Às 2h, holofotes iluminam as máquinas que percorrem a fazenda da família de Eleanor Gilbert, em Berkshire, na Inglaterra. Aos 24 anos, ela faz a colheita no escuro para aproveitar o leve orvalho que se deposita sobre a colza— planta da família do repolho e da mostarda— durante a noite é a única forma de elevar o teor de umidade o suficiente para que os compradores a aceitem. Por volta das 10h, ela passa a colher trigo e continua ao longo do dia. Depois de duas ou três horas de sono, a agricultora da sexta geração volta ao campo e recomeça. "É quase como estar com jet lag", disse Gilbert. "Você não consegue dormir no meio do dia — simplesmente não é normal."As ondas de calor estão obrigando agricultores de toda a Europa a mudar como e quando trabalham, seja fazendo a colheita à noite, cobrindo plantações com telas de sombreamento, resfriando galpões de gado ou abandonando calendários de plantio aperfeiçoados ao longo de décadas. Os danos já aparecem nas previsões para as safras. O Ministério da Agricultura da França informou na sexta-feira que a produção de milho em grão deve cair 35% em relação ao ano passado, para 9 milhões de toneladas, o menor nível desde pelo menos 1980, devido ao impacto do calor e das secas durante o período de cultivo. Os produtores de hortaliças não estão em situação melhor. Nos arredores de Madri, produtores de batata fazem a colheita depois que o sol se põe, pois retirar os tubérculos do solo quente pode prejudicar sua qualidade. Já na Córsega, criadores de porcos alimentam os animais após o anoitecer, quando as temperaturas mais amenas aumentam sua disposição para comer. O veterano Pietro Cifarelli, que cultiva grãos e leguminosas perto de Altamura, na região da Puglia, sul da Itália, é outro agricultor que começou a trabalhar sob as estrelas. "Das 11h até as 18h ou 19h, não dá para fazer nada", disse Cifarelli, de 60 anos. "Se você encostar em uma peça de metal, literalmente queima as mãos."Segundo ele, seus grãos-de-bico pretos e lisos precisam ser colhidos depois de esfriarem durante a noite: de dia, as vagens ficam tão secas e quebradiças que as sementes se espalham assim que as plantas são tocadas. Em Berkshire, o excesso de umidade costumava ser um problema para a família de Gilbert, que normalmente esperava o orvalho da manhã evaporar antes de colher a colza. Neste ano, porém, a safra estava tão seca durante o dia que o teor de umidade nem sequer era detectado pelo medidor. Os compradores podem rejeitar cargas com umidade inferior a 6%, observa ela, e colher às 2h permite que o orvalho noturno eleve esse índice para cerca de 7%. A colheita noturna também reduz o risco de as máquinas incendiarem os campos ressecados, que pegam fogo como palha. Agora, sua família leva caminhões-pipa para as plantações e mantém um cultivador por perto para criar um aceiro— faixa de terra limpa feita ao redor de propriedades rurais. Durante um incêndio recente, as chamas avançaram pela palhada em questão de segundos, deixando-os a poucos metros do fogo enquanto tentavam salvar a plantação antes da chegada dos bombeiros. Gilbert estima que a seca tenha reduzido a produtividade da fazenda da família para aproximadamente metade do nível do ano anterior, elevando o custo de produção de uma tonelada de grãos de cerca de 150 libras (R$ 1.045), em um ano bom, para quase 200 libras (R$ 1.400). A família avalia se ainda é possível justificar a propriedade de uma colheitadeira avaliada em cerca de 500 mil libras (R$ 3,5 milhões) ou se seria melhor compartilhar máquinas com um vizinho.Mais ao sul, em Devon, as equipes de colheita da empresa de hortaliças orgânicas Riverford agora começam a trabalhar às 5h e procuram terminar até 13h ou 14h, disse o fundador, Guy Singh-Watson. Os motoristas saem cedo para entregar caixas de hortaliças a partir das 6h e levam bolsas de gelo adicionais para manter os produtos frescos. "Nós meio que sabíamos que isso estava por vir, mas sempre achamos que seria um problema com o qual nossos filhos provavelmente teriam de lidar", disse