Aceito doa��es para minha cole��o de segredos

Aceito doa��es para minha cole��o de segredos

Contar segredos alivia. Quando vejo uma plateia lotada, um grupo de pessoas em relativa concentração, costumo perguntar se alguém tem um segredo de família que gostaria de contar para mim. Eu coleciono. Já colecionei búzios, pedras, santos, coisas que ocupam espaço. Segredos contados são leves como o vento; sempre terei lugar para mais um. De vez em quando é necessário libertar as coisas que se guarda. Há um efeito de catarse. Mas não é em qualquer lugar que se lança uma pergunta assim. Depende do contexto, da faixa etária, da hora do dia e, sobretudo, do que está sendo servido. Pergunto porque vale a pena. É uma forma de juntar todas as pessoas com foco e atenção para uma só voz. Esses dias ouvi um dos mais absurdos, sobre o primo de uma moça que estava desaparecido e foi encontrado em situação trágica, atropelado. Um dos parentes foi ao IML para reconhecer e liberar o corpo. Fizeram velório, caixão aberto, com reações diversas da família. Pena, preocupação, espanto, tristeza diante do rosto inchado de um rapaz jovem que perdeu a vida depois de tantas imprudências. As lágrimas secaram e a vida dos vivos seguiu, até que o morto tocou a campainha seis meses depois. Estava vivo e limpo, não parecia ter saído da tumba, pois nunca esteve lá. Quem reconheceu o corpo errou. Era outra pessoa. Pelo que soube, é muito complicado enterrar o morto errado. Tem que tirar o caixão, pagar novos trâmites de exames do cadáver, tentar descobrir quem é a pessoa. E desmorrer o parente. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Parece que, nesse caso, a recepção do ex-morto foi tão ruim que ele achou melhor sumir de novo mundo afora e seguir oficialmente morto. Eu faria o mesmo. Quer ser bom, morra, já dizia a minha avó. Só não invente de viver de novo, eu completaria, depois de ouvir a história da moça de sábado. Outra vez me contaram de um rapaz que descobriu ser filho do melhor amigo do pai. A mãe iniciou um processo de demência senil e acabou revelando. Uma frase e a vida mudou para sempre. Assim foi também com a senhora que fumava desde que se entendia por gente, mas, quando começou a ficar esquecida da própria vida, acreditou na ideia de que nunca tinha nem visto um cigarro de perto. Ah, eu não fumo, não? De onde eu tirei isso? E nunca mais fumou. Seria preciso esconder as provas, as fotos, as filmagens de família. O segredo era da neta, que mentiu friamente e realizou um milagre. Quem começa a carreira de segredos na infância costuma ter uma vida de aperfeiçoamento contínuo. Sei de uma menina que começou a enterrar os óculos dos familiares no jardim de casa. Sumiam, ninguém achava nunca. Uma vez aconteceu um crime na vizinhança e precisaram investigar os quintais por perto. Lá estavam os óculos, descobertos pela polícia. E a mulher adulta, culpada, que nunca teve coragem de assumir, estava pálida. Tentou impedir a escavação e acharam que poderia ser a assassina. Por algum motivo, ela achou por bem falar dos Sacis, do quanto eles são astutos nisso de esconder coisas. Está no depoimento oficial. O que se guarda aqui aparece em outro lugar, de alguma maneira. Um primo, um cigarro, um pai, pares de óculos. Quem tem segredo vive um assombro. Se tiver um por aí, aceito doações. E vou seguir perguntando, ouvindo, aliviando os corações que guardam as pedras do passado. Uma das definições do meu trabalho, afinal, é fazer pedra virar palavra. Enfrentar os segredos é a nossa maior confissão de humanidade. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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