Ainda h� tempo para o Brasil?

Ainda h� tempo para o Brasil?

Em 2017, embaraçado, descrevi nesta Folha a desconexão que enxergava entre as proclamações oficiais anunciando que a felicidade e a prosperidade haviam se espraiado pela nação e a banalização da vida de milhões de brasileiros, encurralados e sem chance de desfrutar dos encantos que envolvem a existência humana. O título do artigo: "Brasil, o ocaso de uma nação". Para compreender essa dissonância e apoiado nas ideias de Daron Acemoglu e James Robinson, aprendi que o progresso de um país depende menos de planos econômicos lustrosos e mais da preservação de instituições robustas, conduzidas por autoridades comprometidas com as aspirações dos seus cidadãos, capazes de favorecer o bem-estar coletivo. Em contraposição, nações regidas por instituições e governantes pervertidos correm o risco de submergir de forma irremediável. Nelas proliferam grupos que, na sua voracidade, concentram a renda e estabelecem relações promíscuas para alimentar a ganância. Disseminam-se a amoralidade, a corrupção e a desagregação social —e, ao final, as nações derretem; os desvalidos arrastados na frente. Tragédia anunciada por Aristóteles há mais de 2.300 anos: "O homem, quando aperfeiçoado pela virtude, é o melhor dos animais; mas, quando separado da lei e da justiça, é o pior de todos". Decorridos nove anos, a agonia não se atenuou. Nesse período, políticas e comportamentos nefastos dilaceraram a nossa sociedade e esgarçaram a confiança coletiva nas instituições. Talvez por isso o Brasil, anunciado hoje como a décima economia do mundo, ocupe apenas o 84º lugar do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, que reflete a qualidade de vida do seu povo. Disparidade indecente para os afeitos a valorizar mais a dimensão humana do que a frieza dos números. Decorridos nove anos, fica claro que para consertar o esfrangalho atual, o país necessita de governantes dotados de valores inegociáveis: 1 - integridade pessoal, como exemplo moral para a sociedade; 2 - competência administrativa impregnada pelo dever cívico; 3 - respeito ao regime democrático; 4 - luta incessante contra a desigualdade, começando com programas essenciais que promovem a ascensão social; 5 - capacidade de pacificar a sociedade, lembrando que o bom governante não é quem procura vingar-se da metade do país, mas aquele que consegue devolver o futuro à outra metade que perdeu a esperança; e 6 - coragem para enfrentar interesses indevidos, que aviltam o futuro coletivo. Em suma, é preciso um estadista, que a cada decisão faça antes uma pergunta singela: "Isso aumentará ou diminuirá as oportunidades da criança que nasceu ontem na família mais pobre do país?". Indago agora se a próxima eleição nacional poderá representar um momento maior, o resgate da prosperidade do Brasil. Certamente não, se nada mudar. As correntes políticas representadas pelos dois candidatos que lideram as pesquisas ocuparam a Presidência por mais de duas décadas, tiveram a chance de produzir a prosperidade e falharam. Ademais, carregando elevados índices de rejeição, dificilmente conseguirão unir o país diante do futuro econômico tempestuoso que se prenuncia para a nação. Para complicar, ambos os grupos têm dado exemplos contundentes de afronta à verdade, à legalidade e, sobretudo, à existência humana, como revelaram os episódios ligados à pandemia e ao escândalo do INSS. Ninguém ignora que em nosso país existem cidadãos que conseguem viver com alegria e decência. Contudo, sou tomado por imensa aflição ao imaginar o que acontecerá com outro Brasil, no qual mais de 48 milhões ainda vivem abaixo da linha de pobreza, se a nação não puder evitar o desastre iminente. Recomposto, percebo que na noite de breu que atinge o Brasil ainda reluzem algumas estrelas —e uma delas bem perto de nós. Onde fica? Logo ali, no centro do Brasil. Ronaldo Caiado, uma figura impoluta, admirada pelos cidadãos do seu pedaço —em 2026, a melhor avaliação popular entre todos os governadores e ex-governadores do Brasil (Genial/Quaest). Ademais, com história humanística robusta, o doutor que aliviava a dor dos corpos quebrados. Parafraseando Chico Buarque em "Sonho Impossível", colocando os nossos destinos em suas mãos, acho que vai ter fim a infinita aflição. E a nação vai ver uma flor brotar de cada impossível chão. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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