Agress�o a estudante p�e na berlinda a reapropria��o de �cones nazistas na m�sica

Agress�o a estudante p�e na berlinda a reapropria��o de �cones nazistas na m�sica

Banda britânica de pós-punk dos anos 1980, o Death in June usa como logotipo uma caveira com ossos cruzados que faz referência à insígnia aplicada aos quepes de oficiais nazistas. O símbolo teria sido um motivador do espancamento sofrido, em agosto, por um estudante de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que foi à aula vestindo uma camiseta do grupo junto a um broche, na lapela da jaqueta de couro, de uma suástica riscada por uma listra vermelha, num sinal de proibido. Além da violência, o episódio chama a atenção para a forma como artistas recuperaram a iconografia do Terceiro Reich ao longo dos anos, um regime que matou cerca de 6 milhões de pessoas, sendo a enorme maioria judeus. Capas de discos, letras de músicas, integrantes de bandas trajados de nazistas ou com coleções pessoais de objetos da Segunda Guerra mostram como o nazismo é um ímã para músicos mais ou menos populares. Apelar ao regime de Adolf Hitler como marketing artístico sempre foi questionável e, agora, ganha peso maior com a aproximação da ultradireita ao poder, como no avanço recente da AfD, a Alternativa para a Alemanha, sigla nacionalista e anti-imigração vencedora das eleições na região de Saxônia-Anhalt. Na música, um exemplo recente é o do rapper Ye, o Kanye West, que fez uma série de declarações antissemitas nos últimos anos e teve sua música "Heil Hitler" removida do streaming no ano passado. Apesar de ter pedido desculpas, foi ameaçado de prisão caso fizesse apologia do nazismo num show no Brasil, cancelado após conflitos com a Prefeitura de São Paulo. Também vetado na Itália, o artista segue tocando para milhares de fãs nos Estados Unidos e na Holanda. "Não devemos desculpar nenhum comportamento de astros do rock que confira legitimidade às ideias do Terceiro Reich. O rock’n’roll não tem licença para agir impunemente, embora tanto os artistas quanto os fãs se comportem como se tivesse", afirma o jornalista Daniel Rachel, autor do livro "This Ain't Rock 'n' Roll: Pop Music, the Swastika and the Third Reich", publicado ano passado e sem edição em português. Na obra, o britânico reúne acenos de músicos ao nazismo. O nome do grupo Joy Division, contemporâneo do Death in June, foi tirado do romance "House of Dolls", de 1955, e designava um setor nos campos de concentração onde oficiais violentavam sexualmente as presas. A banda do hit "Love Will Tear Us Apart" também estampou a capa de seu primeiro disco, o EP "An Ideal for Living", com o desenho de um garoto batendo tambor, semelhante à ilustração de um pôster da Juventude Hitlerista, organização que doutrinava jovens. "Nós não somos nazistas. Somos de Salford [cidade na Inglaterra]. Não passávamos de um bando de rapazes que eram um pouco obcecados pela guerra", afirmou depois o baixista Peter Hook, numa biografia do grupo. Antes do Joy Division, Sid Vicious, o baixista dos ícones punk Sex Pistols, morto em 1979, usava camisetas com suásticas estampadas. Ainda antes, Brian Jones, dos Rolling Stones, posou de oficial nazista para um ensaio de fotos em Munique, na Alemanha. Não há registro de que Vicious tenha se explicado. Já o guitarrista dos Rolling Stones disse, como registrado no livro "Rolling Stones in Their Own Words", de 1983: "Sério, com todo esse cabelo comprido em um uniforme nazista, as pessoas não podiam ver que era uma coisa sarcástica? Não sou simpatizante dos nazistas." Para Rachel, o "flerte com o nazismo é indesculpável", independentemente da época em que foi feito. Criado em uma família judaica progressista em Birmingham, na Inglaterra, o jornalista relaciona sua origem ao interesse pelo Holocausto e ao incômodo que sentia ao ouvir "Belsen Was a Gas", dos Sex Pistols, sobre o campo de concentração de Bergen-Belsen. O título da faixa tem um trocadilho. "Gas" denota tanto as câmaras de gás usadas para matar judeus —embora Bergen-Belsen não tivesse uma—, quanto uma gíria britânica para algo divertido, empolgante, de modo que "Belsen foi uma farra" é uma leitura possível do nome da música. No caso do Death in June, de modo geral, a banda —que esteve ativa entre os anos 1980 e os primeiros anos da década de 2020—, é considerada de direita nos círculos de música, porque sobram referências ao regime de Hitler em sua obra. Por outro lado, o grupo também usa a ambiguidade como parte de sua arte. Por exemplo, o logo de caveira —o "totenkopf"— era também vendido em adesivos e patches de jaqueta estampados sobre uma bandeira do arco-íris, o ícone da comunidade LGBTQIA+. A caveira também apareceu com