'Ana, en Passant' celebra o cinema negro em narrativa l�dica de luto e identidade

'Ana, en Passant' celebra o cinema negro em narrativa l�dica de luto e identidade

Dizer quem somos e de onde viemos é uma tarefa fácil, principalmente quando estamos perdidos em um lugar desconhecido. Mas quando nos perdemos de nós mesmos ainda é possível tal reconhecimento? Sem mapa, mas com jazz e animação, "Ana, en Passant", de Fernanda Salgado, procura respostas para essa questão. O filme brasileiro, uma coprodução com Portugal e França, chega aos cinemas nesta quinta-feira. Em sua narrativa, revê o luto, a identidade e a ancestralidade de quem se percebe apenas de passagem, o "en passant" do título em francês. A obra, que demandou quase uma década para ser produzida, mescla técnicas de animação e acompanha a jovem negra franco-brasileira Ana. Criada pela avó após a morte da mãe, a protagonista sofre uma nova perda familiar e, diante da descoberta de uma caixa recheada de memórias, decide viajar da cinzenta Paris para a rítmica Belo Horizonte em pleno Carnaval. Valendo-se de fotos, pedaços de papel e cupons fiscais, a diretora cria um "scrapbook" —álbum de recortes— que "tece essa coleção de memórias da mãe, da avó e dela mesma", diz Salgado. Com o objetivo incerto do que procurava na cidade, Ana é levada ao antigo apartamento da avó, onde encontra sua "irmã de outra vida", Alice, a atual residente do imóvel. Apesar das personalidades, criações e ideias distintas, Alice e Ana —ambas interpretadas por Jéssica Pierina— ficam sem saber o que fazer diante da inusitada situação. Guiadas por um sentimento sem nome, percebem que devem seguir juntas. Ambas mergulham em incertezas sobre si mesmas: enquanto Ana encara o luto por sua avó —que também se chamava Alice—, a outra Alice passa por uma gravidez difícil, que requer isolamento. Para Pierina, o elo entre elas se dá pela dor e mudança. "As duas têm muitas diferenças, mas a semelhança principal é o momento de transformação —o luto físico e a descoberta de um novo corpo", diz a atriz. Diante da recriação de lugares de Belo Horizonte —como a praça Raul Soares, o Viaduto Santa Tereza e a rua Sapucaí—, Ana tenta refazer os passos da avó para encontrar um significado para a sua própria identidade e resgatar suas raízes. Com tom de conselheira, a avó Alice —vivida por Zezé Motta— orienta a jornada por meio das lembranças da neta. Entre tantos ensinamentos, Motta destaca a lição sobre "não perdermos a nossa essência e sabermos quem somos e de onde viemos". Nessa trajetória que, para Ana, inicialmente não tem um rumo claro, o personagem de Carlos Francisco surge para auxiliá-la. Ele interpreta o carteiro André, que funciona como uma ponte para o passado, revelando arquivos nunca vistos pela neta e que mostram a mulher que a avó era antes mesmo de ela nascer. Atuando como uma âncora para que a protagonista revisite sua história, o ator define o carteiro como um "provocador da memória", uma chave para acessar lembranças que Ana não conseguiria alcançar sozinha. A princípio apresentadas de modo abstrato —com esboços, diálogos de um passado distante ou instrumentais marcantes—, essas memórias tomam forma material quando Ana descobre o jardim da bisavó, fotos da infância da mãe e cartas jamais lidas da avó. Traçando a conexão dessa linhagem de mulheres negras, ela se revela complexa e viva. Esteticamente, Salgado constrói "Ana, en Passant" introduzindo seus arquivos pessoais na narrativa, desde a voz infantil no início do filme até fotografias capturadas pela diretora. O longa culmina em uma dedicatória à sua filha, Olívia, de 9 anos. Para a cineasta, a Olívia foi "um motor para inventar espaços para ela e para todas nós", consolidando uma obra que celebra o cinema negro ao ultrapassar as narrativas estritas de denúncia para ocupar "um lugar de poesia, de invenção, de trazer as delicadezas e sutilezas das nossas vidas", diz Salgado. Zezé Motta celebra esse espaço para o imaginário e olha para a obra como um marco de suas seis décadas de carreira. "Durante muito tempo, nossas histórias foram contadas quase sempre pelo olhar da dor, mas nós somos muito mais do que isso. Nós amamos, sonhamos, fantasiamos", afirma a atriz, uma das figuras primordiais na discussão sobre a presença negra no audiovisual. Essas reivindicações de leveza em "Ana, en Passant" respondem ao questionamento inicial neste texto. Quando a vida nos tira do eixo e nos vemos perdidos de nós mesmos, o filme dirigido por Salgado nos lembra que estar "de passagem" não é vagar sem rumo, mas sim viver uma travessia.

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