era como se tivessem desligado o barulho da alma. Desligaram o barulho e deixaram um silêncio educado e asséptico que não grita, mas também não canta. Mariana não é um caso isolado. Ela é o retrato de uma época que decidiu que sentir dói, doer é doença e doença se medica até a apatia ficar com cara de saúde. A planície emocional virou meta de bem-estar, e a ausência de susto virou sinônimo de maturidade. Construímos um mundo onde a tristeza virou transtorno depressivo e a angústia existencial virou ansiedade generalizada com código no catálogo internacional de doenças. O catálogo não tem código para a paixão da alma e não tem rubrica para a noite escura. O que não tem código não existe para o convênio, e a gente finge que é frescura. A angústia sempre foi a matéria-prima da nossa essência. Ela é a energia bruta e a eletricidade suja que vem antes do relâmpago iluminar o céu. Os antigos sábios olhavam para uma pessoa angustiada como um alquimista olha para o chumbo pensando na possibilidade do ouro. A angústia é a tensão insuportável antes de uma grande descoberta. É a fase escura da decomposição que vem antes de qualquer obra que preste. Ninguém acorda desejando essa escuridão psicológica, mas é lá que a coisa acontece. É no escuro que a semente rompe a casca e o poeta acha a palavra que não sabia que existia. O novo símbolo só nasce quando a nossa mente angustiada briga feio com as nossas profundezas. Dessa briga interna sai a obra que ninguém encomendou, mas todo o mundo precisava. Se a gente seda a angústia com calmantes, a briga acaba antes do primeiro round e o potencial de ouro continua chumbo para sempre. Medicar o mal-estar existencial é igual desligar o fogo porque a panela está quente ou arrancar o termômetro da boca para curar a febre. A panela continua cheia de água fria e você consome um jantar de clichês de positividade tóxica chamando esse nada de estabilidade emocional. Antigamente, a angústia era vista como a vertigem da liberdade e aquela tontura que dá quando você olha para o abismo das possibilidades infinitas. Hoje, damos um comprimido para a vertigem passar e batemos palmas para a indústria farmacêutica que resolveu em 30 minutos o que os grandes romancistas levaram 800 páginas para não resolver. Transformamos o sofrimento que move a alma para o alto em código de doença e fizemos domesticação emocional. A pílula virou muleta da máscara social e matou a Musa inspiradora por envenenamento químico com agravante de indiferença. A Musa, aliás, foi mandada embora sem aviso prévio. Ela que exige silêncio externo e barulho interno foi demitida porque o novo gerente químico do cérebro não tolera bagunça criativa. Criatividade exige tolerar o não saber e ficar na incerteza sem se debater e olhar para o vazio sem preenchê-lo com a primeira resposta pronta da internet. O remédio entrega uma mente dócil e previsível que faz o que o chefe manda e é ótima para bater meta, mas péssima para inventar uma metáfora que faça alguém chorar no metrô. Pense em um exercício de imaginação histórica que dói. Van Gogh com aquela intensidade insuportável seria medicado até achar que girassol é só uma flor amarela para enfeitar sala de jantar. Virginia Woolf receberia uma receita e nunca escreveria suas obras-primas. Clarice Lispector seria medicada contra a náusea existencial e pararia de escrever sobre o mistério de estar viva para ter um perfil funcional na internet. Teríamos "A Noite Estrelada" ou teríamos um pôr do sol com filtro postado às 18h para pegar o horário de pico do engajamento. Isso não é romantizar o sofrimento. Pânico incapacitante que faz perder emprego precisa de química rápido. Risco real contra a própria vida precisa de intervenção e medicamento. Depressões graves precisam de contenção farmacológica, e ninguém sensato defende tratar colapso grave com poesia. O critério é clínico e é preciso saber a diferença entre o colapso que mata e o colapso que gesta. O problema é transformar a adolescência inteira em doença. O problema é transformar o luto em transtorno de adaptação como se perder alguém devesse ser superado em duas semanas. A história de Mariana e dessa nossa sociedade anestesiada nos convida a resgatar o antigo mito grego de Filoctetes. Ele era um grande herói e um arqueiro excepcional que possuía o arco mágico de Héracles, capaz de acertar qualquer alvo. Durante a viagem para a Guerra de Troia, ele foi picado por uma serpente sagrada e a ferida no seu pé nunca cicatrizava. A dor o fazia gritar dia e noite e o cheiro era tão insuportável que os seus próprios companheiros o abandonaram em uma ilha deserta. Eles não queriam lidar com o incômodo e com o barulho daquela dor. Anos depois, os gregos descobriram por meio de uma profecia que jamais venceriam a guerra sem o arco mágico de Filoctetes. Eles tiveram que voltar à ilha e engolir o orgulho e aceitar o herói exatamente como ele era com a sua ferida fedorenta e os seus gritos de dor. Entenderam que não podiam ter a arma divina sem acolher o homem ferido que a carregava. Convido você a olhar para o seu próprio pé machucado. Aquela insônia ou aperto no peito talvez sejam o seu arco mágico pedindo uso. Respeitar o preço da própria profundidade não é sangrar para sempre, mas entender que uma alma sem angústia passa pela vida sem deixar rastro. Sem a noite escura, só resta o dia nublado de gente dopada. Acolha o seu barulho interno antes que vire um silêncio estéril. A tristeza reflexiva não é falha no sistema, é convite à transformação. Permita que a sua alma faça barulho: a flecha mais certeira da vida sempre será disparada pelas mãos da sua própria vulnerabilidade.
Ang�stia � vista como doen�a que deve ser medicada at� se tornar apatia
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