"Doutor, quando o senhor é chamado na casa de um paciente, onde a família recebe o senhor?" Respondi que era na sala ou no quarto do doente. Ela acrescentou: "Nós somos recebidas na cozinha, porque é lá que está a mulher. Ela é que cuida da saúde dos filhos e do marido". Tive essa conversa com dona Cícera Munda, agente de saúde de uma comunidade com cerca de 40 casinhas distantes umas das outras, nas proximidades de Tauá, em pleno sertão do Ceará. Dona Cícera é uma mulher de meia-idade, cabelos presos numa trança bem feita, óculos e uma camiseta de agente de saúde, profissão à qual se dedica desde 2000. Quando começou, os problemas eram ligados à miséria e à falta de saneamento. "Fome, diarreia, desidratação, morria mãe no parto, criança pequena, até morte por cólera tinha aqui." Como na maior parte do país, hoje os problemas de saúde da comunidade são as doenças crônicas. "Hipertensão arterial, diabetes. Agora, diarreia é difícil. Eu costumo dizer que o nosso povo aqui não é mais morredor, não." Entramos na casa de uma moradora com quatro filhos pequenos. Contou que, quando ficam doentes, a primeira providência é chamar dona Cícera. "É ela que orienta a gente. Se diz que é para ficar em casa e dar um remédio caseiro, a gente fica. Se diz que é preciso ir para a Unidade Básica de Saúde, eu levo. Se é mais grave, tem que ir para Tauá." No início, foi difícil tirar as mulheres de casa para praticar atividade física. "Os homens aqui são machistas, não deixam a mulher vestir calção, camiseta e sair correndo. Dizem que os outros vão olhar para as pernas delas." Ela contornou o problema criando um forró feminino duas noites por semana, na sala de uma casa que funciona como centro comunitário. Os homens são proibidos de entrar. Se forem buscar as mulheres no fim do baile, esperam do lado de fora, longe da porta, para que não sejam vistos nem possam vê-las. Filmamos o baile. Na sala, apenas uma prateleira com a estátua de uma santa na parte central. Uma das mulheres trouxe um equipamento de som pobrezinho. Antes de começar a música, uma delas cobriu a santa com uma toalha. Jovens, velhas e adolescentes dançavam em pares, na alegria que costuma tomar conta das mulheres quando estão em grupo, sem homens por perto. O baile durou duas horas. A conversa com dona Cícera e a cena do baile foram gravadas pela produtora Júpiter, para o documentário "Drauzio e os Agentes", que está disponível no YouTube, com o objetivo de divulgar o trabalho dessa legião de mulheres e homens que fazem parte do Estratégia Saúde da Família, considerado um dos maiores programas de saúde pública do mundo. Desconhecido pela maioria dos brasileiros, o Estratégia é formado por mais de 53 mil equipes, presentes em 99% dos municípios brasileiros. São formadas por um médico, uma enfermeira, uma técnica ou auxiliar de enfermagem e até 12 agentes comunitárias que cumprem 40 horas semanais. Desde que haja recursos, outros profissionais podem ser incorporados às equipes: técnicos em saúde bucal, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogas, fonoaudiólogas, terapeutas ocupacionais, entre outras —uso o feminino, porque são mulheres na maioria. O objetivo do programa é garantir acesso universal aos serviços de saúde, com atenção especial às pessoas em situação de vulnerabilidade, às crianças, aos idosos e aos que sofrem de doenças crônicas. De porta em porta, as agentes chegam a cerca de 70% dos lares brasileiros, cadastram os moradores, encaminham e acompanham as grávidas para o pré-natal e os que necessitam de atendimento para avaliação da equipe na Unidade Básica de Saúde local. Somados aos agentes das endemias, formam um exército de 400 mil profissionais que prestam serviços nas 45 mil UBSs espalhadas pelo país. Nos municípios em que o programa é bem organizado pelos prefeitos e governadores, as equipes podem evitar até 80% a 90% das internações hospitalares, como alguns estudos demonstraram. Numa época em que o equilíbrio fiscal é prioridade, esse é o melhor caminho a ser seguido pelo SUS e mesmo pela Saúde Suplementar. Não são os médicos, mas agentes comunitárias como dona Cícera, os profissionais mais importantes da saúde pública brasileira. Quantos de nós, médicos, somos recebidos nas cozinhas das casas? Qual de nós teria a ideia de promover um forró para as mulheres fazerem exercício? LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Agentes comunit�rias s�o as mais importantes da sa�de p�blica brasileira
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