Um pequeno molde de argila encontrado recentemente em Jerusalém ajuda a iluminar uma questão importante sobre as origens do monoteísmo. A religião descrita na Bíblia era realmente praticada pela população de Judá ou representava, em parte, um programa que seus autores queriam impor? O novo achado reforça a segunda possibilidade. Quando certos textos bíblicos condenam imagens e o culto a outras divindades, eles talvez não estejam descrevendo práticas marginais. Estão combatendo uma realidade religiosa muito mais diversa do que aquela que desejavam estabelecer como regra. O objeto foi descoberto nas escavações do Kishle, no complexo da Torre de Davi, junto à Porta de Jafa. Trata-se de um molde usado há cerca de 2.600 anos para fabricar a cabeça de pequenas figuras femininas de argila. Estamos, portanto, nas últimas décadas do Reino de Judá, cuja capital era Jerusalém. Esse reino desapareceria em 586 a.C., quando os babilônios conquistaram a cidade, destruíram o templo de Yahweh e deportaram parte de sua população. Depois de limpo, o molde revelou o negativo de um rosto feminino, com olhos destacados e cabelos encaracolados. É o primeiro objeto desse tipo encontrado em Jerusalém e mostra que ao menos algumas dessas figuras eram fabricadas na própria cidade. Elas são bem conhecidas dos arqueólogos. Centenas de exemplares das chamadas "estatuetas de pilar judaítas" foram encontrados em casas, tumbas e outros contextos de Judá, sobretudo entre os séculos 8º e 6º a.C. São pequenas figuras femininas, frequentemente representadas com as mãos junto aos seios. Algumas têm rostos feitos rapidamente à mão; outras, como aquelas produzidas com o molde recém-descoberto, apresentam feições mais elaboradas. Mas quem era essa mulher? Não sabemos ao certo. Há décadas, os arqueólogos discutem se essas estatuetas representavam uma deusa, se serviam como objetos de proteção doméstica, se estavam associadas à maternidade e à fertilidade ou cumpriam alguma outra função ritual. Uma hipótese particularmente importante identifica algumas delas com Asherah. No antigo Levante, Asherah era uma divindade feminina conhecida muito antes do período bíblico e integrada às tradições religiosas cananeias. Ela também aparece na própria Bíblia. No Segundo Livro dos Reis, o rei Manassés é acusado de ter colocado uma imagem de Asherah dentro do templo de Jerusalém. Algumas décadas depois, seu neto Josias teria mandado retirar do templo objetos ligados a Baal e Asherah e destruído lugares associados a seus cultos. Esses episódios se situam no século 7º a.C., pouco antes do período ao qual pertence o molde agora descoberto. Segundo a narrativa bíblica, Josias procurou concentrar o culto em Jerusalém e eliminar práticas consideradas ilegítimas. É aqui que a arqueologia oferece outras maneiras de ler a Bíblia. Podemos imaginar que os habitantes de Judá eram essencialmente monoteístas, adoravam apenas Yahweh e, ocasionalmente, alguns deles se desviavam dessa religião. Essa é, em grande medida, a perspectiva que os próprios autores bíblicos defenderam em seus escritos. Mas existe outra possibilidade. Se esses autores insistem tanto em proibir imagens, destruir altares e combater outras divindades, talvez seja justamente porque essas práticas estavam presentes na sociedade que pretendiam reformar. A arqueologia fornece bons motivos para levar essa hipótese a sério. As pequenas estatuetas femininas aparecem em grande quantidade em Judá. E inscrições do século 8º a.C. encontradas em lugares como Kuntillet Ajrud e Khirbet el-Qom chegaram a mencionar "Yahweh e sua asherah". A expressão continua sendo discutida. Não sabemos se "asherah" designava nesses casos uma deusa associada a Yahweh ou um objeto ritual relacionado a ela. Mas a simples existência dessas inscrições mostra que as fronteiras entre o culto a Yahweh e outras tradições religiosas eram menos rígidas do que o monoteísmo posterior faria supor. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha É por isso que o molde encontrado em Jerusalém é importante. Ele não demonstra que a mulher representada era Asherah. Fazer essa identificação seria ir além do que a arqueologia permite afirmar. O molde mostra, porém, que essas figuras não apenas circulavam em Jerusalém: elas eram produzidas ali. Havia artesãos capazes de fabricá-las e, presumivelmente, pessoas interessadas em adquiri-las e utilizá-las. Isso acontecia justamente na cidade que os textos bíblicos apresentam como centro exclusivo do culto a Yahweh. A descoberta revela, assim, dois mundos convivendo na mesma Jerusalém. De um lado, círculos religiosos e do poder defendiam a concentração do culto em Yahweh e condenavam imagens e divindades concorrentes. De outro, homens e mulheres continuavam recorrendo a objetos e práticas religiosas que não se encaixavam nesse projeto. O monoteísmo bíblico não deve ser entendido apenas como a descrição de uma religião já existente. Em parte, ele foi também um projeto de transformação religiosa. A Bíblia preservou a voz daqueles que venceram essa disputa. O pequeno rosto de argila encontrado sob Jerusalém nos permite entrever um mundo religioso que eles estavam tentando transformar e, em muitos casos, fazendo desaparecer.
Achado em Jerusal�m revela cultos que autores b�blicos tentaram apagar
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.