Altos, baixos e curvados

Altos, baixos e curvados

Em um aniversário, recentemente, conheci uma artista plástica que me disse: "Voltei a pintar só agora, depois de 30 anos". Eu perguntei o que havia acontecido e ela me contou traumatizada: "Uma pessoa disse que eu era ruim". Uma pessoa? Pensei na quantidade de gente que já fez textão pra me detonar e queria rir. A artista contou que só conseguiu voltar porque "mudou completamente". Entendo. Eu começo a digitar meia palavra numa crônica e fico meio enjoada. Até quando eu vou escrever como eu escreveria? Daí tento ser diferente e acho tão chato que preciso comer absolutamente tudo que tem em minha casa. "Mais séria", vai a geladeira inteira. "Mais controlada", vai a despensa inteira. "Mais metida a intelectual", vai um ovo de Páscoa vencido e esquecido na gaveta do quarto da minha filha. "Menos autorreferente", já estou no supermercado enchendo o carrinho de novo. Engordo cinco quilos a cada tarde que tento ser outra. Itamar Vieira Junior, que eu conheci na Flip, me falou: "É preciso seguir escrevendo, é preciso não parar, vai ter gente querendo que você pare, não pare, escreva". Mas e quando você mesma começa a querer que você pare? Uma semana antes da Flip, eu acordei desejando profundamente que algo acontecesse e eu me visse livre da viagem. Podia inundar a cidade, pegar fogo na pousada que me receberia, ter algum desmoronamento na estrada. Lembrando que pensamentos intrusivos não fazem de mim uma má pessoa. Outras coisas, sim. A Flip é extraordinária, mas também o desfile máximo de nossos egos e sombras. Você precisa estar lá e você precisa, peloamordeDeus, sair correndo de lá. Você adora aquelas pessoas e você, nossaSenhora, tem pavor daquelas pessoas. Você é celebrado e um lixo. Você está ótima, está tão bonita, que ótima fase, mas ontem mesmo precisou aumentar o remédio e chorou muito no banho. Então, quatro dias antes da Flip, brincando de cavalinho com uma criança de três anos, eu realizei meu sonho. Meu disco rasgou, hérnia pra fora, ressonância horrorosa, cheia de líquido boiando entre a L2 e a L3. Não conseguia andar ou ficar ereta. Não conseguia nem rolar pro lado, nem lavar a bunda. O ortopedista do hospital lamentou, enquanto me aplicava morfina e Diprospan: "Esquece Paraty". Me olhei no espelho e eu estava totalmente curvada. Minhas mãos encostavam no meu pé. Minha única visão era a do meu joelho torto e flácido. "Eu não vou me curvar não". Veio esse pensamento. Achei ele bom. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Eu andava pela casa como uma orangotango idosa. Meus braços pendiam imensos e minha cabeça parecia sair do meio do meu estômago. Eu estava tão feia e tão desgraçada que não conseguia parar de fazer piadas. Minha filha e meu namorado riam muito e comecei a gostar da situação. Quando cheguei ao hospital, rapidamente vieram me trazer uma cadeira de rodas, mas eu percebi que as pessoas na sala de espera desviavam o olhar por incômodo e para não rir. Estava feito o convite: eu precisava entregar o show. A orangotango velha desfilou entre elas. Provocativa, dramática, exposta, exagerada. As crianças riram muito, ainda que as mães tentassem controlá-las. A força que isso foi me dando. O prazer que a exposição ao ridículo me dá. (É assim que você escreve e olha o que causa!) Não se curve! Não se curve!! Fiquei totalmente de pé na manhã da viagem. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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