Alface, guerra e democracia pesam na elei��o dos EUA

Alface, guerra e democracia pesam na elei��o dos EUA

Certa vez, uma amiga comentou, resignada, o fato de termos cancelado nossos planos: "A sua rotina pode depender tanto da guerra no Oriente Médio quanto da diarreia de um bebê". Ela estava correta. Como redatora de telejornais, podia ser surpreendida pela intensificação de um conflito distante. Como mãe de um bebê recém-nascido, uma súbita dor de barriga podia impor um plantão doméstico. Nesta semana, a guerra no Irã continua a disputar manchetes com uma diarreia épica, que já afligiu cerca de 12 mil pessoas em pelo menos 41 estados americanos —ambos os acontecimentos podem afetar os planos do Partido Republicano para as eleições de novembro. A guerra, condenada por uma sólida maioria, continua imprevisível e depende de decisões do presidente. A ciclosporíase, que pode ter entrado na cadeia alimentar por alface contaminada, era previsível. O parasita foi excluído da lista de monitoramento regular do governo federal graças ao secretário de Saúde, Robert Kennedy Jr., e avançou sem detecção. O noticiário constante sobre a "diarreia explosiva", que requer tratamento com antibiótico, e o medo de adoecer por comida contaminada parecem ter se tornado uma metáfora da ansiedade do eleitor. Uma nova pesquisa da rede CNN revela que 73% dos adultos americanos acreditam que Donald Trump não presta atenção aos problemas importantes do país. Outros levantamentos confirmam que a prioridade dos eleitores é o custo de vida, agravado pela alta de combustíveis desde o início da ofensiva contra o Irã, em fevereiro. Competindo com os efeitos da inflação, da escassez de moradia e do acesso ao seguro-saúde está a angústia com a liberdade política. Uma pesquisa feita na segunda semana de julho mostra que "proteger a democracia" é a segunda prioridade do eleitor, atrás do preço dos alimentos. Com a aprovação do presidente agonizando em 34%, estariam os democratas exalando otimismo? Apenas 40% dos americanos veem o Partido Democrata de maneira favorável. A baixa aprovação não é recente e deve ser vista num contexto em que o sistema bipartidário americano foi virado ao avesso por Trump. Os republicanos moderados que não vivem hoje trancados no closet foram defenestrados pelo partido, cuja agenda política é basicamente demonstrar lealdade ao presidente. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Já o Partido Democrata continua a sofrer convulsões por abrigar um amplo espectro ideológico, que vai da centro-direita a social-democratas como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Um arquiteto da meteórica campanha de Mamdani argumenta que o idoso establishment democrata reage como avestruz ao desencanto do público com o governo como fonte de soluções. Não devemos esquecer que um democrata ocupou a Casa Branca por 12 dos últimos 17 anos. Vale notar as escolhas feitas pelo ainda imensamente popular Barack Obama. Em 2008, Obama se tornou o primeiro presidente negro apelando a todos os eleitores, traumatizados pelo crash financeiro daquele ano, para que tivessem esperança e esquecessem suas diferenças. Em 2012, um Obama visivelmente mais populista derrotou o moderado Mitt Romney com um discurso de classe, definindo o republicano como inimigo dos pobres e da classe média. Os dilemas que marcaram as duas campanhas de Obama apenas se agravaram na última década. Mas o partido que ele liderou por oito anos vive um conflito interno sobre como dizer ao eleitor exausto que sua vida pode melhorar. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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