'Amor Poss�vel', filme vencedor em Veneza, faz o vel�rio do capitalismo

'Amor Poss�vel', filme vencedor em Veneza, faz o vel�rio do capitalismo

O cinema dá normalmente o recado, revelando um mal-estar da sociedade através dos tempos. Diversos filmes recentes lidam com o capitalismo tardio e a revolta ou a organização da classe trabalhadora. É uma verdadeira "kenloachização" do cinema contemporâneo, com o perdão do neologismo. Em alguns filmes, como "Vergonha e Dinheiro", de Visar Morina, ou "O Barqueiro", de Simão Cayatte, a violência explode antes de qualquer organização. Ambos foram exibidos na recente Mostra de Cinema de São Paulo. Em outros, como "Amor Possível", vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, também exibido na Mostra e agora disponível na Netflix, as trabalhadoras resolvem abrir um sindicato dentro da empresa. A ameaça de revolta, porém, é constante. Para alguns personagens deste novo longa do sul-coreano Lee Chang-dong, a câmera é intrusa. Quando uma mulher da classe trabalhadora aceita ter sua vida filmada por uma documentarista, não contava com a má vontade de seu filho e de seu marido desempregado para se deixarem filmar. A realização do documentário, contudo, se fará também com os depoimentos desse casal. Na primeira cena, Mi-ok e Ho-seok, interpretados por Jeon Do-yeon e Sul Kyung-go, ambos já tendo trabalhado com o diretor, estão na porta de casa com o filho pequeno, vestidos para algum evento formal. Um vizinho passa e pergunta se vão a algum lugar bacana. Ho-seok confirma, mas secretamente lamenta. Logo entenderemos por quê. Eles estão a caminho de um velório. Já que estamos numa seara próxima à de Ken Loach, convém questionar se não seria o velório do capitalismo. O filme irá progressivamente corroborar tal alegoria. O que ficamos sabendo mais tarde é que Ho-seok perdeu o emprego. No carro, Mi-ok começa a chorar, em parte pela perda prematura de um parente, em parte pela situação do marido e pelo futuro incerto da família. Cenas de choro costumam ser comoventes, desde que não se exagere na carga sentimental. O diretor encontra o tempo e o tom ideais para não chantagear o espectador com a tristeza de uma personagem que ele mal conhece. A documentarista Ye-ji, papel de Cho Yeo-jeong, é casada com um homem muito rico chamado Sang-woo e vivido por Zo In-sung. Esse homem, alto e jovem apesar de milionário, por incrível que pareça, no começo parece empregado da documentarista. Ye-ji é esperta, mas não parece ter vocação para ser documentarista. Parece mais uma oportunista. A amizade entre os dois casais não tem como se desenvolver sem alguma fissura causada pela diferença abissal de classes, apesar de alguma atração da parte de Mi-ok por Sang-woo. A cena em que Mi-ok perde a aliança e quem a encontra é Sang-woo é uma antecipação simbólica da tensão sexual que crescerá entre eles. A tensão maior, contudo, é outra. Temos uma família de classe média que está prestes a perder seu poder de consumo. E outra, sustentada por um jovem ambicioso para o qual um projeto de milhões é como um jogo que se ganha ou se perde sem maiores consequências. Maratonar Um guia com dicas de filmes e séries para assistir no streaming Ironicamente, a documentarista pode ganhar prestígio filmando classes desfavorecidas e pessoas desempregadas enquanto sua própria vida continuará inabalável, no conforto e na segurança do acúmulo de bens. Existe aí um comentário da exploração da imagem dos excluídos da festa do capitalismo por uma elite financeira que, por capricho, resolve posar de artista. O mais importante de "Amor Possível", contudo, reside menos em sua implicação política do que na maneira como a relação dos casais evolui num crescendo dramático que procura envolver o espectador, com momentos de catarse muito bem trabalhados pela direção, sem exageros no tom. Os dois longas anteriores de Lee Chang-dong, "Poesia", de 2010, e "Em Chamas", de 2018 foram muito bem recebidos no circuito de festivais. "Amor Possível" tem seguido o mesmo caminho, com a diferença de ser superior a todos os anteriores do diretor. É seu filme de maturidade.

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