O representante comercial Mário Sérgio Caetano, 61, mora com a esposa e os dois filhos adultos na zona sul de São Paulo. Com 22 e 25 anos, eles têm a maioria de suas despesas pagas pelo pai. "É muito esporádico eles pagarem alguma coisa, como o canal de televisão. Mas a despesa do dia a dia, condomínio, água, luz, tudo eu que pago", diz. Durante o período da faculdade dos dois, encerrado no fim do ano passado, Mário Sérgio destinava de 15% a 20% da renda às mensalidades, e ainda separava uma parcela dos ganhos para a própria aposentadoria, hábito que mantém até hoje. O caso ilustra o desafio de famílias que precisam equilibrar a ajuda financeira aos filhos com o planejamento de longo prazo. A dificuldade de acesso à moradia própria é um dos fatores que ajudam a explicar essa permanência mais longa. Segundo pesquisa da Ipsos-Ipec encomendada pelo Grupo QuintoAndar, 47% dos integrantes da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) dizem não ter dinheiro para dar entrada ou financiar um imóvel. Luiz Guilherme Hartmann, planejador financeiro CFP pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro), afirma que o apoio financeiro aos filhos adultos pode ser incorporado ao orçamento dos pais sem comprometer o planejamento da aposentadoria, desde que tenha limites e prazo definidos. "Quando a ajuda tem um objetivo definido, cabe na renda e é acompanhada por um plano de transição, ela pode contribuir para a autonomia do jovem sem comprometer a segurança financeira dos pais", afirma. Carol Stange, consultora em finanças pessoais, afirma que o aumento dos aluguéis, o prolongamento dos estudos e as mudanças no mercado de trabalho ajudam a explicar por que os jovens permanecem mais tempo na casa dos pais ou continuam recebendo ajuda financeira. Para os pais, isso significa que o planejamento da aposentadoria precisa considerar um período de dependência financeira dos filhos potencialmente mais longo do que o observado em gerações anteriores. "O planejamento financeiro que ignora esse dado está planejando para um Brasil que não existe mais", afirma Stange. Isso não significa, porém, que a ajuda aos filhos deva vir antes da formação da reserva para o futuro dos pais. "A contribuição para a própria aposentadoria precisa entrar na rotina como um compromisso fixo, tipo um financiamento em que a parcela é para si próprio, e não como uma opção que se cumpre quando dá", diz. Por isso, antes de definir quanto poderá destinar ao filho, os pais devem estabelecer quanto precisam garantir para o próprio futuro. O impacto de adiar esse planejamento pode ser relevante. Segundo Stange, deixar de investir R$ 500 por mês durante dez anos, considerando um retorno real de 10% ao ano, significa abrir mão de cerca de R$ 100 mil ao final do período. O valor considera não apenas os aportes que deixaram de ser feitos, mas também os juros compostos que deixaram de incidir sobre esse dinheiro. ATÉ QUANDO OS PAIS DEVEM AJUDAR FINANCEIRAMENTE OS FILHOS? Hartmann diz que não existe uma idade padrão para o encerramento do suporte financeiro. Segundo o especialista, a decisão depende da capacidade dos pais, das necessidades essenciais do filho e da existência de um caminho para a autonomia. "Uma alternativa consiste em manter temporariamente despesas básicas, como moradia e alimentação, enquanto gastos relacionados ao padrão de consumo passam gradualmente para a responsabilidade do jovem adulto", afirma Hartmann. O especialista recomenda acompanhar cinco aspectos da vida financeira da família, que funcionam como referências para avaliar quanto apoio cabe no orçamento: Manutenção dos aportes para a aposentadoria; Preservação da data planejada para a saída do mercado de trabalho; Reserva de emergência disponível para imprevistos; Evolução do patrimônio conforme os objetivos estabelecidos; Concessão do auxílio sem necessidade de assumir novas dívidas. Se algum desses indicadores se afastar da meta, Hartmann diz que é o momento de revisar as despesas e definir um valor de auxílio compatível com a realidade da família. Segundo ele, preservar a própria segurança financeira também amplia a capacidade de continuar apoiando os filhos ao longo do tempo. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. COMO EVITAR CONFLITOS NA HORA DE REDUZIR A AJUDA? Stange diz que o conflito costuma surgir quando a mudança no apoio financeiro acontece de forma inesperada. "Um filho que recebe R$ 2.000 por mês e, do nada, passa a receber R$ 1.000 interpreta isso como punição ou sinal de que algo deu errado com os pais. O mesmo corte, anunciado com seis meses de antecedência e associado a um cronograma claro, é recebido como informação e dá tempo de o filho reorganizar a própria vida antes que o dinheiro falte", afirma a especialista. Segundo ela, um dos sinais de alerta que os pais devem acompanhar é a falta de planejamento financeiro por parte do filho, como a ausência de uma reserva de emergência, de controle dos gastos ou de uma meta de independência definida. O exercício de conversar sobre dinheiro e estimular os filhos a construírem a própria autonomia é algo que Mário Caetano procura fazer em casa. Ele conta que costuma orientá-los a guardar dinheiro para realizar os próprios desejos. "A ideia é ensinar a pescar, não pescar para eles. Que eles aprendam a trazer para eles o alimento deles", diz. COMO ORGANIZAR O PATRIMÔNIO PARA A APOSENTADORIA? Não existe um percentual universal da renda que deva ser destinado à aposentadoria, afirma o planejador financeiro Bruno Guimarães. O ideal para o planejamento é começar pela renda que se pretende ter no futuro e, a partir daí, calcular o patrimônio necessário e os aportes para chegar a esse objetivo. Considerando uma retirada anual de 4% sobre o patrimônio acumulado, alguém que pretenda complementar a aposentadoria com R$ 5.000 por mês, por exemplo, precisaria de aproximadamente R$ 1,5 milhão. Com uma rentabilidade real de 4% ao ano, esse patrimônio exigiria investimentos mensais de cerca de R$ 2.190 em 30 anos, R$ 2.950 em 25 anos e R$ 4.120 em 20 anos. Antes de investir para o longo prazo, porém, Guimarães recomenda organizar as finanças da família e constituir uma reserva. A partir daí, o investidor pode definir quanto direcionar à aposentadoria e distribuir os aportes de acordo com seus objetivos. QUE ATIVOS PRIORIZAR PARA A APOSENTADORIA? Guimarães afirma que a escolha dos ativos para a aposentadoria depende de dois fatores. O primeiro é o perfil de risco do investidor, que delimita a tolerância a oscilações de cada pessoa. Uma carteira que exceda esse limite pode levar o investidor a abandonar o plano diante de uma queda relevante, comprometendo os resultados no longo prazo. O segundo é a distância até o objetivo. Recursos que serão utilizados daqui a 30 anos podem ter maior exposição a risco do que aqueles que serão resgatados em três anos. À medida que a aposentadoria se aproxima, a carteira pode ser ajustada para reduzir a exposição a ativos mais voláteis. O especialista acrescenta que o perfil de risco também pode mudar com alterações na renda, na composição familiar e no patrimônio, o que torna a reavaliação periódica importante.
Ajuda financeira aos filhos adultos muda planos de aposentadoria dos pais; veja como planejar
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