Grandes consultorias apontam, ano após ano, que o mercado de pessoas com deficiência no mundo gira na casa dos bilhões e bilhões de dólares, uma imensa oportunidade para empresas que desejem explorá-lo. Se isso é verdade, por que os CEOs das maiores empresas não se dão conta de quanto dinheiro estariam deixando na mesa? O que mais falta para que os eletrodomésticos venham com botões que possam ser sentidos pelos dedos dos consumidores cegos ou os produtos no supermercado tenham embalagem com braille? Os fatores são vários e não descarto haver capacitismo puro, desconhecimento de que esse público existe e faz suas escolhas. Mas também creio que executivos fazem contas e percebem que o retorno sobre o investimento pode não ser o que os acionistas desejam. Pessoas com deficiência são um grupo heterogêneo. Atender bem uma pessoa invisual não tem muito a ver com as melhorias necessárias para um surdo ou alguém com mobilidade reduzida. Além disso, o grupo foi historicamente excluído do mercado de trabalho e ainda enfrenta desafios estruturais. Basta lembrar que a proporção de pessoas economicamente ativas é menos da metade daquela registrada entre pessoas sem deficiência. Pense em uma peça de teatro. Só para garantir acessibilidade comunicacional, precisaremos ao menos de um intérprete de Libras, um audiodescritor, um narrador e um consultor para revisar o conteúdo. Quantos cegos e surdos teriam de passar por ali para que todo esse investimento desse lucro na bilheteria? Ou seja, enquanto a igualdade no consumo depender da mão invisível do mercado, seguiremos muito longe de onde deveríamos chegar. Até existem casos em que nos beneficiamos de mudanças de comportamento ou avanços tecnológicos que abrangem a todos. Quando eu era adolescente, pegava audiolivros emprestados em CD na Fundação Dorina Nowill para Cegos, que mantinha um acervo que sempre crescia, mas sempre deficitário em relação ao que eu queria ler. Até que a Audible e o Spotify passaram a oferecer audiolivros no Brasil, mirando o público que enxerga, e agora o acervo é imensamente maior. Não podemos depender dessa sorte para participarmos da sociedade. Não dá para baixar um aplicativo de banco e ficar torcendo para que seja acessível e não exija reconhecimento facial que nos impeça de usá-lo. Voltando ao teatro. Temos dois caminhos: deixar para lá, porque é um gasto, ou tornar a acessibilidade obrigatória para espetáculos a partir de determinado tamanho e que recebam incentivos fiscais. Felizmente, a segunda opção vem ganhando força, mesmo que com resistência, por vezes até dos atores envolvidos no espetáculo. E, no fim das contas, a economia tem seu papel, sim. A acessibilidade pode entrar na agenda se houver incentivos para o investimento nela, regulações definindo quais recursos são obrigatórios e sanções para quem não faz o mínimo. Muitas das mãos que podem fazer o cenário melhorar foram eleitas no mês passado, quando escolhemos deputados, senadores, governadores e presidente. Cabe a nós manter a mobilização das últimas semanas na hora de defender propostas que garantam livros em braille nas escolas, semáforos com som na esquina de casa e eliminem tantas outras injustiças que não se resolvem só com nosso dinheiro. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Acessibilidade n�o precisa dar lucro para exigir respeito
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