Até dois meses atrás, Ana Elisa Santos, 21, recebia R$ 1.700 como estagiária do Tribunal Regional do Trabalho em Minas Gerais. No mesmo período, acumulava cerca de 1 milhão de seguidores no Instagram e dizia recusar propostas de publicidade. "Como que eu vou ficar vendendo coisa se eu sou contra esse capitalismo exacerbado?", afirma. Estudante de direito, ela deixou o estágio para disputar uma vaga de deputada federal pelo PT. Ela diz querer mudar a "fotografia do poder" num partido que, na sua avaliação, ainda não consegue fazer a geração Z se enxergar nele. Veja a seguir entrevista que ela concedeu ao Folhateen. Quem é Ana Elisa, e como chegou a uma candidatura a deputada federal? Sou filha de mãe solo, preta e professora. Nascida e criada em Divinópolis (MG). Mas a minha família é de Oliveira e nos mudamos em busca de emprego e estudo. A gente passou por momentos críticos na educação de Minas, e sabemos que o sucateamento é um projeto da extrema direita. Depois de muitos anos de acompanhamento sindical, fui para as redes sociais falar de política. A juventude está em grande disputa entre direita e esquerda, mas o que eu via na escola era quase 70% da sala de direita. E era uma escola pública. É muito difícil alguém viralizar em uma rede comandada por big techs falando de política de esquerda. É um em um milhão. Eu consegui furar essa bolha e venho crescendo há mais de um ano com esse debate político e jurídico. Até que, em março deste ano, recebi o convite para disputar uma vaga de deputada federal por Minas Gerais. Não crê que a juventude de esquerda se identifica mais com o PSOL do que com o PT? É preciso mudar a fotografia do poder mesmo. Falta representatividade visual [ao PT]. As pessoas não se sentem representadas. Às vezes elas se identificam com o PSOL porque lá existem mulheres trans pretas no poder, homens gays, minorias. A população se vê ali. E o jovem é muito visual. Eu percebo que a adesão ao PSOL vem da juventude conseguir se ver, para além da ideologia —porque as ideologias são quase as mesmas. Nos dois partidos existem tendências, grupos políticos que defendem seus interesses. Eu quero muito quebrar esse estigma do Partido dos Trabalhadores. É o maior partido da América Latina e tem, sim, condições de representar a juventude, de fazer as pessoas se verem dentro dele. O presidente Lula quer que isso seja feito e passou essa missão ao Diretório Nacional. Faltou representatividade ao PT? Acredito que nos partidos políticos, de modo geral. Alguns começaram a trazer essa representatividade. O Partido dos Trabalhadores não é o presidente Lula. O PT é uma instituição; o presidente Lula é uma pessoa. É da vontade dele que exista representatividade, e a prova é quando ele sobe a rampa com indígenas, com pessoas pretas, com pessoas mais velhas. Mas o partido não é o presidente. Ele tem influência, mas lá dentro também existe democracia. Quais são os maiores problemas enfrentados pela geração Z? Eu não diria que a geração Z tem problemas. Eu diria que as outras gerações enxergam problemas na geração Z, porque não querem que ela as represente. Esse é o problema da atualidade: dizer que quer representatividade jovem, mas não dar oportunidade para a juventude ocupar os lugares. Dizer que a juventude tem problemas é muito egoico da nossa parte, quando o Estado não dá oportunidade a ela. Mas quais as dificuldades dessa geração? Eu volto a dizer que são dados distorcidos. A juventude trabalha e estuda, mas não tem oportunidades. Quantas pessoas da minha idade você já viu disputando uma eleição aos 21 anos? Não é fácil. A sociedade tem mania de atribuir à juventude coisas pejorativas. Na ditadura militar, diziam que a juventude era atrevida e que por isso precisava ser presa. Mas, se não fosse a juventude daquela época, não teríamos tido as Diretas Já. No fim, o que a gente vê é uma sociedade frustrada, que não quer jovens no debate político. Muita gente vai ficar em dúvida de votar em uma pessoa tão jovem, que nunca teve cargo público. Como a senhora responde a isso? Eu sou jovem, sim. Mas, se estão usando a minha faixa etária para me descredibilizar, eu digo que existem pessoas mais velhas que estão na Câmara há anos, nunca fizeram nada pela população. Eu levo comigo a escuta da sociedade civil. Minas Gerais tem uma das maiores dívidas do país. De quem é a responsabilidade, e como sair dela? A gente precisa entender quem Minas vai eleger para o Executivo, porque o problema da dívida hoje é do desgoverno Zema. O Patrus Ananias, candidato do PT ao governo de Minas, é capacitado e consegue contornar essa dívida ouvindo os deputados federais e estaduais para construir uma solução. Agora, se elegermos alguém que não está comprometido em reduzir a dívida do estado, eu realmente não sei o que vai ser de Minas. Só faltou Zema privatizar os mineiros. Vamos saber o tamanho do rombo quando o governo dele acabar de fato.
Ana Elisa, candidata de 21 anos do PT, cobra partido por renova��o
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