ele. "Aconteceu muito, muito mais rápido." Mudanças semelhantes vêm ocorrendo há vários anos em partes da Ásia. Dan Fairweather, chefe da área de sistemas alimentares e natureza da corretora de seguros Howden, disse que um investidor do setor agrícola financiou projetos que forneciam equipamentos de cabeça com iluminação para que os agricultores pudessem trabalhar à noite. Mas noites cada vez mais quentes agora reduzem o alívio tanto para as plantações quanto para os trabalhadores. Os agricultores também estão sendo obrigados a inovar de outras formas. Em Lazio, na Itália, Francesco Bracci luta para manter suas vacas frescas e sustentar a produção de leite. O gado produz naturalmente menos leite durante períodos quentes, disse ele, mas a queda neste ano foi maior do que o habitual, já que os animais sofreram com as oscilações de temperatura. A produção caiu até 20% em algumas fazendas, segundo a Coldiretti, o maior sindicato de agricultores da Itália. "No ano passado, instalei um sistema de ventilação, mas, com as temperaturas agora tão elevadas, os ventiladores já não são suficientes", disse Bracci. "Por isso, precisamos acrescentar alguma coisa para reforçá-los. Acabei de comprar um sistema de nebulização de água... A água reduz a temperatura dentro do galpão do gado." Na França, agricultores enfrentaram dificuldades para proteger os animais mesmo depois de adotar medidas semelhantes. Temperaturas superiores a 40 °C na Nouvelle-Aquitaine, no fim de junho, provocaram mortes em massa em granjas de suínos e aves, apesar do reforço da ventilação e da nebulização e das mudanças nas práticas de alimentação, segundo a autoridade agrícola regional. "Estamos nos adaptando continuamente porque nossa principal preocupação é o bem-estar animal", disse Bracci. "Ano após ano, tentamos adaptar os galpões do gado às mudanças climáticas para que os animais permaneçam bem. Mas adaptar os galpões significa arcar com custos muito elevados por causa das mudanças climáticas." Esses custos vão além dos galpões. A forragem de que Bracci precisa para alimentar o gado agora exige irrigação a cada cinco dias, em vez de a cada dez. A água é bombeada dos rios com motores movidos a diesel, e o preço pago por ele pelo diesel agrícola subiu de 0,90 libras (R$ 6,30) para 1,45 libras (R$ 10,15) por litro. A Itália enfrenta o que a associação de agricultores Coldiretti chamou de "emergência climática em duas velocidades", com fortes tempestades de granizo no norte e incêndios florestais e calor extremo no sul. Estimativas preliminares indicaram que as perdas agrícolas decorrentes dos eventos mais recentes chegam a centenas de milhões de euros, afirmou a entidade. O custo mais amplo já é substancial. A corretora de seguros Howden realizou uma pesquisa para o Banco Europeu de Investimento que estimou que eventos relacionados ao clima causam cerca de 28 bilhões de libras (R$ 196 bilhões) em perdas agrícolas por ano em toda a União Europeia, a maior parte sem cobertura de seguro. Fairweather disse que as perdas médias anuais podem subir para cerca de 40 bilhões de libras (R$ 280 bilhões) até 2050. O calor também afeta a qualidade: grãos com teor reduzido de proteína podem ter de ser vendidos em mercados que pagam menos. "Você não apenas tem uma quantidade menor", acrescentou. "A qualidade também é muito inferior." No Reino Unido, a União Nacional dos Agricultores defende o desenvolvimento de variedades agrícolas mais resistentes e o planejamento do armazenamento de água durante as secas.Na Riverford, Singh-Watson passou quatro décadas registrando datas de plantio e colheita e elaborando modelos destinados a prever quando as hortaliças estariam prontas para os clientes. As oscilações de temperatura e de precipitação tornam esses cálculos cada vez mais inúteis. "Todas essas informações, você poderia simplesmente rasgar e jogar fora", disse ele. "Elas simplesmente não têm valor algum."
Agricultores passam a trabalhar � noite para driblar o calor europeu
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