Já há alguns anos András Schiff tem buscado renovar a experiência do recital de piano clássico. Cidadão do mundo nascido em Budapeste, Schiff tem 72 anos e já havia vindo a São Paulo três outras vezes, em 2012, 2017 e 2023, sempre para tocar na Sala São Paulo. Nesta semana, ele interage pela primeira vez com a acústica privilegiada —e mais adequada para receber solistas e pequenas formações camerísticas— do Teatro Cultura Artística. Vale a pena tentar ver:—apesar de o site dizer que os ingressos estão esgotados, nesta terça (8) o teatro não estava lotado, e quem foi persistente conseguiu entrar. Suas inovações não passam pela ampliação do repertório –ele tem se dedicado cada vez mais apenas a Bach, Haydn, Mozart, Beethoven e poucos outros compositores–, mas são fruto de um aprofundamento para dentro das obras. Schiff interpreta seus autores tal como a professora de filosofia ou literatura que dedicou a vida a extrair minúcias e entrelinhas de um número pequeno de tratados ou poemas. Nos últimos tempos, deixou de enviar aos produtores, previamente, o programa que irá tocar: prefere anunciar tudo na hora e, como num show intimista de música popular, joga com as expectativas de quem vê. O começo do recital de terça foi, em termos de repertório, idêntico ao de 2023. Ele abriu com a "Ária" das "Variações Goldberg" BWV 988, obra do fim da carreira de Bach, e seguiu com uma peça do músico aos 19 anos, o "Capricho sobre a Partida de um Irmão Querido" BWV 992. Ao se afastar dos programas citados, fechou o momento bachiano com os três movimentos do "Concerto Italiano" BWV 971. O barroco de Schiff é tocado de uma forma livre, com uso de pedal e sem medo de contrariar os preceitos em voga para a música antiga; o que mais impressiona é seu controle sonoro: a independência polifônica parece coberta por uma capa protetora, delicada e envolvente, tanto no grave como no agudo, que permite a manifestação de múltiplos contrastes afetivos –austeridade na "Ária", humor no "Capricho", elegância no "Concerto". Não é comum que pianistas variem de instrumento durante um espetáculo, mas, para Schiff, o palco do Cultura Artística dispôs de dois pianos de concerto Steinway, e, ao anunciar o "Andante com Variações" em fá menor de Haydn, ele passou do piano que estava mais ao fundo para o outro, mais próximo da plateia. O som ganhou brilho e proximidade, ressaltando a inteligência refinada, a ironia divertida que caracteriza o compositor. Seguiu-se a "Fantasia" em dó menor K475 de Mozart —de volta ao instrumento no qual ele havia tocado os três números iniciais de Bach— e após a "Sonata Tempestade" op. 31 n.º 2 de Beethoven (esta novamente no piano mais próximo ao público). Por não conhecer a sequência do programa, o público é convidado a romper padrões temporais: quando, após três obras de Bach, uma de Haydn, uma de Mozart e outra de Beethoven, muitas delas com vários movimentos, foi anunciado o intervalo de 20 minutos, já havia se passado uma hora e meia, isto é, poderia tranquilamente ser o fim da apresentação. Schiff aposta no vagar contra a experiência rápida. Tal como nos shows de Hermeto Pascoal, é preciso abandonar-se à experiência para que ela alcance a plenitude. Na segunda parte, mais uma surpresa: eis que o pianista entra em cena com o jovem premiado violinista brasileiro Guido Sant’Anna, e transforma o recital que era de piano solo em um espetáculo de música de câmara. Eles tocaram, então, a gigantesca "Sonata Kreutzer" op. 47 de Beethoven, que inspirou o livro de mesmo título de Liev Tolstói. Sant’Anna tem 21 anos e tocou tudo de memória. Dá para perceber que eles já fizeram música juntos antes, pois há muitos detalhes trabalhados —há uma unidade de intenção fraseológica que exige uma série de ensaios. De fato, sabe-se que Guido frequentou os cursos de Schiff na Europa, e ambos se apresentaram no ano passado no Wigmore Hall de Londres. Eles ainda voltariam para dois números extras: o primeiro movimento da "Sonata nº1" op. 78 para violino e piano de Brahms, e uma das "Antigas Valsas Vienenses" de Fritz Kreisler. No fim, tudo durou cerca de três horas, o que é muito incomum nesse tipo de recital. Na quinta, Schiff volta ao Cultura Artística, e pode ser que mantenha a mesma estrutura. Ou não.
Andr�s Schiff vai ao Cultura Art�stica e rev� o cl�ssico com o seu piano
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.