Ana Hering é uma das poucas mulheres a disputar uma vaga de deputada federal pelo Missão, partido criado pelo MBL. Advogada, largou o emprego numa multinacional pela política. Hoje se diz de direita, mas rejeita a ideia defendida por influenciadores do campo, de questionar o voto feminino. Em outras pautas, ela se alinha à ala conservadora. Defende que mulheres trans não usem o banheiro feminino e propõe, no lugar, um terceiro banheiro, unissex. Veja a seguir a entrevista que ela concedeu ao Folhateen. Por que decidiu disputar uma vaga de deputada federal? Venho de uma família de esquerda. Cresci dentro de um sindicato, então sempre tive muito contato com a política. Minha formação é de técnica em química, me formei em direito. Mas senti uma falta de propósito na carreira. Conheci o Missão e vi que os planos do partido estavam totalmente alinhados com a minha percepção do que deveria ser aplicado no Brasil. O Livro Amarelo, nosso livro de propostas, tem 460 páginas e é voltado principalmente ao âmbito federal. Entendo que a minha atuação vai ser muito mais proveitosa na Câmara dos Deputados. Como alguém que cresceu numa família de esquerda vai para a direita? Nunca me prendi à visão que a minha família tinha. Mesmo crescendo num ambiente de esquerda, sempre quis entender os dois lados. Acho que hoje há essa polarização de achar que um lado é 100% ruim e o outro é 100% bonzinho. Existem coisas boas nos dois lados. Sempre construí minha visão política em cima disso. Hoje consegui converter meus pais. Eles estão comigo no Missão. O resto da minha família, que é de esquerda sindicalista, já não está tanto do meu lado.Tem até um grupo contra mim no ambiente familiar. Então o Missão fica entre a direita e a esquerda? Somos um partido de direita. Acontece que estamos dispostos a estudar ideias de todas as áreas que deram certo. Não vou rejeitar uma ideia porque ela veio da China. Isso não quer dizer que vamos nos tornar um país comunista. Nós somos a verdadeira direita. Saiu uma pesquisa mostrando que o alinhamento do Flávio Bolsonaro, que se diz de direita, com o governo Lula é de 40%. O do Kim Kataguiri, nosso representante, é de menos de 20%. A senhora diz defender a mulher biológica. O que isso significa? Nos últimos tempos, a gente acabou sobrepondo a identidade social, a identidade pessoal, à biologia. Um exemplo é o caso de mulheres trans nos esportes femininos. Claro, eu defendo as pessoas trans, mas elas não devem atuar nos mesmos lugares que as mulheres biológicas. No esporte feminino, deve prevalecer a mulher biológica. De repente, nós, que nascemos mulheres, nos tornamos "pessoas que gestam", nos tornamos "mulheres cis". Tivemos que adequar o que somos para abranger outra categoria de pessoas, sendo que essa categoria já tem o seu nome: mulher trans. A senhora acredita que as mulheres estão sendo atacadas? Sim. A Erika Hilton, uma mulher trans, assumiu a presidência da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados, e o primeiro pronunciamento público dela nessa posição foi chamar de imbecis as mulheres que discordam dela, fazendo referência justamente ao termo "cis". Nossos espaços estão sendo tomados e não podemos sequer falar sobre isso sem sermos acusadas de transfobia. Como a senhora votaria um projeto de proibir pessoas trans de usarem o banheiro do gênero que se identificam? Sou a favor de que mulheres trans não usem o banheiro feminino. O que acho adequado é ter um banheiro masculino, feminino e um unissex. Nesse ia quem se sentia confortável: pessoas intersexo, pessoas trans, um homem com a filha, uma mulher com o filho. Não sabemos o caráter das pessoas. Você não sabe quando é realmente uma pessoa trans entrando ou quando é uma pessoa mal-intencionada. Moradia e transporte estão entre os maiores problemas dos jovens na cidade. O que propõe? São Paulo teve um Plano Diretor que foi muito restritivo e depois muito aberto, a gente vê prédios sendo construídos a torto e a direito. O trânsito está terrível. É um absurdo pagar um valor gigantesco por um apartamento que, na verdade é um quarto. Precisamos rever o Plano Diretor. No Livro Amarelo, temos o nosso ajuste fiscal, que prevê uma economia de R$ 250 bilhões por ano. Isso aumenta a confiança no país, porque derruba os juros. Com juros menores, passam a investir mais em infraestrutura e em outras áreas, como a imobiliária, em vez de deixar o dinheiro parado na renda fixa. O MBL e o Missão já foram alvo de acusações de machismo. Como é ser mulher no partido? Sou respeitada aqui dentro. Nos bastidores, que as pessoas não veem, muitas das pessoas por trás do partido são mulheres, muitas em cargos de liderança. Quanto às acusações, sempre vão existir, principalmente contra partidos de direita. É muito triste que mulheres na política sejam alvo desse tipo de situação. Influenciadores de direita chegaram a questionar o voto feminino. Qual é a sua posição? É um direito que não deveria sequer ser questionado. Repudio veementemente as falas do Paulo Figueiredo. Nós chegamos a fazer um estudo sobre o voto familiar antes da versão final do Livro Amarelo, mas ele não foi para a frente justamente porque somos a favor do sufrágio universal. Acredito que discutir isso já é um incentivo para que outras pessoas passem a questionar algo que não deveria ser questionado.
Ana Hering, do Miss�o, prop�e cria��o de 'terceiro banheiro' para pessoas trans
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