a boca pintada de vermelho dentro do círculo de estrelas da bandeira da União Europeia. O nome do grupo, uma possível referência à Noite das Facas Longas, expurgo promovido por Hitler no final de junho de 1934 contra adversários políticos, teve outra explicação dada pelos integrantes. Segundo o vocalista Douglas Pearce, "Death in June" teria vindo de um mal entendido: durante uma gravação nos primórdios do grupo, o baterista Patrick Leagas teria gritado alguma coisa e, por causa do barulho do estúdio, Pearce ouviu "Death in June". Seja como for, a banda levava sua sonoridade folk atmosférica para o palco vestindo uniformes militares e usou no disco "Brown Book", de 1988, um sample do hino nazista "Horst Wessel Lied", canção de propaganda do regime banida da Alemanha depois da Segunda Guerra. O disco teve sua circulação severamente restringida na Alemanha em 2006, ao ser incluído na lista de obras prejudiciais a menores e potencialmente ilícitas. Defensores da banda costumam apontar para o fato de o vocalista ser gay, ter feito parte de um grupo punk de esquerda e antifascista antes de formar o Death in June, e ter se apresentado em Israel com o Death in June, país onde seus discos também são comercializados. "Acho irônico ser tão bem recebido em Israel, mas ser visto com suspeita pelas autoridades alemãs. Mas suponho que isso combine bem com a natureza contraditória do Death in June", disse o vocalista numa entrevista. "Sou músico e não me envolvo em política, e me recuso a ser forçado a me envolver nela." Na história da música, valer-se de associações ao nazismo foi uma forma de chocar, causar controvérsia, uma tática explorada por bandas de metal nos anos 1980 e 1990. Depois, de modo geral isto foi abandonado pela música pesada, tendo ressurgido apenas em ocasiões pontuais. O Slayer —importante nome do thrash metal que tocará em São Paulo em dezembro—, fez uma música sobre Josef Mengele, médico que realizou experimentos cruéis em prisioneiros de Auschwitz. Lemmy Kilmister, vocalista e baixista do Motörhead morto em 205, colecionava parafernália militar da Segunda Guerra Mundial, incluindo itens do regime nazista. Mas o exemplo de maior repercussão, dentro e fora do universo do metal, foi a saudação de ares nazistas que o vocalista do Pantera, titãs do thrash metal dos anos 1990, fez num show há mais de dez anos. Phil Anselmo gritou "white power", poder aos brancos, enquanto estendia o braço direito para a plateia, ao final de uma apresentação na Califórnia. Acadêmicos que estudaram música pesada, Keith Kahn-Harris, Titus Hjelm e Mark LeVine escreveram que "a controvérsia é parte integrante da cultura do heavy metal —quase a ponto de ser da ‘natureza’ do heavy metal ser controverso". Num artigo, os pesquisadores ligam a controvérsia tanto a letras de músicas que não tinham qualquer referência ao nazismo, mas que foram tema de audiência no Senado dos Estados Unidos por seu conteúdo supostamente ofensivo aos valores sociais dominantes, quanto a crimes reais, como os incêndios a igrejas e assassinatos vinculados à cena de black metal da Noruega. Com acenos ao nazismo presentes em vários gêneros de música em diferentes décadas, é de se perguntar a partir de que ponto empregar referências a um regime de extermínio pode normalizar ideais de governos extremistas. "Imediatamente", diz o autor do livro. "A suástica foi adotada por Hitler para simbolizar o antissemitismo. A Alemanha travou uma guerra racial e tentou aniquilar os 11 milhões de judeus da Europa. Qualquer uso de iconografia nazista é uma representação daquele ideal." O número era o total de judeus que a Alemanha planejava exterminar, incluindo a população de países que os nazistas não haviam ocupado. Ainda de acordo com Rachel, um dos fatores que fez o nazismo atrair tantos músicos tem a ver com a educação. Ele lembra que, na Inglaterra, o Holocausto só entrou no currículo escolar no início da década de 1990 —antes disso, não fazia parte da grade obrigatória de boa parte dos alunos. E o dia de lembrança do Holocausto, o Holocaust Memorial Day, só passou a ser observado no país em 2001, mais de 50 anos desde o fim da Segunda Guerra. "Como podemos esperar que as pessoas combatam o antissemitismo se ele não é ensinado em locais seguros, como as escolas?" Questionado sobre até que ponto bandas, fãs e indústria da música devem ser escrutinados pelo fascínio que parecem nutrir pelo regime de Hitler, ele afirma que a responsabilização é uma questão central. "Não podemos mudar o passado. Temos que reconhecê-lo e aceitá-lo. Mas podemos seguir em frente com conhecimento, remorso e uma responsabilidade coletiva."

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.