Analistas afirmam esperar uma atuação mais contida do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) nos financiamentos à economia em um eventual mandato presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). O cenário previsto destoa do movimento observado no terceiro governo Lula (PT), que ampliou os desembolsos da instituição para diferentes setores em busca de crédito. Flávio largou em vantagem no primeiro turno das eleições. O senador volta a enfrentar Lula no segundo turno, agendado para 25 de outubro. A previsão de um BNDES mais enxuto está associada à expectativa de que Flávio adote, se eleito, uma agenda com viés liberal na economia. Isso significaria uma busca por participação maior do setor privado na concessão de crédito. "O eventual governo Flávio Bolsonaro, ainda que seja liberal na economia, não vai conseguir não usar o BNDES. Na verdade, tende a usar menos. Tende a usar menos porque a ideia é que o crédito saia mais da própria economia e menos do governo", diz a economista Juliana Inhasz, professora do Insper. Segundo ela, o banco público tem ajudado a empurrar a atividade econômica na gestão Lula por meio do financiamento a programas federais como o Nova Indústria Brasil, além de empréstimos voltados a áreas como a de transformação da matriz energética. O BNDES desembolsou R$ 75,6 bilhões em crédito no primeiro semestre de 2026, alta de 31,2% ante igual período do ano passado. Os dados são da série histórica que o banco disponibiliza em valores constantes –corrigidos pela inflação. A quantia liberada foi a maior para o intervalo de janeiro a junho desde 2015 (R$ 124,3 bilhões), no segundo governo Dilma Rousseff (PT). A retomada ocorreu após o processo de encolhimento das operações nos mandatos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio. À época, a instituição concentrou esforços na estruturação de projetos de infraestrutura e privatizações. "Com Flávio virando presidente, a ideia é o BNDES voltar talvez aos moldes do período do pai dele, com uma atuação muito mais atenuada", afirma Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados e colunista da Folha. Nesse cenário, conforme Vale, a intenção do governo seria não pressionar a inflação por meio da liberação de crédito de bancos públicos e, assim, tentar gerar uma redução dos juros para o mercado de maneira geral. "O BNDES ficaria focado naqueles projetos em que o benefício social é suficientemente importante e onde um banco privado não entra." C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões A Folha procurou a assessoria da campanha de Flávio por email, mas não recebeu retorno. O plano de governo do senador fala em apoiar a internacionalização de pequenas e médias empresas via BNDES. Também promete o uso do banco para financiamentos de obras no país. Para o economista Gilberto Braga, professor do Ibmec no Rio, os planos de governo de Flávio e Lula ainda não estão muito claros, mas é esperada uma redução na participação do Estado na economia em caso de vitória do senador. Isso afetaria o BNDES. "São princípios econômicos distintos entre os dois governos", afirma. O plano de Lula não menciona o banco. Promete assegurar uma política econômica que siga promovendo o crescimento e fala em elevar a taxa de investimento no país, além de incentivar aportes privados na indústria, com foco em inovação. Na visão de Braga, caso o presidente saia vencedor das eleições, é esperado que o BNDES continue com a orientação em curso desde 2023. "Tem uma política atual de reindustrialização, que fala em inovação tecnológica, digitalização e competitividade. Também deve continuar o investimento em infraestrutura básica, logística, ferrovias e mobilidade urbana de forma geral." A Folha procurou a atual direção do BNDES por meio da assessoria do banco, mas não obteve retorno. A instituição é presidida desde 2023 pelo ex-ministro Aloizio Mercadante, nome histórico do PT. A atual gestão defende a ideia de que o BNDES é complementar ao mercado, e não substituto. Também adotou um discurso favorável ao financiamento de projetos em áreas consideradas estratégicas para o país e que envolvem riscos, como transição energética e inovação. No acumulado dos 12 meses até junho, os desembolsos do BNDES alcançaram patamar equivalente a 1,4% do PIB (Produto Interno Bruto). A proporção subiu ao longo do terceiro governo Lula, mas segue abaixo dos níveis verificados em gestões anteriores do PT. O indicador chegou a superar 4% do PIB em 2009 e 2010. Além de aumentar os recursos para crédito, a atual gestão retomou os investimentos na compra de ações de empresas por meio da subsidiária BNDESPar. O banco tem registrado lucro, e a taxa de inadimplência da instituição estava em 0,05%, abaixo da média do Sistema Financeiro Nacional (4,68% no geral e 0,66% para grandes companhias), conforme balanço do primeiro semestre divulgado em agosto.
Analistas esperam BNDES mais enxuto em eventual governo Fl�vio Bolsonaro
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