Em 1996, Rosa Canelos subiu em um ônibus às 5h da manhã sem rumo. A equatoriana tinha 12 anos e fugia de seu povoado, deixando para trás oito irmãos da etnia quíchua e episódios de alcoolismo e violência. Foi parar na casa de uma família como doméstica. Ali aprendeu a limpar banheiro e passar roupa, tarefas nada comuns para quem morava em uma cabana sem paredes na floresta. Aos 18, conheceu seu marido, um francês apaixonado pela amazônia que a reconectou com suas origens. Juntos, fundaram a organização Sacha Warmi para apoiar povos indígenas na revitalização de seus sistemas tradicionais, especialmente nas áreas de educação e saúde. Desde 2012 eles mantêm um espaço na cidade de Puyo, a 220 km da capital Quito, com oficina de cerâmicas, laboratório de plantas medicinais, horta, lago para piscicultura, casa comunitária e mirante para a floresta. Em entrevista à Folha, durante uma das atividades do TEDxAmazônia nesta semana, Rosa Canelos relembrou sua fuga, há 30 anos, denunciou o alcoolismo desenfreado e contou como se reconectou com os quíchua. "Antigamente, quando ainda não havia civilização, o homem tinha tarefas como caçar, pescar, ajudar na roça, tecer e cuidar. Mas, pouco a pouco, a colonização foi chegando. Agora os homens trabalham fora. Pescam para vender, não para se alimentar. Às vezes, não tem trabalho, não tem dinheiro, então tem frustração. É aí que entra o alcoolismo. Desde que me lembro, já havia muito alcoolismo no meu território. Os homens bebem e batem nas mulheres. Mas às vezes fazem isso mesmo quando não estão bêbados. É uma ideia de que o homem tem poder e que a mulher precisa obedecer, servir, cuidar da casa e das crianças. Lembro de trabalhar com fibra, urucum e cacau. Meu pai viajava e levava nossas peças para vender. Ficávamos cheios de esperança de que voltasse com pãezinhos, roupas, cadernos. Ele chegava sem nada. Bêbado. E então aconteceu uma coisa difícil, algo que não deveria ter acontecido e que eu prefiro não dizer. Mas foi como se alguma coisa dentro de mim tivesse travado. Fiquei paralisada, queria simplesmente desaparecer. Aos 12 anos, peguei minhas coisas e fui embora. Fugi do meu povoado, como muitas mulheres amazônicas, por causa do alcoolismo, do machismo, de coisas que colocam na nossa cabeça. Depois entendi que esse tipo de violência existe no mundo inteiro, não só na amazônia, e que muitos dos que cometem essa violência também sofreram com ela. Saí caminhando às 5h da manhã, desesperada, entrei em um ônibus e me sentei no fundo. Havia uma moça que tinha saído de lá muitos anos antes. Acho que ela percebeu, me perguntou onde eu ia e me levou para a casa de uma família, onde me tornei doméstica. Foi muito difícil, eu não falava espanhol direito. Não sabia limpar casa porque vivíamos em uma cabana sem paredes. Tive que aprender à força a limpar banheiro, cozinhar, passar roupa porque, senão, não sobreviveria lá fora. Trabalhei na cidade de Ambato e depois fui para Guayaquil, Cuenca e Quito. Jovens pensam que a vida na cidade é bonita e fácil. Eu digo que não tem liberdade. Tem trabalho, exploração, discriminação. E então, aos 18 anos, conheci meu marido, um francês que na época tinha 45. Alguma coisa nele me atraía, talvez porque me faltasse algo paterno. Encontrei nele segurança, escuta e proteção. Didier Lacaze tinha saído de seu país aos 17 anos e vivido em países como Estados Unidos, Índia e Peru. Apaixonou-se pela amazônia e ajudou em programas de saúde com povos indígenas. Viemos morar perto de meu povoado em Puyo. Não gostamos muito da cidade, mas também não queremos morar dentro da comunidade e nos integrar, porque há festas, aniversários, casamentos e qualquer outro pretexto para beber. Aos 19 anos, tive meu primeiro filho. Era estranho porque eu ainda precisava que cuidassem de mim, queria ser a adolescente que não fui. Depois, tive uma filha, que hoje está em Paris tratando uma doença rara graças ao governo de lá. E então comecei a passar mais tempo com minha mãe, que cuidava da roça. Uma família indígena precisa ter três roças: uma sendo cultivada, uma fornecendo alimentos e outra onde ficam as árvores frutíferas e plantas medicinais. Mas as mulheres já não plantam tanto. Só têm mandioca, banana-da-terra, e o restante vem da cidade. Perdemos nossa soberania alimentar e há desnutrição entre as crianças. Passei a plantar e convidá-las para conhecer minha roça, aqui na fundação. Deu certo. Elas vêm buscar sementes. Se não houver carne nem peixe, pelo menos há pimenta, tomate e frutas. Você cozinha e come com mandioca e banana-da-terra. Eu me considero uma guardiã das sementes. E é assim, durante nossos encontros, que incentivo outras mulheres. Elas pensam que, se não estudarem, seu conhecimento não vale nada. São invisibilizadas. Então aqui, entre plantas e cerâmicas, conversamos, resgatamos nossa cultura e nos valorizamos." A repórter viajou ao Equador a convite do TEDxAmazônia.
Alcoolismo e viol�ncia afastam mulheres, diz ind�gena que fugiu de territ�rio no Equador
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