Alfredo Jaar ganha mostras que iluminam o car�ter pol�tico das imagens

Alfredo Jaar ganha mostras que iluminam o car�ter pol�tico das imagens

É tanta luz que, por um momento, o que se vê são apenas sombras. Assim que o observador chega ao final da instalação "O Som do Silêncio", de Alfredo Jaar, o primeiro impulso é fechar os olhos para se proteger da claridade. A exemplo do sol, o célebre trabalho do artista chileno tem uma luminosidade tão sedutora quanto dolorosa. Essa obra ilumina agora a sala expositiva da Pinacoteca do Ceará, onde está em cartaz a mostra "Você e Eu e os Outros". Com curadoria de Moacir dos Anjos, o projeto traz instalações de grande porte produzidas por um dos principais nomes da arte mundial. Destaque da atual edição da Bienal de Veneza, a maior exposição de arte do mundo, Jaar se notabilizou por investigar o poder político das imagens e a força estética das luzes. O interesse pela luminosidade, aliás, é herança de sua formação como arquiteto. "Assim como o pintor usa a tela, a cor e o gesto, eu uso a luz, a escala e as proporções. A luz fala, expressa ideias e sentimentos", afirma ele, ao lado da obra "A Luz do Nosso Céu". Criada especialmente para a exposição, essa obra é formada por grandes painéis espelhados que refletem o sol de Fortaleza. A capital cearense é conhecida como terra da luz pela forte incidência solar. "Percebi que era algo especial, que não era uma luz comum", diz o artista. "Por isso, pensei em fazer uma homenagem." Jaar reflete também sobre como poderes políticos e econômicos podem impedir a circulação de imagens indesejadas. Foi o que aconteceu em 2001, quando os Estados Unidos compraram imagens de satélite para evitar a difusão de registros sobre seus ataques no território afegão. "Tratava-se da ideia de cegar o espectador, de não permitir que se visse nada daquele bombardeio." Essa notícia originou "O Lamento das Imagens", instalação formada por dois núcleos. Em uma sala escura, o público primeiro tem contato com três textos sobre o controle imagético. Um deles discute a decisão do governo americano de comprar imagens para suprimir registros da guerra no Afeganistão. Após ler esses materiais, o visitante entra em uma segunda sala, onde há um grande refletor em formato quadricular. A luz que esse aparelho emana é tamanha que o observador perde brevemente a visão. É uma metáfora para a cegueira provocada pela supressão de imagens e uma análise sobre o caráter paradoxal da luz. Ela, afinal, é uma força que ilumina, mas também ofusca. Essa névoa criada pela luminosidade está presente também em "O Som do Silêncio", uma das instalações mais pungentes da exposição. Reunidos em uma pequena sala, os visitantes são convidados a assistir a um vídeo com cerca de oito minutos. No lugar de imagens, são exibidos textos sobre a vida do fotógrafo Kevin Carter —ganhador do prêmio Pulitzer por uma fotografia que até hoje provoca controvérsia. No registro, vemos uma menina sudanesa raquítica ajoelhada no chão, enquanto um abutre parece esperar o melhor momento para atacá-la. Carter recebeu elogios por denunciar a fome que devastava o Sudão, mas também foi criticado por não ter feito nada para ajudar a criança. Pressionado por defensores e detratores, ele se suicidou dois meses após ganhar o Pulitzer. "Era tanta dor que é quase como se ele tivesse escolhido não ver mais." Para falar sobre Carter, o artista sabia que era inevitável exibir a foto controversa em algum momento. "Mas eu precisava encontrar uma maneira inteligente de mostrar a imagem sem violentar novamente essa pobre menina." Ele encontrou a solução ao conceber uma estrutura que dispara um flash sobre as pessoas. Com isso, Jaar tira o público da posição de observador para transformá-lo em objeto de observação. "Quando eu choco as pessoas na névoa do flash que as cega, é o momento em que a fotografia da menina aparece por um segundo." Jaar decidiu investigar a produção de imagens por considerá-las uma forma de transmitir visões políticas e ideológicas. "Não existe imagem inocente. Hoje, mais do que nunca, a fotografia é o último espaço de resistência que resta no mundo." Para ele, isso acontece porque a linguagem se tornou difusa e opaca diante do avanço do autoritarismo. "Cada um diz o que quer. É uma espécie de selva sem lei. E, nesse cenário, são as imagens que transmitem a verdade." Por outro lado, o artista costuma lançar um olhar crítico para as fotografias que circulam nos meios de comunicação. Foi isso o que ele fez ao reunir 2.128 capas da revista Life produzidas entre 1936 e 1996. O objetivo do artista era evidenciar a invisibilização da África nas páginas da publicação. Em seis décadas, apenas cinco capas retrataram países desse continente. Todas elas exibem animais ou paisagens. "Para aquela revista e, consequentemente, para seus leitores, a África não existia. Não havia músicos, não havia cientistas, não havia arquitetura, não havia intelectuais. Não havia nada." A imprensa ganha destaque ainda na exposição "O Lado Escuro da Lua", mostra também dedicada ao artista, em cartaz na galeria Luisa Strina, em São Paulo. O projeto traz obras concebidas entre 1970 e 1980, período em que Jaar radiografou a ditadura militar chilena. É o que vemos em um trabalho no qual o artista colocou lado a lado revistas que retratam o presidente deposto Salvador Allende e o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger. Sem usar palavras, ele evidencia o papel dos Estados Unidos no golpe que derrubou Allende. Esse trabalho foi feito em 1985, período em que o Chile ainda estava sob o jugo do regime militar. Por isso, a obra transmite mensagens por meio da sutileza. "Se existe algo mais terrível do que a censura, é a autocensura", diz o artista. "Nessa situação, a pessoa aprende a falar nas entrelinhas." Essa sutileza se faz presente também em calendários que repetem à exaustão o dia 11 de setembro. Nessa data, tropas leais ao general Augusto Pinochet bombardearam o Palácio de la Moneda, sede do governo chileno, para derrubar Allende, eleito quatro anos antes. O político, no entanto, preferiu o suicídio à rendição. "O 11 de setembro se transformou em um símbolo da catástrofe", afirma Jaar, acrescentando que desejava expressar isso por meio dos calendários. "Enquanto durasse a ditadura, todos os dias seriam o 11 de setembro. Foi minha maneira de expressar a sensação de que o tempo parou."

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