Alta do combust�vel reacende temor de revolta social na Fran�a

Alta do combust�vel reacende temor de revolta social na Fran�a

Esta é a edição da Euro Radar, a newsletter da Folha sobre a Europa. Quer recebê-la todas as quintas no seu email? Inscreva-se abaixo: Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Cem euros enchem um tanque, e acabou. Com essa conta, Sophie Binet, secretária-geral da CGT (Confederação Geral do Trabalho), maior central sindical francesa, desqualificou nesta quarta-feira (23) o pacote anunciado na véspera pelo governo contra a alta dos combustíveis. Ela reforçou a convocação para os protestos marcados para o dia 29, por salários, serviços públicos e custo de vida. O pacote, de cerca de € 450 milhões, dá um novo cheque de € 100 a quem usa o carro para trabalhar e tem renda modesta, agora 5,5 milhões de pessoas, 2,5 milhões a mais que em abril (os critérios foram afrouxados). Da primeira vez, só metade dos potenciais beneficiários se deu ao trabalho de pedir o dinheiro. O governo descarta congelar preços, como querem sindicatos e parte da esquerda. O litro do diesel chegou a € 2,41 (cerca de R$ 14) na média francesa nesta semana, recorde histórico. O barril do Brent, referência internacional, que valia US$ 75 no início de julho, voltou a passar dos US$ 100 em 8 de setembro, e o consumidor reagiu: entre os dias 11 e 20, os franceses compraram 30% menos combustível do que nos dez primeiros dias do mês, segundo o Le Monde. Com a eleição presidencial a sete meses e o déficit público a caminho de 5,4% do PIB, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu faz as contas com um fantasma na cabeça. O fantasma de 2018 Os coletes amarelos (gilets jaunes) nasceram em novembro de 2018 contra um aumento de imposto sobre os combustíveis. Bloquearam rotatórias e estradas por meses, levaram confrontos a Paris sábado após sábado e só perderam fôlego depois que o presidente Emmanuel Macron desistiu do imposto e liberou cerca de € 10 bilhões (R$ 58,8 bilhões) em medidas. Hoje, 88% dos franceses acham possível uma revolta parecida. Na sexta (18), Macron reuniu no Palácio do Eliseu os líderes partidários e os candidatos à Presidência para discutir a crise internacional e os preços dos combustíveis. Daí a lógica do governo: gastar algumas centenas de milhões agora sai mais barato que apagar um incêndio depois. Um continente a diesel Do outro lado do Reno, o diesel bateu recorde em 17 de setembro, a € 2,47 (R$ 14,52) o litro, e o preço chega no pior momento do chanceler alemão, Friedrich Merz, que acumula derrotas em eleições estaduais e enfrenta pressão crescente para renunciar. No Reino Unido, o diesel está a menos de 2 pence do recorde de 2022, e o primeiro-ministro, Andy Burnham, é pressionado a socorrer as famílias de baixa renda. Na União Europeia, esse combustível responde por mais de 40% do consumo de petróleo, o dobro da fatia americana. O frio chega com os estoques europeus de gás perto de 70% da capacidade; nos últimos cinco anos, nesta época, passavam dos 80%. O presidente americano, Donald Trump, culpa o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, pelos ataques às refinarias russas, que tiraram diesel do mercado. Recebido por Trump em Nova York na segunda (21), Macron propôs uma moratória nos bombardeios à infraestrutura de energia dos dois lados, e Zelenski acenou com gestos equivalentes caso a Rússia pare de atacar o setor energético ucraniano. No início desta semana, o Brent chegou a cair abaixo de US$100 (R$ 516,00) , com sinais de que o Irã poderia reabrir o estreito de Ormuz. O alívio durou pouco: depois de os Estados Unidos e o Irã endurecerem o tom na Assembleia Geral da ONU, o barril voltou a passar dos US$105 (R$ 541,80) nesta quinta-feira (24). Economistas descrevem o choque do petróleo como uma pancada dupla na inflação. A primeira é imediata e aparece no índice cheio, puxado pela bomba. A segunda leva meses: o combustível caro vai sendo repassado a