O acordo do governo de Donald Trump para assumir participação na exploração do petróleo da Venezuela reacendeu críticas sobre uma retomada de práticas consideradas neocoloniais dos Estados Unidos na América Latina. Analistas ouvidos pela Bloomberg apontam riscos políticos e jurídicos para o projeto, e economistas questionam a capacidade de o país aumentar sua produção no curto prazo. Detalhes divulgados nesta terça-feira (1º) mostram que o governo americano deverá adquirir 35% da Nabep (North American Blue Energy Partners), empresa liderada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt. A companhia terá concessões de cem anos para explorar 17 campos de petróleo no país e poderá conceder licenças ou formar joint ventures com outras empresas de energia. Em troca da participação, Washington terá direito de comprar, a preço de custo de produção, 20% de todo o petróleo extraído nos campos atuais e futuros operados pela Nabep. Os EUA também terão preferência na compra dos 80% restantes em situações de emergência, segundo documento informativo da Casa Branca obtido pelo Financial Times. Para Alejandro Velasco, professor de história da Universidade de Nova York, a atual situação apresenta paralelos com a atuação da United Fruit Company na América Central no início do século 20, que ajudou a popularizar o termo "república das bananas" para designar países latino-americanos submetidos a forte influência econômica e política estrangeira. Analistas e historiadores comparam o projeto com o período em que empresas americanas exerceram forte influência sobre governos e recursos naturais da América Latina. O economista Paul Krugman também classificou o acordo como uma forma de apropriação de recursos naturais em um texto publicado na plataforma Substack nesta terça. Para ele, a iniciativa recupera uma lógica imperialista que os Estados Unidos haviam abandonado nas últimas décadas. Krugman também questiona a vantagem econômica do acordo para os americanos. Segundo ele, mesmo uma estimativa favorável para o valor do petróleo venezuelano seria pequena diante da riqueza total dos Estados Unidos, enquanto os investimentos necessários para recuperar a infraestrutura e extrair o óleo seriam elevados. Especialistas ouvidos pelo Financial Times avaliam que, mesmo que o acordo seja mantido, a recuperação da produção venezuelana levará anos e não deverá produzir efeitos relevantes sobre os preços dos combustíveis americanos no curto prazo. "Isso está provocando uma reação negativa", afirmou Elias Ferrer, fundador da Orinoco Research, ao jornal. Segundo ele, o acordo pode alimentar, ao longo do tempo, o ressentimento contra o governo de Delcy Rodríguez, Trump e os Estados Unidos. A Bloomberg lembra que, durante boa parte do século 20, companhias estrangeiras dominaram a produção de petróleo venezuelana. Na década de 1940, empresas estrangeiras respondiam por cerca de 94% da produção do país. A indústria foi nacionalizada nos anos 1970, reaberta parcialmente a companhias estrangeiras nos anos 1990 e voltou a sofrer maior controle estatal durante o governo de Hugo Chávez, nos anos 2000. A história também inclui a expropriação de ativos de empresas americanas. ExxonMobil e ConocoPhillips tiveram operações nacionalizadas durante as mudanças políticas ocorridas na Venezuela nos anos 2000. A Chevron foi a única grande produtora americana a manter uma presença relevante no país. DETALHES DO ACORDO A Nabep poderá se tornar a segunda maior companhia privada do mundo em reservas comprovadas de petróleo, atrás apenas da Saudi Aramco, segundo autoridades americanas. A Casa Branca afirma que a maior parte dos campos que serão operados pela empresa já esteve sob controle ou operação de grupos russos e chineses. Trump anunciou o acordo na sexta-feira (28), quando afirmou que os EUA passariam a controlar mais de 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano. Segundo o presidente americano, a iniciativa tem entre seus objetivos ampliar as reservas dos Estados Unidos, atrair investimentos para a deteriorada indústria petrolífera venezuelana e reduzir os preços dos combustíveis no país. A dimensão do projeto, porém, surpreendeu parte da indústria petrolífera americana. Segundo a Bloomberg, as empresas do setor não haviam sido informadas previamente sobre o plano. Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips, as três maiores produtoras americanas, não comentaram o acordo. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. A expectativa de que o petróleo venezuelano ajude a reduzir os preços da gasolina nos EUA também é considerada distante. A Venezuela produz atualmente cerca de 1,12 milhão de barris por dia, ante 3,5 milhões de barris diários no auge da produção, nos anos 1970. Os Estados Unidos produzem cerca de 13,8 milhões de barris por dia. Para o aumento da produção venezuelana, seriam necessários investimentos estimados em até US$ 100 bilhões, segundo Schreiner Parker, da consultoria Rystad Energy, citado pelo Financial Times. O montante seria necessário não apenas para perfurar novos poços, mas também para recuperar oleodutos, sistemas de coleta, fornecimento de energia, instalações de processamento e logística. A maior parte do petróleo venezuelano é pesado, de difícil extração e processamento. Segundo Parker, o desenvolvimento dos 17 campos previstos no acordo e um eventual aumento de cerca de 1,5 milhão de barris por dia na produção do país poderiam levar até uma década. "Os riscos políticos significativos, tanto em Washington quanto em Caracas, limitarão os impactos do plano", afirmou Bob McNally, fundador da consultoria Rapidan Energy Group, ao Financial Times. Para ele, mesmo que o acordo sobreviva a questionamentos jurídicos, um futuro governo americano ou venezuelano poderia decidir abandoná-lo. A duração do contrato é um dos pontos que levantam dúvidas entre analistas. A Venezuela já nacionalizou ativos de empresas estrangeiras em diferentes momentos de sua história, enquanto governos americanos também podem mudar de orientação sobre a política energética e a relação com Caracas. "Se eu fosse um investidor na Venezuela agora, estaria me perguntando se haverá um governo no futuro que rejeitará os contratos", afirmou Francisco Rodríguez, economista venezuelano e professor da Universidade de Denver, segundo a Bloomberg. A escolha de Betancourt como sócio também pode dificultar a entrada de investidores. O empresário é uma figura controversa na Venezuela e já foi investigado na Suíça por lavagem de dinheiro, segundo o Financial Times. Ele é proprietário da segunda maior empresa privada de petróleo do país. "Tenho dificuldade para entender de que forma dar a Betancourt ou ao Pentágono um papel central na gestão de reservas petrolíferas significativas atende ao interesse nacional da Venezuela?", afirmou Ricardo Hausmann, economista de Harvard e ex-ministro do Planejamento venezuelano, ao jornal britânico. O acordo também enfrenta oposição política dentro da Venezuela. Grupos de esquerda protestaram em Caracas no sábado (29), classificando a iniciativa como uma forma de "tutela" dos EUA. Setores da oposição também criticaram o pacto. Nos Estados Unidos, democratas já questionaram o acordo. O senador Chris Van Hollen, de Maryland, afirmou que Trump teria colocado militares americanos em risco para obter petróleo venezuelano para empresários bilionários. Caso o Partido Democrata avance nas eleições de meio de mandato de novembro, o pacto poderá passar por maior escrutínio no Congresso.
Acordo de Trump sobre petr�leo da Venezuela reacende temor de neocolonialismo
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