Alian�a entre classe m�dia e elite alimenta estagna��o brasileira, avalia Alexandre Rands

Alian�a entre classe m�dia e elite alimenta estagna��o brasileira, avalia Alexandre Rands

As explicações convencionais para o fraco desempenho da economia brasileira costumam se concentrar na burocracia excessiva, na insegurança jurídica, no cipoal tributário e no histórico fechamento comercial. No livro "O Grande Fracasso: O Porquê do Brasil Não Ter se Desenvolvido nos Últimos 75 anos", o economista Alexandre Rands Barros examina o impasse por outro ângulo em um dos países mais desiguais do mundo. Em vez de tratar esses entraves como causas primárias do atraso, o autor —PhD em economia pela Universidade de Illinois e ex-professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)— os interpreta como resultado direto da estrutura de classes do país e das disputas sociais das últimas décadas. A tese central sustenta que a estagnação econômica reflete a consolidação política de uma aliança entre a classe média e a alta. "A elite sempre fez concessões à classe média, que funciona como um colchão de proteção a seus privilégios, seja em regimes previdenciários vantajosos ao funcionalismo, seja em um Estado inchado para gerar empregos", diz Rands. "Mas entre os pobres há imensa heterogeneidade, impedindo que se organizassem politicamente." Em 2023, o PIB (Produto Interno Bruto) per capita brasileiro representava apenas 25,5% do norte-americano e cerca de um terço da média do G7, desenhando uma trajetória de profunda frustração histórica. Para Rands, a vitoriosa nos conflitos pós-1950 foi a classe média, que demonstrou enorme plasticidade política. Para preservar e ampliar privilégios, associou-se a regimes autoritários, democratas e outras forças conforme as conveniências de cada conjuntura, pautando o Estado em benefício próprio. Essa hegemonia traduziu-se na captura de recursos públicos por cargos de alta remuneração e estabilidade no funcionalismo, previdência subsidiada e acesso prioritário ao ensino superior gratuito. Em contrapartida, a aliança recusou-se a financiar a universalização de uma educação básica de qualidade para os trabalhadores pobres, desprovidos de representação política. A opção da classe média por custear o ensino privado dos filhos em vez de arcar com impostos para qualificar a força de trabalho marginalizada travou a acumulação de capital humano, reprimindo a produtividade e aprofundando o fosso em relação às nações desenvolvidas.Assim, os entraves tradicionais surgem como subprodutos dessa estrutura social. O inchaço estatal e a burocracia derivam da criação de postos e mercados cativos para burocratas e profissionais liberais no Estado. A complexidade tributária alimenta a renda de advogados e auditores necessários para navegar o contencioso jurídico. Do mesmo modo, subsídios e proteções setoriais concedidos às elites empresariais desestimularam a concorrência e a inovação tecnológica. Superar esse travamento exige alterar a correlação de forças na sociedade. O livro sustenta que reformas tecnocráticas não surtem efeito se mantiverem intacta a estrutura de incentivos das classes dominantes. Destravar o crescimento dependeria de uma nova aliança política focada na produtividade geral e na inclusão dos trabalhadores: concentrar recursos na educação fundamental pública, enxugar a máquina estatal, extinguir regimes previdenciários corporativos, reduzir emendas parlamentares e promover uma simplificação tributária capaz de expor o setor produtivo à competição.

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