A Meta, dona do Facebook e do Instagram, começou a ser julgada em um tribunal federal há algumas semanas. Cerca de 47 estados a acusavam de promover produtos viciantes e nocivos para jovens. Foi uma ofensiva judicial abrangente. Avaliada em US$ 1,47 trilhão (R$ 7,64 tri), a Meta alertou que poderia ter de arcar com US$ 1,4 trilhão (R$ 7,2 tri). É dinheiro de verdade, até mesmo no Vale do Silício. Como a Meta já havia perdido ou feito acordos em vários processos envolvendo redes sociais neste ano, críticos e analistas começaram a se perguntar: seria este um momento similar ao que viveu a indústria do tabaco —ocasião histórica em que um passatempo antes popular foi deixado de lado pela ação conjunta de órgãos reguladores, tribunais e ativistas? Na quarta-feira (26), a Meta chegou a um acordo com os estados. Pagará até US$ 17,1 bilhões (R$ 88,8 bi) ao longo de pouco mais de uma década e modificará suas plataformas de redes sociais para torná-las menos compulsivas para os jovens. A quantia é consideravelmente inferior a US$ 1 trilhão (R$ 5,2 tri). Os que esperavam o fim das redes sociais tal como as conhecemos e a queda do CEO da Meta, Mark Zuckerberg, manifestaram abertamente sua decepção. "Essa penalidade é minúscula quando se consideram a riqueza e o poder por trás da Meta", reclamou no Bluesky a Public Citizen, organização de defesa dos direitos do consumidor. Se os críticos das redes sociais não viveram seu momento decisivo da indústria do tabaco, disseram historiadores, talvez seja porque estavam perseguindo um mito, e esse momento, na verdade, não foi tão grandioso assim. Em 1998, órgãos reguladores estaduais se uniram para firmar um acordo com as quatro grandes empresas de tabaco. No chamado Acordo-Quadro de Conciliação, essas empresas concordaram em pagar mais de US$ 200 bilhões —mais de US$ 400 bilhões (R$ 2 tri) em valores atuais— ao longo dos 25 anos seguintes, interromper a publicidade voltada aos jovens e promover outras mudanças. Foi o maior acordo já firmado em defesa dos consumidores. Desde então, o tabagismo vem diminuindo. Trinta anos atrás, fumar entre adolescentes era algo comum, às vezes até descolado. Mais de um terço dos jovens tinha esse hábito. Em 1999, um sucesso de Hollywood consolidou o legado do acordo. "O Informante", estrelado por Russell Crowe no papel de um denunciante acuado de uma fabricante de cigarros, retratou a luta contra o tabaco em termos altamente dramáticos. O filme é aclamado até hoje. Mas a luta contra os cigarros foi, de modo geral, bem menos cinematográfica, dizem historiadores. "O Acordo-Quadro de Conciliação atendia aos interesses das empresas de tabaco", disse Louis Kyriakoudes, diretor do Albert Gore Research Center da Middle Tennessee State University. "Elas pagaram para se livrar de litígios importantes e receberam permissão para continuar fazendo negócios." Robert Proctor, professor da Universidade Stanford e autor de "Golden Holocaust: Origins of the Cigarette Catastrophe and the Case for Abolition", foi mais mordaz. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. "Hoje não é o começo do fim das redes sociais, assim como 1998 não foi o começo do fim da grande indústria do tabaco", afirmou. "Os americanos ainda fumam mais de 170 bilhões de cigarros por ano e inalam toneladas adicionais de nicotina por meio de variantes ‘eletrônicas’. Como nos esquecemos facilmente!" Proctor foi entrevistado a caminho de um julgamento contra um gigante do tabaco no qual atuaria como perito. Os processos nunca cessaram, acrescentou. Enquanto houve uma derrocada da grande indústria do tabaco, ela levou décadas para acontecer, afirmou Sarah Milov, autora de "The Cigarette: A Political History". "A Meta de 2026 está em situação melhor do que a grande indústria do tabaco estava em 1998", escreveu ela por email. "Em 1998, o tabaco —e, mais especificamente, o ato de fumar em público— já estava sob ataque social e jurídico havia mais de um quarto de século. O acordo não foi um alerta para essas empresas. Durante décadas, ativistas se mobilizaram para tornar o fumo e, em certa medida os fumantes, socialmente inaceitáveis." Pressionadas por ativistas, as prefeituras primeiro restringiram e depois proibiram o fumo em locais públicos, observou. O mundo corporativo aderiu ao movimento. Os fumantes eram cada vez mais vistos como maus funcionários: adoeciam, estragavam equipamentos e faziam pausas demais. A campanha contra as redes sociais está longe de ser tão disseminada ou bem-sucedida. Kyriakoudes disse que o acordo firmado pelos estados com a Meta nesta semana talvez seja uma vitória simbólica, mas que os símbolos importam. "Algo que ressurge periodicamente na história americana é uma profunda hostilidade contra grandes centros de poder concentrado que parecem não prestar contas a ninguém", afirmou. "Isso aconteceu com as fabricantes de cigarros e parece estar acontecendo com as empresas de redes sociais." A Meta incentivou a comparação com a indústria do tabaco em uma petição apresentada no mês passado, na qual afirmou que a empresa poderia ser responsabilizada por US$ 1,4 trilhão, aproximadamente o valor de toda a empresa. A Meta chegou a esse montante multiplicando milhões de usuários pelas violações cometidas a cada uso. "Uma sanção dessa magnitude não tem paralelo na história da aplicação das leis de defesa do consumidor", protestou a big tech. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Embora seja um dos maiores acordos já firmados com uma única empresa, US$ 17,1 bilhões representam apenas um tiro de raspão para uma companhia que teve lucro líquido de US$ 60 bilhões (R$ 311,7 bi) no ano passado. "A Meta sempre optará por pagar, em vez de lutar, porque assim não precisa mudar", escreveu no Bluesky Anil Dash, empreendedor e crítico do setor de tecnologia. As ações da Meta subiram imediatamente após o acordo, indicando que anteviam poucas consequências de longo prazo. No entanto, é difícil saber quais serão os efeitos. O acordo do tabaco exigiu a divulgação de documentos do setor que comprometiam as empresas, o que, por sua vez, reduziu ainda mais seu apoio político e inspirou novas ações contra elas. Não há exigência equivalente no acordo firmado pela Meta, mas os processos já revelaram documentos devastadores. Um dos motivos pelos quais as redes sociais talvez acabem tão condenadas ao ostracismo quanto os cigarros, pelo menos entre os adolescentes, é o fato de funcionários da Meta terem comparado explicitamente os dois produtos em comunicações internas. "Ah, ótimo, agora estamos indo atrás dos menores de 13 anos?", escreveu um funcionário em um documento citado em pelo menos um processo. Ele acrescentou que "mirar crianças de 11 anos lembra as empresas de tabaco de algumas décadas atrás —e de hoje. É como se estivéssemos dizendo, a sério: ‘Temos de viciá-los desde cedo’".
Acordo da Meta frustra quem esperava desfecho similar ao vivido pela ind�stria do tabaco
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