fretes, alimentos e serviços até contaminar o núcleo da inflação, que exclui energia e alimentos e é o que os bancos centrais mais vigiam. Numa economia que se move a diesel, essa segunda onda tende a bater mais forte na Europa. O BCE (Banco Central Europeu) se antecipou em 10 de setembro, quando subiu os juros pela segunda vez no ano e levou a taxa de depósito a 2,5%, o que encarece também o crédito de quem já paga mais na bomba. Frase da semana O inverno está chegando. [...] Devemos nos preparar para gente mais insatisfeita. Talvez nas ruas Degrau a degrau Um degrau a cada crise. Foi assim que Stefano Scarpetta, economista-chefe da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), descreveu, em entrevista ao Financial Times, a escalada da dívida dos países ricos. E o custo de rolar essa dívida só sobe: os títulos de dez anos do G7 rendem em média 4%, algo que não se via desde 2008. Nesta quinta, com o petróleo de volta acima de US$105, a venda de títulos se espalhou. Os juros de dez anos dos Estados Unidos chegaram a 5,15%, o maior nível desde 2007, e os do Japão, a 3,08%, recorde desde 1996. Na fila das preocupações europeias, a França aparece na frente. Pagava 4,47% na terça para se financiar por dez anos, mais de um ponto acima da Alemanha, e caminha para uma dívida recorde de 121,7% do PIB em 2027. O socorro contra o combustível caro pesa ainda mais e o nervosismo nos mercados cresce. A porta de Bruxelas Dez anos depois do referendo do Brexit, é Londres quem bate à porta de Bruxelas. Na terça (22), em Nova York, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, pediu à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que o Reino Unido participe do Made in Europe, a política industrial que reserva subsídios e compras públicas a fabricantes do bloco. Fora dela, disse, a indústria britânica pode sofrer "dano colateral" de uma medida pensada contra a China. A aproximação ganhou ritmo desde que Burnham substituiu Keir Starmer, em julho. O país volta em janeiro ao Erasmus (programa europeu de intercâmbio de estudantes) e negocia a entrada no mercado europeu de eletricidade. Bruxelas cobra a fatura em vistos para jovens europeus e anuidades mais baratas para seus estudantes nas universidades britânicas. A cúpula que deve selar o pacote ficou para o fim do ano. No radar O que monitorar até a próxima quarta-feira (30) 27 de setembro — Cerca de 94 mil grandes eleitores, quase todos vereadores e delegados das câmaras municipais, renovam em votação indireta 178 das 348 cadeiras do Senado francês, e a Reunião Nacional, de extrema direita, tenta formar ali sua primeira bancada. 27 de setembro — A Suíça vota uma iniciativa que quer blindar a neutralidade na Constituição e vetar sanções não aprovadas pela ONU, como as impostas à Rússia. 29 de setembro — Andy Burnham faz seu primeiro discurso como líder no congresso do Partido Trabalhista, em Liverpool. 30 de setembro — O Insee (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos) divulga a prévia da inflação de setembro na França, que em agosto chegou a 2,4%, puxada pelos combustíveis. Fora da pauta "Canto do Cisne: Diana, Minha Irmã", de Charles Spencer (Objetiva, selo da Companhia das Letras). A um ano dos 30 anos da morte da princesa Diana num acidente de carro em Paris, o irmão caçula dela publicou nesta semana sua versão da história, e o Palácio de Buckingham reagiu de forma pouco usual. O trecho mais comentado narra uma discussão, em 1997, sobre se William e Harry, então com 15 e 12 anos, deveriam seguir o caixão da mãe. Segundo Spencer, o então príncipe Charles, hoje rei Charles 3º, encerrou a conversa dizendo que logo todos esqueceriam Diana. O palácio, que diz não comentar livros por princípio, respondeu que a dor do luto entre irmãos pode turvar o julgamento e a memória. Spencer mantém o relato, embora já tenha admitido um erro factual sobre o jornalista Piers Morgan, que ameaça processá-lo.

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