Ajudar seus pais � uma decis�o sua ou do casal?

Ajudar seus pais � uma decis�o sua ou do casal?

Imagine que, todos os meses, R$ 5.000 desapareçam do orçamento de um casal. Não é prestação de imóvel, escola dos filhos nem investimento para aposentadoria. O dinheiro ajuda a pagar as despesas dos pais de um deles. A razão pode ser mais do que legítima, mas surge uma pergunta desconfortável: essa é uma despesa de quem é filho ou do casal? A questão tende a ganhar importância conforme nossos pais envelhecem. Plano de saúde, medicamentos, cuidadores e despesas do dia a dia podem transformar uma ajuda ocasional em um compromisso permanente. Há ainda irmãos que precisam de auxílio ou outros familiares que dependem financeiramente de alguém. O problema não é ajudar. Em algumas situações, auxiliar não será sequer uma escolha, mas uma responsabilidade que a família naturalmente decidirá assumir. O planejamento financeiro não existe para questionar essa decisão, existe para entender como incorporá-la sem ignorar seus efeitos sobre as demais responsabilidades do casal. Considere um casal com renda líquida mensal de R$ 30 mil que consegue poupar R$ 8.000. Se um deles passa a destinar R$ 5.000 por mês aos pais, quase dois terços da capacidade de poupança da família desaparecem. E R$ 5.000 por mês parecem muito diferentes quando olhamos para o longo prazo. Mantido esse valor por 15 anos, serão R$ 900 mil transferidos, mesmo sem considerar inflação ou o rendimento que esse dinheiro poderia produzir. Uma ajuda pode ser individual na origem, mas coletiva nas consequências. Também é importante distinguir a natureza dessa ajuda. É diferente contribuir para melhorar o padrão de vida de pais financeiramente independentes e precisar pagar medicamentos, um cuidador ou um plano de saúde que eles já não conseguem custear. Financeiramente, as duas situações afetam o orçamento, mas o espaço para escolher quanto ajudar é muito diferente. Isso não significa que cada transferência para os pais precise da autorização do outro. Autonomia financeira continua sendo importante no casamento. Se cada um possui uma parcela do orçamento sobre a qual pode decidir livremente, ajudar um irmão, um filho de outro relacionamento ou os próprios pais pode fazer parte dessas escolhas. A situação muda quando a ajuda ultrapassa esse espaço individual. Se para pagar o plano de saúde dos pais é necessário reduzir a poupança para aposentadoria, adiar a compra do imóvel ou usar recursos destinados aos filhos, há um objetivo familiar sendo trocado por outro. Essa diferença fica mais clara quando invertemos os papéis. Se você considera natural utilizar R$ 5.000 do orçamento familiar todos os meses para ajudar seus pais, teria a mesma opinião se os R$ 5.000 fossem destinados aos pais do seu cônjuge? Não existe uma resposta universal. As famílias têm histórias, necessidades e capacidades financeiras diferentes. Mas é justamente por isso que esse tipo de compromisso deveria ser planejado. Planejar a ajuda não é o contrário de ajudar. É uma forma de torná-la sustentável. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha O primeiro passo é entender se estamos diante de uma emergência ou de uma despesa estrutural. Pagar uma cirurgia inesperada é diferente de assumir um plano de saúde que provavelmente continuará pelos próximos 15 anos. A segunda situação precisa entrar no planejamento como qualquer outra obrigação de longo prazo. Depois, é preciso definir de onde sairá o dinheiro. Se vier da parcela individual de um dos dois, o impacto sobre os objetivos comuns pode ser pequeno. Se vier do orçamento familiar, ambos precisam entender qual objetivo será afetado. Dinheiro não possui duas funções ao mesmo tempo. Os R$ 5.000 destinados aos pais não estarão disponíveis para aposentadoria, filhos ou qualquer outra meta. Por fim, é importante entender os limites financeiros dessa ajuda. Quanto conseguimos destinar a ela de forma sustentável? Por quanto tempo? O que acontece se a necessidade aumentar? E como preservar, na medida do possível, os demais compromissos da família? Pode parecer frio fazer essas contas diante da necessidade de alguém que amamos. Mas ignorá-las não aumenta nossa capacidade de ajudar. Ao contrário, uma ajuda que comprometa excessivamente as finanças de quem ajuda pode apenas transferir o problema de uma geração para outra. Ou seja, você pode estar simplesmente transferindo um problema para seu filho, pois ele pode ter de o ajudar, caso você não tenha recursos no futuro. Curiosamente, um casal pode discutir durante semanas quanto gastar na troca do carro e assumir quase sem discussão uma ajuda familiar que permanecerá por anos. Despesas recorrentes parecem menores justamente porque chegam aos poucos, mas podem representar algumas das maiores decisões financeiras da vida. Talvez a pergunta mais difícil, portanto, não seja se devemos ajudar nossos pais. Em muitos momentos da vida, vamos querer ou precisar fazer isso. A questão é como encaixar essa responsabilidade entre todas as outras que assumimos ao formar nossa própria família. Casar não significa necessariamente assumir todas as despesas da família do outro. Mas, quando o dinheiro para pagá-las sai dos planos construídos pelos dois, a decisão já não pertence apenas a um. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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