Ao final dos encontros das Promotoras Legais Populares, na rua em frente à União de Mulheres, Amelinha mandava tocar "Maria, Maria", de Bituca e Fernando Brant, para êxtase da mulherada. A música fala em ter fé na vida, apesar de tudo, e se tornou um hino do movimento feminista brasileiro, do qual Amelinha foi uma de suas maiores expoentes. É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre. E eu precisei disso tudo quando soube de sua passagem, neste último dia 15, aos 82 anos. Eu estava em um voo e não contive as lágrimas. Foi tudo tão rápido, da internação à notícia de seu falecimento, que me vi diante de um vazio entorpecente. À noite, tive uma palestra em Curitiba e foi me apegando nas memórias no quintal de sua casa que cheguei até o fim do evento sem demonstrar como aquele dia havia sido duro. Eu a amei muito e a amarei para sempre. Uma amiga, mestra, referência. Amelinha se confunde com a história da resistência à ditadura militar, da imprensa, do feminismo brasileiro e da luta incansável por memória, verdade e justiça. Seu filho Edson Teles, professor de filosofia na Universidade Federal de São Paulo, foi o meu orientador de mestrado. A partir dele, conheci a residência de Amelinha em 2013. No quintal de sua casa, funciona o coletivo feminista União de Mulheres, organização independente fundada por ela e outras companheiras na década de 1980. Eu, que à época morava numa república estudantil em Guarulhos, passei muitos finais de semana em sua companhia e passei a fazer formações no programa Promotoras Legais Populares, o que continuei fazendo todos os anos desde então. As PLPs são uma ação de formação de líderes comunitárias mulheres com noções de feminismo, direito, equipamentos públicos, de forma a contribuir para a melhoria da qualidade de vida e da dignidade humana de mulheres das mais variadas periferias. Tanto convivemos que Amelinha dizia, em tom de brincadeira, mas nem tanto, que meu nome era Djamila Ribeiro "Teles". Ali na União de Mulheres foi o primeiro espaço de militância feminista em que fui acolhida em São Paulo; de certa forma, minhas raízes estão lá plantadas naquele quintal. Foi uma honra fazer parte dessa família de um modo tão simbólico. O Brasil deve muita gratidão à essa família. Amelinha e seu marido, César, falecido em 2016 e o qual tive a honra de conhecer, foram barbaramente torturados na frente dos filhos, crianças, pelo facínora cujo nome não merece ser dito neste espaço e que teve por ela e outras mulheres um sadismo ainda maior. Além de torturador, ele foi um estuprador e assassino, mas, ainda assim, ele foi homenageado no voto de um então deputado que se tornou presidente, cujo nome também não merece que seja dito, em certo dia triste para a democracia brasileira no afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Na despedida à velha companheira, Dilma destacou o seu "exemplo imenso de coragem, coerência e dignidade. Jamais abriu mão de seus princípios, jamais abandonou suas lutas e nunca permitiu que o silêncio encobrisse as violências do passado. Sua partida deixa um vazio profundo em todos aqueles que, como eu, tiveram o privilégio de conhecê-la, admirá-la e reconhecê-la como uma referência de grandeza humana e compromisso com a justiça". Amelinha morreu festejada por uma multidão de mulheres. Como afirma a União de Mulheres em nota: "Nossa fundadora, precursora dos direitos das mulheres, defensora implacável da democracia, da dignidade humana, mulher corajosa, rebelde, que nunca se dobrou ao autoritarismo, às injustiças, às violências, encontrou em cada mulher uma forma de viver, de resistir". Na luta por memória e verdade, é impossível dimensionar suas contribuições. A família Teles foi autora da ação judicial que levou ao primeiro reconhecimento do torturador pela Justiça brasileira. Amelinha integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, participou da construção das Comissões da Verdade e defendeu a preservação do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, por trabalhos como a identificação das ossadas encontradas na vala clandestina de Perus. Em 2022, se tornou doutora honoris causa por aquela universidade, que velou em sua reitoria sua filha mais amada. O Brasil deve muito a Amelinha Teles. Eu devo muito a Amelinha Teles. Deixo meu abraço em seus filhos Edson e Janaína, em sua irmã e companheira de vida Criméia e toda família. À Amelinha, fica a gratidão por tudo o que fez pelas mulheres, pela democracia e pelo Brasil. Por você, seguiremos assumindo uma postura incômoda. Seguiremos cultivando a árvore da esperança e respirando os ares de liberdade que sua luta ajudou a tornar possíveis. Nós a amaremos para sempre. Amelinha Teles, presente! Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Amelinha Teles
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